BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

domingo, 22 de março de 2015


Lembram-se da Crimeia?


Kirsty Hayes, Embaixadora do Reino Unido em Portugal,

Público, 19 de Março de 2015

A nossa posição é firme – a anexação da Crimeia é inaceitável e continuaremos a defender os nossos valores através das sanções que penalizam os responsáveis por retirar a Crimeia à Ucrânia.

Há um ano, o Kremlin ajudou a encenar um «referendo» ilegítimo e ilegal na Crimeia, que culminou com a anexação deste território pela Rússia à Ucrânia, redesenhando o mapa da Europa, pela força, agravando a crise no Leste da Ucrânia.

O chamado referendo, preparado à pressa em apenas duas semanas, serviu apenas para ridicularizar a democracia. Não esteve presente um único observador internacional independente. Em vez disso, tropas russas de elite (os «homenzinhos de verde», como os habitantes locais lhes chamaram) impuseram a vontade do Presidente Putin. Não devemos ter ilusões sobre a origem destes combatentes. O seu equipamento, sotaque e treino, provam que eram russos, ainda que não usassem qualquer insígnia.

No período que antecedeu o chamado referendo, as estações ucranianas de televisão terrestre foram encerradas na Crimeia; e quem levantou a voz contra a ocupação militar russa foi alvo de ameaças e intimidação. Desde então, várias pessoas desapareceram e outras foram encontradas mortas, uma delas com sinais de tortura.

Tudo isto foi feito sob a alegação infundada dos dirigentes russos de que os direitos dos falantes de russo na Crimeia estariam sob ameaça de Kiev. Este estratagema cínico não tem, nem teve, qualquer credibilidade. Na verdade, Vladimir Putin admitiu na semana passada, numa entrevista, ter planeado a anexação da Crimeia antes do pseudo-referendo ter tido lugar. Nessa altura, ele dizia à comunidade internacional que não se colocava a hipótese de anexar a Crimeia, e negava a presença de tropas russas. Sabemos que nunca houve qualquer ameaça aos falantes de russo na Crimeia ou em qualquer outra parte da Ucrânia. Pouco antes da anexação, o alto comissário para as Minorias Nacionais da OSCE afirmou não haver «provas de qualquer violência ou ameaças».

Na realidade, os relatórios elaborados pela ONU, pelo Alto Comissariado para os Direitos Humanos e pelo comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa, deixaram claro que só após a ocupação russa é que os direitos humanos passaram a estar ameaçados na Crimeia. Os efeitos têm sido especialmente sentidos pelas minorias étnicas, tais como a comunidade tártara da Crimeia.

É vital que não se minimize o significado da anexação da Crimeia. As acções agressivas por parte da Rússia naquela zona e em Donbas não são uma ameaça apenas para a Ucrânia, mas para o resto da Europa. Ao anexar um território da Ucrânia, ao violar a sua integridade territorial e ao destabilizar o Leste da Ucrânia através do fornecimento constante de tropas e armamento, a Rússia desafiou a ordem democrática do século XXI fazendo tábua rasa das regras de direito internacional.

Essas acções constituem uma violação flagrante de uma série de compromissos internacionais assumidos pela Rússia, entre os quais a Carta das Nações Unidas, a Acta Final de Helsínquia da OSCE e o Tratado de Divisão sobre estatuto e condições da frota do Mar Negro de 1997, com a Ucrânia. É por tudo isto que a Rússia está isolada no Conselho de Segurança e na comunidade internacional e é essencial que todos os Estados-membros da UE estejam à altura da ameaça que as acções da Rússia representam para os nossos valores partilhados e para a nossa segurança comum. O Reino Unido regozija-se pelo apoio de Portugal neste contexto, condenando inequivocamente a violação da integridade territorial da Ucrânia e rejeitando a atitude de continuada confrontação por parte da Rússia. Valorizamos em especial a contribuição de Portugal para o controlo da segurança naquela região, integrando os seus aviões F-16 na missão de policiamento aéreo da NATO no Báltico.

Entendemos que nenhum país, qualquer que seja a sua dimensão, pode ignorar as normas internacionais sem sofrer consequências. Não podemos aceitar a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia como uma nova realidade. Os factos provam que este foi um acto ilegal, a Crimeia continua ocupada e os seus cidadãos estão mais vulneráveis e sofrem as consequências da intolerância russa. A triste realidade é que, se a Rússia não tivesse ocupado a Crimeia há um ano, e forçado o seu povo sob a ameaça das armas, as pessoas na Crimeia poderiam hoje gerir os seus negócios pacificamente, como tinham feito nos últimos 23 anos, sem a intimidação, as dificuldades e o perigo físico resultantes da anexação ilegal pela Rússia.

Há uma saída para esta situação. A Rússia ainda pode retirar as suas tropas da Crimeia e do Leste da Ucrânia, respeitar os seus compromissos ao abrigo dos acordos de Minsk e deixar o povo ucraniano gerir o seu próprio país. Mas, até que isso aconteça, não vamos ignorar o que aconteceu na Crimeia. A nossa posição é firme – a anexação da Crimeia é inaceitável e continuaremos a defender os nossos valores através das sanções que penalizam os responsáveis por retirar a Crimeia à Ucrânia.






Apresentação de livro sobre a Guerra do Ultramar


A pedido da Editora Caminhos Romanos, temos o prazer de lhe encaminhar o convite para a divulgação do livro «KINDA e outras histórias de uma guerra esquecida», a realizar em Coimbra, com a apresentação de D. Miguel de Lencastre e do Autor, o Major Piloto-Aviador Carlos Acabado.

Local: Coimbra

Clube de Oficiais de Coimbra
Rua Antero de Quental
Data e hora: 26 de Março de 2015, 18h00

Contacto

www.caminhosromanos.com

Caminhos Romanos Editora
Rua Pedro Escobar, 90 – R/C
4150-596 Porto

Tel: 220 110 532






sexta-feira, 20 de março de 2015


Socialismo utópico e socialismo científico


Paulo Tunhas, Observador 2015.03.19


As crenças absurdas afectam, ou ameaçam afectar, as nossas vidas, como as de Vasco Lourenço e Varoufakis, e aí é que a porca torce o rabo. Sobretudo quando as querem impor contra a vontade da maioria.

O socialismo, à boa e velha maneira, continua, apesar de tudo, na moda em vários lugares do mundo. E o que não faltam são teóricos esclarecidos para nos demonstrarem a sua urgência. Um deles é Vasco Lourenço, que sonha com uma aliança do PS com o PC, o Bloco de Esquerda e outros partidos fora do «arco da governação», que nos conduza a uma libertação da «mesquinhez» da actual política europeia, como confessou ao Público. «Um estrondoso murro na mesa», como ele diz, é o que é preciso.

Maçonaria utópica
ou maçonaria «cientítica» (calculista)?

Estas declarações foram feitas por ocasião de um congresso na Gulbenkian, significativamente intitulado «Congresso da Cidadania. Ruptura e Utopia para a Próxima Revolução Democrática». Um tão vasto projecto requeria certamente um tão longo título. A revolução precisa de uma rampa de lançamento com a extensão devida, e é até duvidoso que a coisa possa ir para a frente sem um seminário permanente consagrado ao tema. De qualquer maneira, faz-se o que se pode, e Vasco Lourenço, presidente da «Associação 25 de Abril», não se poupou a esforços no texto de apresentação do congresso. Não faltam considerações sobre Portugal se ter tornado um «Estado vassalo» da burocracia de Bruxelas nem sobre a óbvia solução para o «estado a que chegámos»: «uma prática correcta dos valores de Abril» (para esclarecimentos detalhados sobre a «prática correcta», destinados a evitar riscos de práticas incorrectas de valores, contactar o presidente da Associação).

A mim, o que me despertou curiosidade na prosa foi, confesso, a «utopia». No texto de Vasco Lourenço, a palavra aparece, além do título, em duas passagens. Na primeira, a utopia – «uma nova utopia» – viria dar aos portugueses «razões para a esperança num futuro melhor». Na segunda, oferece-se, na medida do possível, um conteúdo concreto para a utopia: «a construção da sociedade de Abril». Desconto o facto de, na prosa do autor, a tal «nova utopia» ser, afinal, uma utopia velha. O que é curioso é o próprio recurso à utopia. É como se esta exigência de socialismo (a palavra não aparece, é verdade, no texto) adoptasse (sem grande consciência disso, quase de certeza) um perfume pré-marxista capaz de comover as multidões e, ao mesmo tempo, permitindo uma oportuna vagueza sobre o que viria depois do «estrondoso murro na mesa». Aposto que não viria nada de muito bom, até porque, bem vistas as coisas, a mesa somos nós, os cidadãos eleitores, não suficientemente esclarecidos em matéria de práticas correctas.

Mas não é muito crível que os desejos utópicos de Vasco Lourenço se venham a realizar a breve prazo. Afinal de tudo, Portugal é uma democracia. Ele que siga o exemplo de um dos mais divertidos utopistas de todos os tempos, Charles Fourier, que esperou pontualmente, durante dez anos, ao meio-dia, nos jardins do Palais Royal, o benemérito que lhe financiaria a construção da Harmonia. Os jardins da Gulbenkian não são tão lindos como o Palais Royal, mas são lindos à mesma e servem muito bem. Pode ser que tenha sorte. Ou então, se as suas finanças andarem particularmente boas, que faça como Robert Owen, que emprestava quantidades extraordinárias de dinheiro ao Duque de Kent (o pai da futura Rainha Vitória) na esperança de que este o pudesse ajudar a transformar a sociedade. Mas com prudência, que as pessoas nesta matéria não são de confiança. Se lhe faltar energia para qualquer destas duas soluções, que poupariam em princípio um estrondoso murro na cabeça dos portugueses, há estímulos possíveis. O jovem Henri de Saint-Simon, por exemplo, fazia-se acordar diariamente pelo seu criado de quarto ao som de «Levante-se, monsieur le Comte! Lembre-se que tem grandes feitos a realizar!». Porque não tentar algo assim?

Quem não precisa desses estímulos, porque a si próprio os administra em doses abundantes, é o nosso já imprescindível Yanis Varoufakis, que além de tudo beneficia do «amor» do estremoso Jean-Claude Juncker (porque carga d'água nos caiu este homem em cima? – razão tinha Cameron). Mas aqui não se trata de um retorno a um perfume utópico pré-marxista. Trata-se antes de uma espécie de ciência pós-marxista. Num texto que o Guardian publicou, e que reproduz uma conferência feita em Zagreb em 2013, Varoufakis expõe as razões pelas quais se tornou um «marxista errático». O epíteto «errático» não merece grande curiosidade, a não ser pela fantástica auto-condescendência e garridice narcísica que revela, até porque em muito pouco tempo nos habituamos a ouvi-lo dizer uma coisa e o seu contrário, a pedir desculpa pelo que fez e a declarar que o que fez não o fez. Mas a história das suas ideias em relação a Marx é explicada com um detalhe que mostra o seu desprezo pelo sábio conselho de alguém (esqueci quem) que notava que o género «História das minhas ideias filosóficas» deveria ser reservado a quem tivesse tido ideias filosóficas.

Os pontos em que Varoufakis discorda de Marx são um lugar-comum da crítica ao marxismo desde tempos imemoriais e os aspectos em que diz ser-lhe fiel são erros ainda mais antigos. A única novidade – relativa, de resto – consiste na adopção de um tom desenvolto e pretensamente cândido que visa antes de mais mostrar as altas dimensões da sua inteligência e que é em parte copiado de Zizek. Por exemplo, Varoufakis não se limita a criticar, numa coisa ou noutra, Marx. Tem de declarar que os erros de Marx o tornam «terrivelmente furioso» com o velho Karl. Se existisse uma máquina do tempo e Varoufakis fosse transportado para a biblioteca do British Museum por volta de 1850, Marx de certeza que era obrigado a fugir. E não só por medo, mas também por não conseguir trabalhar, com o outro sempre a falar.

Um outro exemplo da garridice do nosso autor. Varoufakis declara que bem gostaria de avançar com um programa radical: «abolir o capitalismo europeu, desmantelar a horrível eurozona e sabotar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros da bancarrota». Mas, desejando do fundo do coração o crepúsculo do capitalismo, não quer avançar imediatamente nessa direcção. Porquê? Porque se encontrava em Inglaterra no tempo da ascensão de Thatcher ao poder e, à época, acreditou na veracidade da célebre frase de Lenine: «As coisas têm de piorar antes de melhorarem». Thatcher provocaria uma reacção tão violenta que as forças do Bem rapidamente tomariam o controle da situação. E o que viu foi que, ao invés, a esquerda, em vez de se mobilizar eficazmente contra Thatcher, perdeu de forma durável o combate político e ideológico. Por isso, com medo que um programa radical esbarrasse com a vontade da maioria, anestesiada pelo neoliberalismo, e suscitasse mesmo um avanço da extrema-direita, o autodesignado «marxista errático» decidiu que a sua tarefa seria doravante a de «salvar o capitalismo europeu de si mesmo» e de estabilizar a Europa.

Em suma: mais inteligente do que todos, Varoufakis pretende tornar-se o campeão daquilo que pretende destruir. Será necessário, para «estabilizar a Europa hoje», «forjar alianças com as forças reaccionárias». Depois, mais tarde do que cedo, não se percebe muito bem como, virá a revolução. Esta demora é obviamente vivida com a grande «tristeza de abandonar qualquer esperança de substituir o capitalismo no tempo da minha vida».

Receio que a grande ambição de Varoufakis, a de «estabilizar a Europa» através da «aliança com as forças reaccionárias» não esteja a ser muito bem sucedida. Seria Lenine, afinal, a ter razão? Mais cedo ou mais tarde teremos certamente, pela sua pena, alguns esclarecimentos quanto a esta questão. Entretanto, num mundo ideal, seria bom vê-lo num banquinho dos jardins da Gulbenkian ao lado de Vasco Lourenço.

Com a idade, ganha-se respeito para com as coisas em que os outros acreditam e nós não, desde não afectem as nossas vidas. Um dia, há já vários anos, no metro do aeroporto até casa, fiquei fascinado por um casal de velhotes, com ar de camponeses dos arredores do Porto, que liam entretidamente uma revista dedicada às telenovelas que passavam na televisão. Falavam dos personagens como se fossem pessoas reais, como eles próprios, dotadas de uma existência e de uma autenticidade indiscutíveis. De uns gostavam, a outros odiavam. E uma vez, no quiosque onde compro cigarros e jornais, a propósito de uma actriz portuguesa que costumava aparecer muito nas capas das revistas da especialidade, alternando quase semanalmente, para óbvios propósitos publicitários, uma felicidade amorosa absoluta e tragédias igualmente amorosas de fazer chorar as pedrinhas da calçada, querendo fazer conversa engraçada, disse ao senhor: «Ela esta semana está feliz». Resposta, muito séria: «E bem merece». Juro que poucas vezes me senti tão ofensivamente estúpido.

O problema é com as crenças absurdas que afectam, ou ameaçam afectar, as nossas vidas, como as de Vasco Lourenço e Varoufakis. Aí é que a porca torce o rabo. Sobretudo quando as querem impor contra a vontade da maioria. Seja com a utopia à força do murro na mesa, seja através das falsas subtilezas «pós-marxistas» e erráticas do outro. Nestes casos, as palavras são sempre poucas para denunciar a impostura.





quarta-feira, 18 de março de 2015


Saudades do tempo

em que éramos livres e não sabíamos


Helena Matos, Observador, 15 de Março de 2015

Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos.

Tenho saudades do tempo em que chamar filho da puta a um filho da puta era mesmo só dizer o que pensávamos daquele filho da puta e ofendê-lo na medida do verbalmente possível sem cairmos numa polémica sobre os nossos preconceitos acerca do comportamento sexual que esperamos das nossas mães e das mães dos outros e das outras (manda agora o bom senso dizer tudo em dobro ou quiçá em dobra e dobro). Desse tempo em que o simples pronunciar da palavra mãe não nos levava a ser interpelados sobre as «representações eivadas de uma concepção patriarcal» que subsistem nos recônditos do nosso pensamento, recônditos esses em que existem papéis de pai e papéis de mãe diferenciados, que é o mesmo que dizer estereotipados.

Hoje, independentemente do filho da puta continuar a comportar-se como um filho da puta, há que ponderar que as putas são trabalhadoras sexuais, que ao referirmos a mãe de alguém, seja ela trabalhadora sexual ou não, temos de considerar se estamos a falar da mãe biológica ou não biológica ou da mãe companheira da outra mãe e que, para evitar mais quezílias, o melhor será desistir de falar de filhos ou de filhas pois automaticamente incluímos o ser objecto da nossa ira num género (uma sociedade que trocou o sexo pelo género não está de facto boa da moleirinha!) ao qual não sabemos se ele quer pertencer. No fim o nosso filho da puta passará a «pessoa com relação de parentalidade com trabalhadora sexual» mas nós ficamos com a alma livre de escarmento. Para quem tiver dúvidas na matéria aconselho a consulta do Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública, dado à estampa em 2009, e que entre muitas assombrosas coisas manda que se diga «a gerência» em vez de «o gerente» ou «a direcção» em vez de «o director». (No caso, os directores e os gerentes na hora de lhes chamarmos «grandes pessoas com relação de parentalidade com trabalhadoras sexuais» agradecem porque se o director ou a directora têm nome, a direcção é composta ao certo não se sabe por quem e muito menos se percebe quem nela decide o quê.)

Se alguém tem ilusões sobre a possibilidade de escapar entre os pingos da chuva a toda esta doideira é melhor que as perca: no V Plano Nacional para a Igualdade, Género, Cidadania e Não Discriminação (em vigor até 2017) o Governo comprometeu-se a encomendar um estudo para avaliar até que ponto a «linguagem inclusiva» está a ser utilizada na administração pública. (Realmente é melhor que se entretenham na administração pública porque se chegarem à industria dos moldes ainda acabam a proibir as peças macho e fêmea). Naturalmente o estudo dirá que muita coisa ainda está eivada da terminologia anterior à linguagem inclusiva. E um novo guia de linguagem inclusiva e novos estudos sobre a aplicação da linguagem inclusiva se seguirão. Até ao dia, claro, em que os promotores da linguagem inclusiva descobrirem que esta não faz qualquer sentido e passem a defender o seu contrário com idêntico fervor, idênticas avenças e correlativa proliferação de gabinetes de estudos destas rentáveis temáticas. graças às quais em muitas universidades se tem substituído o saber pelo proselitismo.

Na verdade nestas matérias já nada me espanta desde que, meados do ano passado, descobri que os programas e secções de jardinagem muito populares em países como a Inglaterra e a França andavam a ser criticados pela sua terminologia racista e discriminatória – é o problema da mosca negra, das espécies invasoras, as pragas de plantas exóticas… A obsessão com o racismo tem levado a paradoxos tais que no futuro terão de fazer glossários para que se perceba o vocabulário que criámos nesta matéria: assim, depois da igualdade entre as raças passou-se para as etnias, mais as comunidades e agora andamos nos afro isto e aquilo versus os europeus. Resultado: um negro que viva em Portugal há várias gerações ou que nunca tenha posto os pés em África é designado como africano, ao passo que um branco, mesmo que tenha nascido em África e descenda de uma família radicada naquele continente há mais de um século nunca deixa de ser europeu. (Essa foi aliás a lógica que não só levou a que se chamassem retornados aos portugueses que fugiram de África de 1974 a 1976 mas também a que, contra todas as evidências, políticos e jornalistas tenham apresentado essa fuga como um comportamento exclusivo dos brancos).

Boa parte deste nosso linguarejar não faz qualquer sentido. Por exemplo, manda a novilíngua em alguns países ditos mais evoluídos nas questões da multiculturalidade que não se diga Estado Islâmico mas sim Daesh para não ofender os muçulmanos, alteração que faz tanto sentido quanto designar os cruzados por octognos ou paralelipípedos rectângulos na hora de criticar as cruzadas, alegando que usar o termo cruzados pode ofender os cristãos que têm na cruz o seu símbolo sagrado.

Podia fazer quase uma edição completa do Observador com exemplos dos absurdos a que o politicamente correcto nos conduziu. Na linguagem e não só. Todos os dias há uma polémica. Vivemos em frenesi. Anteontem o problema era a publicação por uma editora da revista Vogue de uma foto onde se via uma mulher com ar de pedinte (agora deve dizer-se sem-abrigo mas preparem-se porque daqui a uns meses esta designação agora tão certinha pode tornar-se maldita!) a ler aquela revista de moda acompanhada da legenda: «Paris está cheia de surpresas… há leitores da Vogue até nos sítios mais insuspeitos». Também tivemos o problema das gaffes de Jeremy Clarkson, um muito apreciado apresentador da BBC a quem um murro dado num produtor acabou com uma longa carreira a dizer banalidades que se tornaram blasfémias. O problema como é óbvio não foi o murro mas sim ele obstinar-se em fazer considerandos politicamente incorrectos sobre sexo, culturas, países… De caminho, o Daily Telegraph até fez um levantamento dos 14 filmes mais politicamente incorrectos e, na prática, do James Bond ao Dumbo, tudo é um repositório de racismo e outros ismos.

Não nos bastando a constante supervisão do presente, o próprio passado é revisto. E assim, de Camões a D. Pedro I sem esquecer Inês de Castro ou a padeira de Aljubarrota os protagonistas passam a ser apresentados como bons ou maus (o maniqueísmo está vivo e recomenda-se) em função dos conceitos que o progressismo manda adoptar no presente. Logo D. Afonso Henriques passa a machista e Dona Teresa a feminista. Os próprios clássicos podem ter de ser reescritos. Das Aventuras de Huckleberry Finn aos filmes sobre a vida de Jesus, em que se analisa o papel dos negros e das mulheres nada escapa a esta perspectiva correctora do passado, do presente e do futuro.

Como exclamam alguns venezuelanos emigrados em Espanha quando recordam o seu país antes da revolução bolivariana «Esse era o tempo em que nós éramos felizes e não sabíamos». Também a mim me apetece dizer que tenho saudades do tempo em que acreditámos – pelo menos eu acreditei – que combater aquilo com que não concordávamos era apenas isso: combater aquilo com que não concordávamos e não criarmos as metástases do Comité de Saúde Pública, de Rousseau. Esse era o tempo em que éramos livres e não sabíamos. E eu tenho saudades dele.





sábado, 14 de março de 2015


O 212.º aniversário do Colégio Militar


João José Brandão Ferreira Oficial Piloto Aviador

«É assim que, por mais que espíritos desorientados
tenham Querido obliterar as tradições d’honra do Exército,
a profissão Entre todas, nobre, foi, é, há-de ser sempre, a militar…»
Mouzinho de Albuquerque

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Caso não tivéssemos presenciado, teríamos percebido pelo silêncio da comunicação social, de que as cerimónias comemorativas do aniversário, em título, tinham corrido bem.

Mas fomos a algumas das muitas iniciativas levadas a cabo, com as quais a direcção do colégio e a associação dos ex-alunos fazem gala em comemorar o evento.

De facto no passado dia 8 de Março (apesar do aniversário ser a 3) entendi ir vivificar o corpo e retemperar o espírito: fui visitar outro país que ainda existe dentro do meu país.

Um «país» que não passa a vida a fazer greves; que não exige direitos, sem os deveres correspondentes; que não se dilacera partidariamente numa «guerra civil» permanente; onde as recomendações da Comissão Nacional da Educação ainda não se aplicam; onde não existem «direitas» nem «esquerdas», onde a corrupção não impera, etc., e onde se trabalha naturalmente, tentando fazer melhor amanhã do que hoje.

Apesar – é de realçar – dos disparates ministeriais avulsos, acompanhados da aparente demissão de algumas chefias militares, relativamente à defesa institucional dos colégios militares, cujo exemplo mais grave tem a ver com o criminoso encerramento do centenário Instituto de Odivelas.

Chefias militares que se olvidaram de que são os descendentes e herdeiros dos antigos condestáveis da Nação.

A estas cerimónias, sobretudo ao desfile do Batalhão Colegial, na Avenida da Liberdade e à missa, em S. Domingos, deveria assistir todo o parlamento.

Só lhes fazia bem lobrigarem o garbo imperturbável daquele «Corpo de Alunos», desfilando Avenida da Liberdade abaixo – eles que são um garante da nossa liberdade, presente e futura; a camaradagem esfuziante dos ex-alunos, saudosos dos tempos passados; o entusiasmo das famílias e amigos e à alegria de todos – até os turistas que passam ganham um bónus extra, ficando de olhos esbugalhados a olharem para o que se passa!

Seguramente que a maioria dos nossos deputados não entenderia muito do que, por graça de Deus, lhes seria dado ver, mas estou certo que não se lhes negaria a caridade das explicações necessárias.

Talvez ganhassem uma nova postura quando regressassem ao parlamento…

Verificariam que a cerimónia começou a horas, que o cerimonial é tradicionalmente mantido segundo das regras da ordenança, e também vislumbrariam aqui e ali, cidadãos que apanhados no meio dos eventos, não se sabem comportar perante uma formatura militar nem respeitam os símbolos nacionais, neste caso a bandeira e o hino, não mantendo uma atitude respeitosa em face deles.

Ora respeitar os símbolos nacionais é dever de todos, onde não se aplica o livre alvedrio e que deve estar sujeito a sanções adequadas. Um âmbito que devia constituir especial interesse para a agora chamada «Casa da Democracia».

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E é o estandarte nacional com a divisa camoniana «Esta é a ditosa Pátria minha amada», à guarda do Colégio Militar – por sinal um dos mais condecorados do país – que rompe a marcha aos ombros do aluno n.º 198/2007, José Pedro Ribeiro Gomes, a quem foi confiada essa honra.

Honra extensiva a todos os alferes porta-estandarte, das Forças Armadas Portuguesas e que representam a «reencarnação» actual de Duarte de Almeida, «o decepado», porta-bandeira na Batalha de Toro, em 1 de Março de 1476, que golpeado sucessivamente, lutou heroicamente, para evitar que o sagrado símbolo lhe fosse sacado ou derrubado. Desde então que, aos sucessores na função, lhes é relembrado este exemplo. Assim deve continuar a suceder.

Exemplo que, aos deputados da Nação, que supostamente representam o povo português, deve merecer, também, ponderada meditação.

É certo que o alinhamento das diferentes companhias de alunos não foi perfeito, quiçá milimétrico, como nas paradas orientais. Mas tem que se ter em conta que não estamos a falar de profissionais, nem tão pouco aqueles marcham em fileiras abertas com frente de seis…

Concedo que não conseguia ver reflectida a minha cara no lustro de todos os sapatos dos uniformes, mas levo isso à conta da cada vez mais diminuta verba distribuída às FA, o que já se deve reflectir na falta de escovas e na graxa; mas já me preocupa o ter vislumbrado alguma ferrugem em muitas baionetas. Afinal nós nunca sabemos quando vamos precisar delas!

Enfim, e numa palavra, continua a ser a unidade militar que melhor desfila em Portugal (bom, a Academia Militar, no meu tempo, fazia-lhes concorrência…)!

Encerra a formatura a «Escolta» a cavalo, em galope curto – o clímax do evento.

Salienta-se que esta «Escolta», juntamente com a «Reprise» de Mafra, o ensino de equitação na Academia Militar e o Ex-Regimento de Cavalaria (recuso-me a soletrar o novo nome que lhe deram), da GNR, são o que resta de todas as tradições equestres do Exército Português…

Muitas mentes questionam-se se lidar com armas é próprio para menores.

Poderia responder simplesmente que, sendo o Colégio Militar, uma unidade militar, não faria sentido algum que o uso de armamento estivesse afastado do seu quotidiano; mas não quero deixar de defender que tal «convívio» só lhes faz bem, pois desde novos aprendem a usar e a respeitar uma arma, tendo o enquadramento, a disciplina e a instrução adequada para tal.

Por último, aprendem a utilizar as armas no sentido do Bem, pois as armas não são em si, boas ou más: a mão que as manuseia é que o pode ser!

O batalhão destroça no Largo de São Domingos e, enquanto os acompanhantes se quedam em algazarra, confraternização, gritos de «zacatrás» e alguma ginjinha, as cerimónias prosseguem na nunca reconstruída, mas lotada, Igreja de S. Domingos, onde casaram reis e de onde se contempla Lisboa desde há sete séculos. Presidiu o novo Bispo das Forças Armadas e de Segurança, D. Manuel Linda, a quem saúdo, nesta primeira aparição pública que presenciei e em que esteve feliz, por abordar na sua homilia temas importantes de forma equilibrada. Também, por seguramente ter tido uma agradável surpresa com o que, por mercê do Senhor, lhe foi dado presenciar.

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A missa acaba por ser uma mistura de cerimónia religiosa, de acção de graças, adornada de todo o cerimonial militar correspondente, à mistura com um toque distintivo da matriz cultural da grande família colegial.

De tudo resultando o encontro de gerações, a renovação com a perenidade; a plenitude da alma, a unidade telúrica de um todo.

O Colégio Militar – os colégios militares – são pois instituições verdadeiramente nacionais, que formam portugueses, nos diferentes níveis do seu ser.

São seiva da Nação e, se não estiver enganado, poderemos vê-los sempre na linha da frente, ou na derradeira linha da defesa e desenvolvimento do País.

Não é pois de estranhar, que os queiram deitar abaixo… Parabéns por mais um aniversário. E contem muitos, pois enquanto existirem Portugal vai ter alguma dificuldade em desaparecer.






domingo, 8 de março de 2015


A minha abordagem à ideologia de género


João Pedro Cabral Valente

Em primeiro lugar quero desde já esclarecer que sou um básico.

Não sou um intelectual, um artista, um filósofo. Digamos que o meu pensamento está ao nível de um chofer de praça médio (sem ofensa aos chofers de praça, bem entendido).

Mas às vezes dá-me para matutar em certas coisas, que hei-de eu fazer?

A última foi aquilo da ideologia do género. Se bem percebi, as crianças nascem sem um sexo predefinido e mais tarde hão-de fazer uma escolha.

Ora isto anda-me cá a queimar os neurónios. Então se o Joãozinho nasce com um pirilau e a Ritinha com um pipi porque raio ele há-de escolher ser uma Ritinha ou vice-versa?

Quando eu andei na Escola, bem sei que já foi há muito tempo, ensinaram-me que o primeiro instinto de qualquer animal, cão, gato, aranha ou homem, é o da conservação da espécie, ou seja: um animal faz tudo para que a espécie sobreviva e se propague. Só depois vem o instinto da conservação do próprio.

Tenho visto naqueles documentários da televisão as mães leoas a atacarem hordas de hienas para salvarem as crias pondo em risco a própria vida. Para elas é mais importante defender a prole do que a elas próprias. E as avezinhas que voam quilómetros e quilómetros para procurarem comida para os filhotes e a defendê-los dos predadores. E o mesmo com todos os animais, pequenos ou grandes. Toda a gente sabe que não é boa ideia chegarmo-nos a uma cria quando a mãe está por perto. Era muito mais fácil e menos perigoso para as mães (e pais em certas espécies) porem-nos no mundo e dizerem: agora desenrascam-se. Mas não, até algumas espécies de salmão vêm do oceano salgado, sobem com enorme esforço rios de água doce para irem desovar onde nasceram. E a seguir morrem. O importante está feito, continuar a espécie!

No meu fraco entendimento, também acho fácil perceber porque é que os machos procuram em primeiro lugar as fêmeas que lhes parecem capazes de gerar melhores crias e as fêmeas entregam-se aos machos mais fortes, mais saudáveis, mais belos ou vistosos e com mais poder. O resultado desse cruzamento vão ser crias com maior probabilidade de sobreviver e vingar na vida. Mais uma vez o instinto da conservação da espécie.

E eu, cá para mim, o ser humano é um bicho, um animal, pronto (sem ofensa). Qual é o homem que não gostava de ter uma Angelina Jolie a jeito? Ou a mulher que virava a cara ao Brad Pitt? Ambos são belos, fortes, poderosos, à partida bons reprodutores. As suas três «crias» biológicas têm todo o potencial para continuarem a espécie humana nas melhores condições.

Bom, voltando ao Joãozinho e à Ritinha. Se os seus atributos sexuais ficam definidos no momento em que foram gerados (aquela coisa dos cromossomas X e Y), por que raio haviam eles de resolver mais tarde que querem ser uma Joãozinha ou um Ritinho? É o instinto de conservação da espécie? Claro que não.

À excepção de casos patológicos raros e complicados, o que acontece é um desvio comportamental, ou seja: uma alteração a esse instinto de conservação da espécie na sua componente reprodutiva que pode ser resultado de grande variedade de razões: pais ou mães excessivamente dominadores ou pelo contrário ausentes ou desinteressados, outros traumas sofridos desde a mais tenra infância, violência doméstica, abandono, aquilo que agora se chama bullying e que no meu tempo se chamava levar pancada dos colegas e ser alvo da chacota da escola (refúgio de relações desiguais de poder), dificuldade de abordagem ao sexo oposto, pressão social de grupos com o mesmo tipo de problemas, no caso de adultos relações heterossexuais fracassadas e traumatizantes, enfim: há um grande número de razões que, à medida que as pessoas crescem, se combinam, adicionam e se misturam com outras vivências e sentimentos, dando origem a esses desvios.

Este assunto veio-me à ideia depois de ter lido um artigo segundo o qual, só na cidade de Paderborn, na Alemanha, um conjunto de pais já tinha passado, no total, 210 dias presos, ou porque não tinham deixado os filhos irem às aulas de educação sexual, ou porque as próprias crianças se recusavam a ir, aulas nas quais entre outras coisas, se ensina a tal «ideologia do género».

Não julguem que sou homofóbico (acho este termo ridículo). Tenho alguns bons amigos e muitos conhecidos que são homossexuais, que estimo como a todos os que não o são. Não os acho culpados de nada. Quando muito serão vítimas.

Mas confesso que me assusta quando, como se não bastasse já a comunicação social, os estados, por meio das escolas, quererem formatar a cabeça das crianças, não só em assuntos tão sensíveis como este, mas também noutros como por exemplo na História ou nas Ciências.

Para mim que, repito, sou básico, a família é o núcleo da sociedade. A família é que deve educar e a escola limitar-se a ensinar. Uma sociedade sã e livre não resulta com certeza daquilo que os governos querem fazer de nós mas antes começa por uma família sã e equilibrada que ama, cuida e acompanha o crescimento e desenvolvimento dos seus filhos.





quarta-feira, 4 de março de 2015


A família Salgado na Câmara de Lisboa

O arquitecto Manuel Salgado, vereador da CML com o pelouro do urbanismo, autorizou a demolição do quartel de bombeiros mais moderno de Lisboa (em Benfica, ao lado do Colombo, de paredes meias com o Hospital da Luz (BES), pois este hospital pretende expandir a sua área.

Este quartel custou há poucos anos cerca de 12 milhões de euros.

Agora aqui vai o melhor.

1. O arquitecto Manuel Salgado, vereador da Câmara de Lisboa, é autor do projecto de expansão do Hospital da Luz;

2. O arquitecto Manuel Salgado é primo direito do Ricardo Espírito Santo Salgado.

E esta?...

Este mundo é realmente uma aldeia não acham?
























segunda-feira, 2 de março de 2015


Acabou-se o «conto de crianças»


Maria de Fátima Bonifácio

(extractos)

Em poucos dias desmoronou-se aquilo a que Passos Coelho chamou, com toda a propriedade, «um conto de crianças». Não sei porquê, a expressão causou por aí muita indignação e suscitou manifestações de um pudor institucional inusitado: em suma, não era digna de um Estadista. A deslocada sobranceria de Passos não oferecia mistério: era apenas um torpe subterfúgio para ofuscar a cobardia do próprio governo, que como um servo obediente e agradecido sacrificara desnecessariamente Portugal ao diktat da pérfida Alemanha. O Syrisa daria ao Mundo o exemplo de como se arrasa um «tigre de papel». Passos que olhasse e cobrisse a cara de vergonha.

Durante duas semanas, nós todos olhámos, lemos, ouvimos. Ao que assistimos foi a um espectáculo de arrogância provocadora, seguido, no dia 20 de Fevereiro, de uma sumária capitulação. Ninguém a resumiu melhor do que Manolis Glezos, o lendário patriarca do Syrisa: «Rebaptizar a troika de 'instituições', o memorando de entendimento de 'acordo' e os credores de 'parceiros', em nada altera a situação prévia, tal como trocando o nome de carne pelo de peixe.» O venerando eurodeputado pelo Syrisa declarou que as concessões já feitas tinham passado além dos limites, pois que nem se obtivera a «remoção da austeridade», nem «a abolição da troika e respectivas consequências». Dito isto, pediu desculpa ao povo grego por ter contribuído para a sua «ilusão».

(...)

O problema do Syrisa, e da dupla Tsipras/Varoufakis em particular, é que a maioria dos que votaram neles não são revolucionários. Mais de 70% dos gregos pronunciaram-se repetidamente a favor da permanência no Euro, que lhes proporcionou desafogo, benesses e lazer como nunca tinham gozado. Acreditaram no «conto de crianças» com que Tsipras deliberadamente os enganou a fim de conquistar o poder. Fê-lo convencido, talvez, de que na época pós-modernista (e, portanto, pós-marxista), quando a classe operária ou desapareceu ou se aburguesou e o consumismo se converteu na única paixão universal, a revolução teria de ser feita à revelia do «povo», cuja única e provisória utilidade reside nos votos que concede a troco de promessas falsas e até delirantes.

(...)

Varoufakis, depois das provocações e fanfarronadas iniciais, percebeu que se defrontava com outros 17 países que nem se impressionaram com a sua premeditada informalidade, nem se amedrontaram com a sua variegada chantagem, nem estavam dispostos a contemporizar com as extravagantes e exorbitantes exigências de Atenas (...) As exigências mais lunáticas caíram ainda antes do início das negociações, como simplesmente «não pagar» (lembram-se ?), ou no mínimo mais um perdão parcial da dívida, a pura e simples eliminação da troika, o encerramento do programa de resgate em curso sem prévia avaliação e aprovação pelas «Instituições», e o incondicional «empréstimo-ponte», para aliviar o garrote financeiro e dar tempo a que o governo se orientasse.

À segunda reunião do Eurogrupo, no dia 20, tudo caiu por terra, permitindo que Schäuble tranquilizasse por carta o Bundestag: «A Grécia compromete-se a colaborar com a União Europeia, com o Banco Central Europeu e com o FMI», nomeadamente «nas reformas estruturais que promovam o crescimento económico e a criação de emprego.» Mais: a Grécia «Não poderá implementar unilateralmente qualquer medida que ponha em risco as metas orçamentais definidas, a estabilidade financeira do país e a recuperação económica».

(...)

Sobra a triste figura que nisto tudo fez, e continua a fazer, a esquerda radical portuguesa. Com o seu habitual coração de ouro, acusou o governo e a direita de falta de solidariedade para com a Grécia. Mas que razões tínhamos nós para ser «solidários» em vez de simplesmente colaborantes, como fomos, numa solução consensual que viesse a encontrar-se ? (...)

(...)

O que fez a Grécia que justificasse o tratamento especial que exigia ? Quanto à solidariedade que lhe devemos, estamos conversados: em Março de 1985, a Grécia pura e simplesmente vetou a adesão de Portugal à CEE, com receio da concorrência que o nosso País lhe pudesse fazer na repartição dos dinheiros europeus. E apenas retirou o veto quando obteve de Bruxelas um financiamento adicional ao abrigo dos «Programas Integrados do Mediterrâneo», como aliás já reclamara desde o ano anterior. Ou seja: Bruxelas teve, literalmente, de comprar à Grécia a adesão de Portugal !

Mas isto são rancores meus. A esquerda radical, com a vasta generosidade e elevação de espírito que a caracterizam, aclamou, como tanto lhe convinha, a vitória do Syrisa, em que via o prenúncio do seu próprio sucesso. (...)