BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

domingo, 23 de novembro de 2014


Angola:

É tudo por competência!


cleptomaniacamente

1. Ministro das Finanças: Carlos Lopes, marido da irmã da primeira-dama, Ana Paula dos Santos.

2. Ministro do Ensino Superior, Adão Do Nascimento, sobrinho do presidente, José Eduardo dos Santos.

3. Vice-presidente da Republica, Manuel Vicente, enteado da falecida irmã do presidente, José Eduardo dos Santos.

4. Secretário de Estado para Habitação, Joaquim Silvestre, irmão da primeira-dama, Ana Paula dos Santos.

5. Secretária do Presidente para Assuntos Particulares, Avelina dos Santos, sobrinha do Presidente, José Eduardo dos Santos, filha do seu irmão Avelino dos Santos.

6. Administrador do Fundo Soberano, Zenu dos Santos, filho do Presidente, José Eduardo dos Santos.

7. Secretário-Geral da casa militar, Catarino dos Santos, sobrinho de José Eduardo dos Santos, filho do seu irmão Avelino dos Santos.

8. PCA da EPAL, Leonildo Ceita, primo da primeira-dama.

9. PCA da ENANA, Manuel Ceita, primo da primeira-dama Ana Paula dos Santos.

10. PCA do Banco de Comércio e Indústria (BCI), Filomeno Ceita primo da primeira-dama.

11. Director do Instituto Nacional de Estatística, Camilo Ceita, primo da primeira- dama, Ana Paula dos Santos.

12. PCA da MECANAGRO, da GESTERRA e presidente da Federação Angolana de Hóquei em Patins, Carlos Alberto Jaime Calabeto, sobrinho e primo do presidente, José Eduardo dos Santos.

13. Governador do BNA, José Massano, amigo pessoal e ex-colega de Isabel Dos Santos, filha do presidente, José Eduardo dos Santos.

14. Vice-governador do BNA, Ricardo de Abreu, compadre e amigo pessoal de Isabel dos Santos, filha do presidente, José Eduardo dos Santos.

15. Ministra de Comércio, Rosa Pacavira, sobrinha da esposa de Avelino dos Santos, irmão do presidente, José Eduardo dos Santos.

16. Administrador da TAAG, Luís dos Santos, irmão do presidente, José Eduardo dos Santos.

17. PCA da ANIP, Maria Emília Abrantes Milucha, mãe da Tchize e Zé Dú dos Santos (Korean Dú), filhos do presidente, José Eduardo dos Santos.

18. TPA 2, empresa de comunicações entregue a Tchize e Corean Dú, filhos de José Eduardo dos Santos.

19 PCA da Sonangol, José Francisco de Lemos, primo da primeira-dama, Ana Paula dos Santos.

Chééé.......mininoooooo........!!!, isso é muiiiiita confusão nus cabéça di vélho ..






sábado, 15 de novembro de 2014


Cordão Humano pela defesa do Instituto de Odivelas



Ex.mo S.r Presidente da Republica, S.r D.r Aníbal Cavaco Silva,

Ex.mo S.r Primeiro Ministro, D.r Pedro Passos Coelho,

Ex.mas S.ras e S.res Deputados,

Ex.mas Amigas e Amigos do Instituto de Odivelas,

Ex.mas Meninas de Odivelas,


Vai realizar-se o Cordão Humano pela defesa da manutenção do Instituto de Odivelas.

O Cordão Humano terá terá início no Largo D. Dinis, no próximo dia 15 de Novembro a partir das 15.00h.

O Instituto de Odivelas, fundado em 1900, faz parte integrante da história, da cultura e da identidade da Cidade de Odivelas, proporcionando uma educação de excelência e contribuindo, ainda, para a coesão social e desenvolvimento económico local.

O Instituto de Odivelas, enquanto estabelecimento de ensino público, adquiriu uma dimensão e reconhecimento a nível nacional pela excelência do ensino e da formação que tem prestado ao longo dos seus 114 anos de vida.

Evitar a extinção do Instituto de Odivelas é mais do que uma questão local, é uma causa nacional, pelo que, apelamos à participação de todos.

Faça parte do Cordão Humano.

Junte-se a esta causa.

Um acto de cidadania.


Cumprimentos.


                                                                 Maria Teresa Magalhães


https://www.facebook.com/events/865042763520552/?ref=22&source=1




quinta-feira, 13 de novembro de 2014


O dependentismo


Helena Matos

O legislador, na senda iluminista de levar ao povo a revolução que não escolheu, criou o dependentismo, com programa em 3 pontos: Para mim, deveres poucos ou nenhuns. Direitos todos. Amanhã logo se vê.

Nem liberalismo, nem socialismo. A ideologia mais popular na Europa actualmente é o dependentismo. O que é o dependentismo?

Antes de explicar o que é o dependentismo deixem-me que lhes conte a história de Sandra. Ou de Sabrina. Ou de Sofia. Nomes falsos por que a história verdadeira de uma jovem espanhola chegou recentemente aos jornais: de cima dos seus quase trinta aninhos, a nossa jovem acabou de conseguir que um tribunal obrigue o seu pai a pagar-lhe uma bem simpática mesada durante mais dois anos. Com a possibilidade de esse período ser alargado caso a dita jovem não consiga terminar até lá a licenciatura em psicologia que iniciou há largo tempo. A nossa jovem, ou melhor dizendo a nossa adulta que se recusa a deixar de ter vida de adolescente, é saudável, nasceu na classe média e nada a não ser a sua vontade ou falta dela a impediu de terminar o curso em seu devido tempo. Mas o tribunal que julgou a sua acção contra o pai considera que hoje em dia é penosa a integração dos jovens no mercado de trabalho.

Qual Podemos de Pablo Iglesias ou Frente Nacional de Marine Le Pen, o nosso verdadeiro terramoto político está nas mãos destes cidadãos nascidos nos anos 80 e 90 do século passado. Ao contrário das gerações anteriores que queriam ser independentes, estes jovens que há alguns anos seriam adultos lutam para ser materialmente dependentes. Por agora exigem aos pais que os sustentem. Amanhã exigirão a mesada a quem? Não são doentes e a avaliar pelas mesadas que reivindicam em tribunal não provêm de meios pobres. São oficialmente estudantes embora da maior parte não se possa dizer que estuda de forma regular. Alegam que não conseguem encontrar trabalho compatível com as habilitações de que se acham munidos e enquanto não cair do céu o lugar para que se acham dotados consideram que os pais têm de os sustentar nessa condição de estudantes mesmo que ocasionais.

A isto junta-se que a lei é omissa no que respeita ao limite de idade para se viver de uma mesada paterna pelo que não é de estranhar que dentro de alguns anos tenhamos quarentões neste grupo de indignados.

Quase sem darmos por isso, o legislador imaginou-se «grande educador» e instalou-se na relação que pais e filhos mantêm. E agora os tribunais sentem-se competentes para dizer a um pai que tem de sustentar um filho que é maior para tudo menos para trabalhar. Criámos leis e direitos contraditórios entre si e sem qualquer adesão à realidade: os mesmos pais a quem os tribunais, sobretudo em Espanha, criam a responsabilidade de continuar a sustentar filhos de 30 anos, apesar de estes serem saudáveis, são os mesmos pais a quem esses filhos já não ajudaram nas mais prosaicas tarefas domésticas porque havia o risco de tal ser considerado trabalho infantil.

A desautorização das famílias criou monstros legais como a britânica Cinderella Law que visa criminalizar a falta de manifestações de afecto dos pais para com os filhos, o que permite todo o tipo de arbítrios e subjectividades. Ou as chamadas «leis da palmada» que, visando combater os maus tratos às crianças, optam não por prevenir esses maus tratos, nomeadamente através de um acompanhamento mais eficaz das crianças que se suspeita poderem ser vítimas deles, mas sim por transformar a mais simples repreensão num caso de polícia.

Toda esta parafernália legislativa dos últimos anos, em que o Estado se assume como um bom educador por oposição às famílias, sempre vistas como ignorantes, não protegeu mais as crianças que precisavam de ser protegidas daqueles pais que excepcionalmente as maltratam. Mas acabou claramente a desautorizar a generalidade dos pais, ou seja, aqueles que se esforçam por tratar o melhor possível os seus filhos.

Há algo de disfuncional na relação que se criou com esta geração que em vários países europeus vai ao médico pediatra até aos 18 anos, mas que pode abortar a partir dos 16 sem que os seus pais sejam sequer informados. Mas se isto é válido para a perspectiva dos pais, ou se quisermos das gerações mais velhas, do ponto de vista dos filhos o resultado é bem mais complexo: criados numa concepção de direito a isto e àquilo, foram imbuídos de que o simples acto de nascer os revestia de vários direitos materiais.

Quanto a deveres, a simples enunciação desta palavra podia causar-lhes traumas vários. Enfim, desde que não se drogassem e fossem cumprindo as etapas da vida escolar já reuniam os requisitos básicos para serem considerados exemplares. Agora muitos já nem esse mínimo se sentem obrigados a cumprir e, quando se esperaria que, pelo menos uma vez adultos, trabalhassem, antes pelo contrário seguem para tribunal reivindicando que os pais os continuem a sustentar. E o legislador, sempre na senda iluminista de levar por força de lei o povo a viver a revolução que não escolheu, vai avalizando os argumentos do dependentismo.

O dependentismo, ou seja a convicção de que os nossos direitos materiais têm de ser garantidos independentemente da possibilidade de serem custeados ou de representarem um abuso sobre aqueles que têm de os custear, é hoje a ideologia mais popular na Europa.

Visto assim sob a perspectiva de uns meninos quase trintões que querem continuar no seu viver de estudante – se fosse agora, as tias do Vasquinho acabavam condenadas em tribunal e ele nunca dissertaria sobre o mastoideu no exame de Anatomia – é fácil caricaturizar o dependentismo. Mas pensemos na recente greve dos pilotos da Air France, na resistência às reformas empreendidas pelos governos italiano e belga, na língua de pau do Tribunal Constitucional em Portugal e confrontamo-nos com versões institucionais do dependentismo, essa ideologia cujo programa se resume a três pontos: «Para mim, deveres poucos ou nenhuns. Direitos todos. Amanhã logo se vê.»

Parece uma coisa de crianças e em parte é. Afinal o dependentismo infantilizou os europeus. Estes, sempre tão disponíveis para se deixarem enlevar por tudo aquilo que lhe parecesse uma vaga alternativa às suas democracias, não ficaram mais realistas após a queda do Muro de Berlim. Antes pelo contrário, os vendedores de utopias que por aí andam agora nem têm de se confrontar com o falhanço dos modelos alternativos.Valha a verdade eles também não defendem propriamente modelos alternativos de sociedade ou quando os defendem escondem-nos o suficiente porque sabem que ninguém quereria viver em tal inferno.

O que os infantilizados eleitores europeus querem não se distingue muito das exigências de mais mesada dos trintões espanhóis: afinal todos querem mais algum tempo de recreio. Se pudessem diziam como as crianças quando dantes brincavam na rua e as chamavam para ir jantar: «Já vou. Só mais um bocadinho!»






Palavras para quê?

É um artista português...








Livro







terça-feira, 11 de novembro de 2014


80% dos catalães quer a independência



Hino da Catalunha
Els Segadors — Hino de Catalunha

        Catalunya, triomfant,
        tornarà a ser rica i plena!
        Endarrera aquesta gent
        tan ufana i tan superba!

        Bon cop de falç!
        Bon cop de falç, defensors de la terra!
        Bon cop de falç!

        Ara és hora, segadors!
        Ara és hora d'estar alerta!
        Per quan vingui un altre juny
        esmolem ben bé les eines!

        Bon cop de falç!
        Bon cop de falç, defensors de la terra!
        Bon cop de falç!

        Que tremoli l'enemic
        en veient la nostra ensenya:
        com fem caure espigues d'or,
        quan convé seguem cadenes!

        Bon cop de falç!
        Bon cop de falç, defensors de la terra!
        Bon cop de falç!


(Tradução)

        Catalunha, triunfante,
        tornará a ser rica e plena!
        Por detrás desta gente
        tão ufana e tão soberba!

        Bom golpe de foice!
        Bom golpe de foice, defensores da terra!
        Bom golpe de foice!

        Agora é hora, segadores!
        Agora é hora de estar alerta!
        Para quando chegar o outro Junho
        amolem bem as ferramentas!

        Que trema o inimigo
        mostraremos a nossa bandeira:
        como fazemos cair as espigas de ouro,
        quando convém ceifamos correntes!





segunda-feira, 3 de novembro de 2014


«Disse à minha mulher:

não te preocupes que qualquer dia eu volto»


Morreu o comandante Alpoim Calvão. Soube da sua morte através do António Lobato, o piloto que passou mais de sete anos preso na Guiné Conakry e que foi libertado na Operação Mar Verde. Facto que, durante anos, não pôde contar a ninguém. Parece-me uma boa altura para recordar a história do António Lobato, o primeiro piloto português a despenhar-se na Guiné, e a sua aventura até à libertação. O testemunho dele faz parte do livro Dias de Coragem e Amizade. A fotografia é do Rafael G. Antunes.

«Disse à minha mulher:
não te preocupes que qualquer dia eu volto»

Nunca tinha saído de Portugal. Quando começaram a pedir voluntários para a Guiné, ofereci-me. Estávamos em 1961. Cheguei lá a 26 de Julho e não estava à espera do que ia encontrar. Depois de uma viagem de 11 horas, com paragem em Las Palmas, o avião fez escala em Bissalanca para me largar e a outro colega, antes de seguir para Cabo Verde. Na descida comecei a sentir um calor enorme e cheguei a pensar que o avião ia arder. Mas não. Era do clima. Lá em baixo, o aeroporto era um bocado de asfalto no meio de capim com dois metros de altura. Estava escuro como breu e, além de uma casinha com uma suposta torre, não havia mais nada. Nem sequer aviões.

Meia hora depois de chegarmos lá apareceu um rapaz, radiotelegrafista, que só lá estava porque de vez em quando passavam por ali os P2V5 que saiam do Sal. Ele sabia que íamos chegar e foi buscar-nos num jipe. Apresentou-se e levou-nos para Bissau. Só havia um hotel na cidade – que estava cheio, tal como todas das pensões porque o pessoal tinha saído todo do mato e queria ir embora. Acabámos por dormir num colchão no chão do quarto dele. No outro dia corremos a cidade à procura de outro sítio e não conseguimos nada.

À hora de almoço sentámo-nos no café Portugal a beber uma cerveja. Foi a primeira vez que vi uma de litro e meio. Estávamos a conversar quando um senhor que estava na mesa do lado nos interrompeu e perguntou se éramos da Força Aérea. «Ouvi a vossa conversa, estão aflitos? Quando acabarem de beber têm disponibilidade para vir comigo?» Dissemos que sim, e seguimo-lo em direcção a uma vivenda ao cimo da avenida principal, onde ele nos explicou: «Sou reitor do liceu, mas vou-me embora para a semana. Já mandei a família para Portugal.» Deu-nos uma chave a cada um e foi assim que arranjámos alojamento. Ficámos ali uns dois ou três meses.

Depois fomos apresentar-nos ao palácio do governo. Como todas as semanas havia um avião para transportar as pessoas que queriam vir embora e não havia controlo ele pediu-nos para tomar conta dos embarques. E assim foi. Havia quem nos oferecesse dinheiro para passar à frente das listas. Recusávamos sempre e no final dos embarques íamos levar um saco cheio de notas ao palácio. Aquilo funcionou assim.

Passados três ou quatro meses lá apareceram dois aviões empacotados no porto de Bissau. Como, entretanto, tinham chegado dois mecânicos, combinámos ir buscar um para o montar só com as ferramentas que eles tinham na mala. No final, faltava uma chave grande para colocar a hélice. Fomos às oficinas navais e o mecânico fez-lhes o desenho do que precisava e eles fizeram uma. Foi assim que começámos a voar para conhecer o território porque as cartas que tínhamos não tinham cores. Fomos nós que as colorimos com lápis.

Na época não tinha a noção de que aquela seria uma guerra prolongada. Começou suavemente e foi aumentando. A 22 de Maio de 1963 saí para uma operação na ilha de Como. Supostamente, nem devia ter ido. Tinha chegado de Cabo Verde na tarde do dia anterior e entrei na sala de operações quando estava a haver um briefing. Como faltava um piloto, ofereci-me para ir no lugar dele. Estava a um mês de acabar a minha comissão.

Ao chegar ao objectivo senti qualquer coisa no avião. Devo ter sido atingido por uma bala. Disse ao meu asa que ia sair dali e pedi-lhe que se pusesse debaixo de mim para ver se havia algum dano na zona do trem de aterragem. Foi o que ele fez. Mas quando temos outro avião por cima é preciso cuidado para não sermos sugados. Não sei se foi por falta de experiência, distracção ou apenas por estar a olhar para cima, mas, quando dei por isso, ele estava a passar-me à frente, encostado ao motor. O avião começou a tremer e tive de o desligar. Ainda lhe dei dois ou três gritos para que endireitasse o avião mas ele foi a pique e lá ficou.

Vi uma clareira e não me ejectei. Achei que era capaz de lá meter o avião. Aquilo era um campo de arroz e ao aterrar as saliências das metralhadoras e dos rockets encaixaram nos sulcos e as duas asas saltaram como se fossem arrancadas à mão. A fuselagem deu duas ou três cambalhotas e saí de lá ileso. Só tinha o relógio esmagado. Olhei à volta e vi um grupo de indígenas a uns 50 metros a olhar para mim, espantados. Fui direito a eles. Estavam todos de catanas na mão. Sabia que Catió era numa determinada direcção e perguntei se algum me podia indicar o caminho que, quando lá chegasse, até lhes pagava.

No topo da clareira havia uma aldeia escondida. Caminhámos para lá, a conversar. Mas antes de chegarmos, levei uma catanada que me abriu a cabeça ao meio. Sem dizerem mais nada caíram todos em cima de mim. Arranjei forças não sei onde e consegui fugir para o mato. Ainda estive uns 10 minutos escondido. Atei um lenço à cabeça para tirar o sangue dos olhos e fiquei à espera. Houve um que apareceu. Ficámos a olhar um para o outro. Eu peguei na minha faca de mato e levantei-a. Ele disse: «Dá a faca». Nestas alturas há alguma coisa que nos diz como devemos decidir. Sei que a virei e atirei-a. Ele deu um grito e lá veio a outra rapaziada toda. Saímos do meio das lianas e voltaram a dar-me uma série de catanadas, uma delas nas costas. Ainda estão marcadas. Depois levaram-me para aldeia. Pelo caminho foram-me tirando a roupa, anéis, o fio que trazia ao pescoço. Estavam a preparar-se para me linchar quando chegaram dois guerrilheiros. Foi a minha sorte.

Mandaram-me sentar e perguntaram-me o que se tinha passado. Depois disseram-me para descansar porque íamos partir à noite. Antes quiseram saber se tinha fome. Depois mandaram os aldeões subir a uma mangueira e eles começaram a atirá-las cá para baixo. Nunca comi tantas mangas na vida. Foram dezenas. Tinha perdido imenso sangue. Logo depois, adormeci. Só acordei à noite, quando me chamaram. Andámos a pé uma semana até chegarmos à zona onde estava o Nino Vieira, que era o comandante da zona sul. Ele disse-me que tinha tido sorte: a ordem do Amilcar Cabral para fazer prisioneiros só tinha chegado há 15 dias. De qualquer forma tinha poder para me fazer o que quisesse. Perguntou-me:

— Tens família?

— Tenho.

— Queres escrever-lhe uma carta?

— Para quê? Isto nunca mais lá chega.

— Como quiseres.

Depois tirou um bocado de papel e uma caneta e deu-mas. A minha mulher tinha vindo para a Guiné em 1962 e resolvi escrever umas oito linhas a dizer: «Não te preocupes que qualquer dia eu volto.» E um mês depois ela recebeu-a. Por volta das 22h, um guerrilheiro entrou-lhe em casa, em Bissau, cansadíssimo. Perguntou-lhe se tinha leite, bebeu uns dois litros e entregou-lhe a carta.

Nessa altura já devia estar na Guiné Conakry. Fui num barco que eles apanharam à Casa do Comércio, o Bandim, para Vitória. Estava lá um curandeiro que decidiu tratar-me. Tirou-me o lenço e lavou-me a cabeça com álcool ou qualquer coisa parecida porque isto nunca mais sangrou. Nas costas ainda tinha um golpe aberto por uma catanada. Disse-me: «Vamos coser isto». Deitou-me numa marquesa e deu-me uma garrafa de vinho para custar menos. Bebi. Era bom, português. Ele lá me coseu com uma agulha de coser sacos. Chega-se a um ponto na dor em que já não se sente nada, passa-se para o outro lado. O certo é que aquilo resultou. Nem sequer infectou.

Levaram-me para Conakry, onde chegámos a um domingo. Estava tudo fechado. Passei a noite numa cela imunda do comissariado da polícia e só no dia seguinte foram buscar-me para responder a umas perguntas. Queriam que fosse à Rádio Argel dizer que aquela era uma guerra injusta e não sei que mais. Prometeram-me que ia para um país de Leste e tudo. Disse que não. Identifiquei-me e pronto. Fiquei ali mais 15 dias até me meterem num carro e arrancarmos para a prisão de Kindia, 150 km para o interior, onde fiquei os seis anos seguintes.

Estava numa cela de três metros por dois. Sozinho. Comecei logo a planear uma fuga. Anos depois, graças a um guinês cheguei a ter três ferros da grade cortados. Ele era funcionário do tesouro antes da independência e depois continuou nas mesmas funções. Só que em vez de enviar o dinheiro para contas da Guiné em França, mandava para a dele. Ele tinha estado no Brasil e falava português. Odiava aquela gente toda. Através da mulher, que ia visitá-lo de 15 em 15 dias, ofereceu-se para enviar notícias para cá. Conseguiu passar-me papel e lápis por baixo da porta e eu escrevi. As cartas iam para uma irmã dele na Guiana Francesa e daí para Portugal. Acabei por receber um livro que pedi à minha mulher, fiz um código com base nele – uma página era uma letra – e continuei a mandar informações. A mulher trouxe-me uma serra de cortar ferro e estive meses a cortar as barras, à noite, até ser apanhado.

Aquilo tinha 400 prisioneiros de delito comum, que faziam trabalhos forçados todos os dias. Nunca lá entrou um médico. Eu era o único branco. Ao fim de dois anos comecei a ir ao recreio por uma hora, mas sozinho. Nunca me bateram, nem quando me apanharam a tentar fugir. Insultaram-me e mais nada. Até quando as nossas tropas entraram na Guiné Conakry foi lá um ministro que mandou abrir a porta, mas só para me insultar. A certa altura chegou lá um soldado português que, ao fim de um ano e meio e foi libertado através da Cruz Vermelha. Quando cá chegou disse à minha mulher que eu nunca mais de lá saía porque dizia que, quando isso acontecesse, os bombardeava. Não era nada, mas ele disse isso.

Depois chegaram mais dois, que ficaram comigo um ano. Nos primeiros tempos não podíamos falar. Eles estavam numa cela, eu na outra. Fazíamos sinais. Quando passaram a deixar-nos ir juntos ao recreio começámos a planear uma fuga. Isto ao fim de seis anos. Começámos a ver que havia certas rotinas. Os guardas deixavam a cela aberta para um pátio e à noite havia um grupo que ao dar-nos o prato de arroz nem olhavam lá para dentro. Um dia, não voltámos à cela. Entrámos para dentro de um depósito de água e ficámos à espera da hora da prece – quando também começava a anoitecer. Nessa altura saltámos dali para fora e andámos oito dias pelo mato a alimentar-nos de tudo o que aparecia.

Uma noite, tivemos que andar um bocado pela estrada porque não tínhamos outra hipótese. Meia dúzia de quilómetros depois apareceram uns 10 tipos enormes, sem armas, todos vestidos de branco, de saia até aos pés. Eram Fulas.

— Portuguesi?

— Não.

— Ahhh portuguesi. Vamos embora.

— Não, não.

— Ahhh portuguesi, está tudo bem.

Chegámos a uma aldeia e nem se preocuparam connosco. Foram rezar e as mulheres encheram umas cabaças de arroz e carne. Chamaram-nos para comer e nós lá fomos. Depois levaram-nos para uma cidade onde havia polícia. O militar perguntou-nos: «Vocês fugiram, tudo bem, é esse o dever de um prisioneiro. Não há problema. Mas vão ter de me dizer como conseguiram.» Respondi-lhe que era «mezinha de branco». Até hoje não sabem como escapámos.

Quando chegámos à prisão, tinha o director na minha cela. Estava ali porque se eu não aparecesse ele tomava o meu lugar. Era assim. Passados uns dias os homens do PAIGC levaram-nos para Conakry, onde estavam mais de 20 prisioneiros nossos. Se não tivéssemos tentado escapar se calhar não tínhamos ido para lá e acabávamos por não ser libertados: a operação Mar Verde foi nesse ano.

A altas horas da noite começámos a ouvir tiroteio que se afastava e aproximava. A dada altura caiu uma bujarda em cima da prisão. Deitei-me encostado à parede até alguém abrir um rombo na parede e gritar «Lobato». Era o tenente fuzileiro Cunha e Silva. O instinto fica tão apurado que parece que vemos e adivinhamos tudo. Perguntou-me pelos outros que estavam na outra ponta da prisão. Foram buscá-los e continuámos direito aos barcos.

Quando cheguei a Portugal só pude ver a família ao fim de oito dias. Fui levado para Caxias e fiquei guardado por dois pides. Não se podia divulgar que tínhamos estado em território da Guiné Conakry. Antes de ir à televisão tive de assinar um papel a comprometer-me em dizer que tínhamos fugido. Os ministros foram ver a gravação e depois de confirmarem que estava tudo bem é que me deixaram ver a minha mulher. «Tinham passado mais de sete anos.»






sábado, 1 de novembro de 2014


General Espírito Santo:

Um chefe militar valoroso


João José Brandão Ferreira Oficial Piloto Aviador

Ultimamente uma parte considerável da minha vida é passada entre hospitais e cemitérios. É, indubitavelmente, um ciclo da própria vida…

Porém, nada agradável.

O meu distinto camarada e historiador militar tenente coronel Abílio Lousada, outro bragançano dos quatro costados escreveu um belo texto (que merecia publicação) sobre o general Espírito Santo, falecido no pretérito dia 16 de Outubro, aos 79 anos de idade.

Este texto diz quase tudo sobre este ilustre militar e académico, ficando muito difícil acrescentar algo mais.

Espírito Santo era um português telúrico que ganhou jus a ficar na História do Exército Português e na memória das várias instituições de que fazia parte.

Artilheiro de origem, era um profundo conhecedor da História Militar Portuguesa e o «ADN» do Exército Português estava-lhe entranhado em todas as fibras do seu ser.Artilheiro de origem, era um profundo conhecedor da História Militar Portuguesa e o «ADN» do Exército Português estava-lhe entranhado em todas as fibras do seu ser.

O general Espírito Santo aprendeu muito na «Escola» de dois outros ilustres chefes militares, os generais Bettencourt Rodrigues e Firmino Miguel. Embora estejamos em crer, que mais na do segundo do que na do primeiro.

Foi um militar completo, com experiência de tempo de paz, crise e guerra, passando pela difícil experiência do 25/4 e «PREC», sem mácula que se conheça.

Foi vasta também, a sua experiência de organizações internacionais de defesa, nomeadamente a NATO.

E era conhecido e apreciado pela lhaneza de trato, boa disposição e intimismo que colocava nas relações pessoais.

Era outrossim um homem de família e o desvelo com que se empenhava no acompanhamento do crescimento dos netos, era notório.

A sua folha de serviços justifica por si só (independentemente de eventuais injustiças, ainda pendentes), a atribuição da alta condecoração – a Torre e Espada – sem necessitar de qualquer distinção honorífica por exercício de função (neste caso de CEMGFA).

Nunca afrontou também, publicamente, – na esfera institucional haverá, todavia, muita coisa para se conhecer – qualquer figura política, integrando-se naturalmente naquilo que se denominou de Estado de Direito Democrático.

Por tudo isto se percebe mal, porque os órgãos de soberania – Governo, Assembleia da República e Tribunais – não se fizeram representar no funeral de uma alta figura do Estado, que nunca deixou ficar mal a Nação, a República e as Forças Armadas.

O Presidente da República fez-se representar pelo chefe da Casa Militar e escreveu uma mensagem no sítio da Presidência (infelizmente o PR ainda não entendeu que uma mensagem destas só deve ser colocada no éter informático depois de ser assumida de viva voz…).

Cabe aqui perguntar, a talhe de foice, quais são os critérios que levam a que um cidadão português (sublinho o português, não vá um dia destes, colocarem lá um[2] qualquer cidadão do mundo!) tenha direito a ser sepultado no Panteão Nacional. E se um militar também faz parte dos elegíveis.[1]

E devemos regozijar-nos já que não houve nenhum escriba (enfim, que tivesse topado), ou força política que se tenha atrevido a contestar as honras militares dispensadas, nomeadamente pelos custos das salvas de artilharia, ou pela «violência» que representa mobilizar cidadãos soldados, a um domingo, para irem fazer essa coisa paleontóloga que tem o nome de ordem unida, sem sequer lhes pagarem horas extraordinárias.

Deve referir-se que o Exército esteve à altura dos acontecimentos.[2]

Meu General foi um privilégio tê-lo conhecido e o «João» lembrá-lo-á para sempre.



                                                                Laus Deo.


[1] Sim, eu sei que o General Humberto Delgado está lá mas, convenhamos que não foi por ser militar ou por feitos militares.

[2] Lembramos como «curiosidade» que, nesta acção, o número de praças empenhado, representou cerca de 2% da totalidade das existentes em todo o Exército…