BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

terça-feira, 7 de julho de 2015


O Jantar dos oficiais [1]


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

«Os Governos e os políticos passam,
Mas a Instituição Militar fica.»
Da sabedoria dos povos.

No pretérito dia 25 de Junho, cerca de 150 oficiais reuniram-se num jantar de reflexão sobre a situação das Forças Armadas (FA) – leia-se as últimas malfeitorias que o poder político tem feito à Instituição Militar.

Este jantar sendo promovido/organizado por vários oficiais generais, alguns ex-chefes militares (ou seja o expoente da hierarquia, em diferentes épocas) teve, aparentemente, como núcleo duro, uma novel organização chamada Grupo de Reflexão Estratégica Independente (GREI) mas, na prática, quem fez a mobilização foi a Associação dos Oficiais das FA (AOFA), com umas pitadas da Associação 25 de Abril (25A), senão a coisa arriscava-se a ser um «flop». Pessoal do activo nem vê-los…

Este jantar, para não ir mais atrás, vem na sequência de um outro, ocorrido em Fevereiro de 2013, desta vez organizado discretamente pela AOFA, que conseguiu agregar alguns generais incluindo o muito conhecido general Loureiro dos Santos (LS) que terá imposto condições, como por exemplo, ser o único a falar no jantar e para a imprensa. O que aconteceu.

O general LS voltou também a ser uma figura central deste último encontro a que se acrescentou a voz «off» do General Eanes através de uma missiva enviada e lida no evento.[2]

Ora neste ciclo de jantaradas nunca aparece claro quem os promove, nem o objectivo a alcançar.

Esta primeira reflexão que deixo.

A segunda tem a ver com a fraca mobilização registada.

A resposta é simples, embora complexa, nos seus fundamentos.

Simples, porque tem origem nas sequelas do 25A e do PREC e de tudo o que originou, o que dividiu profunda e irremediavelmente a Instituição Militar (IM) e os militares, deixando profundas feridas na Ética e Deontologia Militares, na coesão, confiança, camaradagem e espírito de corpo, dos três ramos das FA e que causou um imenso lastro de má consciência e falta de auto-estima, ficando a IM de mal com ela própria e a Nação com ela…

Não vale a pena continuar a tentar escamotear o assunto, que é a razão principal do mesmo nunca ter sido resolvido, tão pouco atenuado.

Deste modo, nunca se fez um exame de consciência e reflexão interna, nem ocorreu a ninguém com responsabilidades, tentar separar o trigo do joio, julgando quem se tinha portado segundo os «ditames da virtude e da honra», como prescrevia o velhinho e saudoso RDM, e os outros…

Ao contrário, criou-se vasta legislação para passar um pano por tudo; colocando todos no mesmo «saco» e promovendo todo aquele que requeresse – mesmo em situações absolutamente iníquas – a coronel ou sargento – chefe.[3]

A grande desculpa para toda esta imoralidade (que custou aos cofres do Estado grossos cabedais) foi a de «apaziguar» a família militar e colmatar injustiças cometidas no tempo da «loucura».

Convenhamos que justiça não se fez nenhuma, pois a justiça não pode pactuar com iniquidades, nem se curaram quaisquer feridas por sarar.

Apenas se «comprou» e calou, consciências, pois a carne é fraca!...

Não consta que algum político ou militar proeminente tenha contestado toda esta vergonha que comprometeu a IM por gerações.[4]

As divisões ideológicas e de grupos de interesse, associadas à acção deletéria dos partidos políticos – verdadeiros cancros da organização política portuguesa – fazem o resto. E vamos ficar por aqui.

Ou seja, está tudo dividido e, ainda hoje, o público – alvo destes jantares, sendo uma maioria alargada de pessoas que viveram ou se lembram daqueles tempos conturbados – perguntam-se de imediato, quando confrontados com iniciativas destas, quem organiza e com quem se vão eventualmente cruzar…

A isto junta-se a doença, o cansaço e a velhice. Sobretudo a descrença.

E como pano de fundo de tudo é mister não esquecer que vivemos num país de gente zangada. A tropa, talvez mais do que qualquer outro grupo profissional.


*****

Agora seguem as razões para o pessoal, do activo, andar arredio.

Uma razão sobreleva todas as outras: a sobrevivência. Sobrevivência dentro e sobrevivência fora das FA. Já toda a gente percebeu há muito, que a política e a opinião publicada não liga peva às FA e estas estão a ser liquidadas.

Os militares passaram a ser uma espécie de patinhos feios da sociedade e quando não são objecto de tiro ao pato como numa feira, são votados ao silêncio, que é uma forma de desprezo. Não existem.

Aliás, se amanhã acabassem com os Chefes de Estado-Maior, ninguém ia dar por isso.

Mantendo-se os deveres, cortam-lhes os direitos e amesquinham-lhes a condição militar e de militares.

Os militares estão órfãos de liderança e não têm qualquer representação política. Estão, por isso, quase todos a abandonar o barco.

Depois há muito que a sociedade transformou as novas gerações, maioritariamente em tecnocratas, e os ideais e estilos de vida propalados e desejados são a antítese do que se passa e deve passar na IM. Por isso o Estatuto da Condição Militar e todos os regulamentos têm sido modificados para se «adaptarem» a isto.

Os exércitos como os conhecemos hoje estão em regressão e a desaparecer e a ser substituídos (no «Ocidente», é claro) por empresas privadas de segurança – um modo moderno de mercenarismo – e breve virá o dia em que militares de um país poderão servir em exércitos alheios…

Também nunca vimos nenhuma chefia militar, tão pouco o Conselho de Chefes, preocupados com isto.

Por último, o medo: naturalmente os militares do activo têm receio (leia-se medo) de serem prejudicados numa carreira, entretanto destruída, sem que disso ainda tenham consciência completa.

Numa palavra, «estão noutra», até porque houve um chefe militar de estrelas douradas que, num dia já recuado, disse que não era chefe sindical…

Sem embargo o emproado MDN, tracinho Branco cujo estado normal é o de «equivocado» (olha que surpresa!), no dia seguinte ao jantar veio afirmar, com pesporrência, que «não tem dúvidas que a maioria dos militares concorda com as reformas».

Afirmação (se é que acredita nela) apenas possível numa personalidade atrevida, baseada em ignorância grosseira e toleima, condimentos óptimos para toldar o espírito e o senso.


*****

Chegados aqui, é mister dizer que tudo o que se puder fazer para parar e reverter o escandaloso dolo que está a ser infligido à IM e aos militares, é bem-vindo.

E, nalguns casos, até se pode dizer, que vale mais tarde, que nunca…

Contudo é preciso equacionar isto bem e ter algum cuidado com o que se faz ou venha a fazer.

Por exemplo, o comportamento dos chefes militares (hoje todos na reserva ou reforma), que ao longo dos tempos, tem dado origem à célebre premissa de que são por norma muito «reservados quando estão no activo, e muito activos quando estão na reserva»…

Ora isto retira, à partida, na grande maioria dos camaradas mais antigos entre os mais antigos, credibilidade para um conjunto de tomadas de posição, caso não haja um qualquer «mea culpa», ou explicação da sua actuação, num qualquer assunto concreto (e nunca houve).

É no activo que as tomadas de posição são fundamentais e colhem importância acrescida.

Todos sabemos que os militares foram e são educados para obedecer e para actuarem em função da cadeia hierárquica, mas também sabemos que foram preparados, outrossim, para liderar, para decidir, para terem coragem moral, iniciativa e muitas coisas mais.

E, também, que qualquer militar pode dizer o que lhe vai na alma desde que na «posição de sentido»! Coisa certamente difícil de entender a um civil….

É certo que alguns chefes militares escreveram ou disseram coisas duras sobre vários assuntos (mas que se perderam no segredo dos gabinetes); que alegaram o sentido de Estado (que mais ninguém aparenta ter); outros deram o benefício da dúvida aos políticos – que na sua maioria «odeiam» os militares (outra reflexão: porquê?) – e que todos alegam que se demitirem ou forem demitidos, existe um pelotão de outros estrelados em bicos de pés para ocuparem o lugar – o que a demissão, mal conduzida, aliás, do general Loureiro dos Santos (LS) como CEME, veio dramaticamente revelar ser verdade…

Mas nunca houve, nem nunca se percebeu que houvesse, qualquer estratégia de actuação com um rumo ou fio condutor e o Conselho de Chefes tem feito jus ao general romano que do alto da sua sabedoria sentenciou a existência de um povo nos confins de Espanha, que não se governava nem se deixava governar… Ou seja em 40 anos nunca se entendeu sobre nada, e o nada, vai da cor dos atacadores das botas à compra de submarinos…

Exemplo máximo disto é que a reforma dos Serviços de Saúde Militar ter estado em cima da mesa desde o tempo do general Melo Egídio como CEMGFA (1977) e passados 35 anos apenas haviam sido feitos alguns remendos!

Quando o ataque do poder político se começou a fazer sentir, sobretudo a partir de 1989 o que foi feito para se evitar uma longa lista de barbaridades feitas à IM e aos seus servidores?

Vamos dar alguns exemplos sem qualquer preocupação de hierarquia de importância, ou temporal.

O que se fez até hoje:
  • Para repor a verdade dos factos e das intenções, relativamente às últimas campanhas ultramarinas?[5]
  • Para repor a dignidade dos combatentes e preservar a sua homenagem e memória? (lembra-se, por exemplo, que até ao consulado do PR Cavaco Silva, as FA estiveram escovadas das comemorações oficiais do Dia de Portugal!);
  • Como oposição e repúdio pelo fim do Serviço Militar Obrigatório – uma decisão trágica do ponto de vista cívico e da Defesa Nacional! – e o que se fez para a sua reposição? (para já não falar naquela farsa trágico-cómica do SMO de quatro meses…);
  • Para evitar que os militares tenham sido corridos de praticamente todas as funções/cargos fora da estrutura das FA?
  • Para evitar a destruição do estatuto da reserva?
  • Para ter uma política activa de relações públicas? Lembram-se de quando o ministro passou o gabinete de relações públicas do EMGFA para o seu gabinete e acabaram com a revista «Baluarte», que seria substituída por outra a copiar da «Defensa» espanhola? Pois é, até hoje nada se fez que jeito tivesse, e a revista finou-se;[6]
  • Para defender institucionalmente a IM, as FA e os militares, evitando a necessidade da existência de Associações de Militares?
  • Para evitar a destruição dos Tribunais Militares, do foro próprio militar e do esfrangalho actual da Justiça Militar? (A que, apesar de tudo, os Tribunais Civis tem dado alguma dignidade de acolhimento!);
  • Para evitar a subversão do Regulamento de Disciplina Militar?
  • Para evitar que as chefias militares deixassem de ser pagas pela grelha salarial das FA, para estarem indexados aos cargos políticos?
  • Para evitar que a escolha e nomeação das chefias militares sejam feitas no actual quadro legislativo, que as torna, na prática, uma espécie de comissários políticos para as FA?
  • Para que os chefes militares possam ir falar livremente à Assembleia da República, em assuntos da sua competência em alturas e formas a determinar? Ou até a seu pedido? Exemplo: aquando da discussão do CEDN; Leis Orgânicas dos Ramos; Orçamento para a Defesa; Leis de Programação Militar, etc., e não apenas quando a Comissão Parlamentar de Defesa assim o entende?
  • Para evitar que um oficial influa, da pior maneira e desde capitão, nos assuntos das FA, Defesa, e Segurança, estando no activo (até há pouco) e ligado a um partido político?
  • Para evitar a destruição quase completa da Indústria de Defesa?
  • Em termos de solidariedade para com oficiais generais que foram humilhados publicamente, tirando um jantar de solidariedade ao general Viegas quando numa jogada de mestre, se demitiu de CEME alegando que tinha perdido a confiança no MDN? (onde só participaram generais do mesmo ramo). E, ainda – é justo referir – quando o CEMGFA general Soares Carneiro se solidarizou com o almirante Cerejeiro e demais juízes do Supremo Tribunal Militar, após a incrível cabala de que foram alvo?
  • Para evitar a degradação, assalto e destruição do IASFA?
  • Para evitar o fim do fundo de pensões?
  • Para evitar o fim do complemento de reforma?
  • Para evitar o assalto e alienação da maior parte do património sob a tutela das FA, em condições que deixam muito a desejar?
  • Para evitar reformas malsãs nos colégios militares e o encerramento do Instituto de Odivelas?
  • Para evitar a venda de parte dos F-16?
  • Para evitar a constituição de grupos de trabalho «ad-hoc», para tratarem assuntos que dizem respeito aos Estados-Maiores dos Ramos? (o que foi posto em prática pela 1.ª vez em 1989, estava eu na DGPDN, e nunca mais parou até hoje)?
  • Para evitar que a estrutura do MDN tenha sido tomada de assalto por civis, muitos deles ligados a estruturas partidárias e, até, sem passarem pela tramitação legal existente?
  • Para reagir a desaforos e humilhações, como representou a destituição do CEMGFA – almirante Fuzeta da Ponte; o desrespeito contumaz de Paulo Portas, quanto MDN e as incríveis declarações do professor Freitas do Amaral a mandar almirantes e generais irem andar de bicicleta? (E tantas outras!).
  • Para em vez de se tentar harmonizar o ensino militar com o civil, se deixasse «invadir» aquele por este, ao ponto de se já ter tentado colocar um professor universitário civil à frente de uma hipotética universidade militar? Neste âmbito, que é o último «nicho» de especificidade militar relevante, ainda restante, vai ser alvo de continuados ataques e não vão descansar enquanto não destruírem as Academias Militares!
  • Evitar o recente congelamento das promoções, atitude dez vezes mais gravosa e paralisante, que o infeliz decreto-lei 353/73, que deu origem ao feriado que hoje gozamos em Abril?
  • Para evitar, finalmente, que se aprovasse este malfadado EMFAR, preparado quase na clandestinidade, sem percorrer todos os trâmites legais em vigor e sem que algum do seu conteúdo tivesse passado pelos Estados-Maiores dos Ramos?
*****
Como se isto não bastasse os militares ainda se entretêm, de quando em vez, a dilacerarem-se mutuamente e a fazerem tristes figuras de si próprios.


Segue uma «short list»:
  • As constantes «guerras» para ver quem fica com mais um sistema de armas, nas Leis de Programação Militar, e na ida de forças destacadas para o exterior;
  • O «golpe de mão» do Exército à FA, que constituiu a passagem do Corpo de Tropas Paraquedistas, para aquele Ramo;
  • O encerramento do Regimento de Comandos seguido da sua reactivação, seguido da mudança da sua localização, por quatro vezes;
  • Encerramento do Instituto Militar dos Pupilos do Exército, logo seguido da sua reactivação, sem melhoria de instalações, por décadas (dá ideia de que ninguém sabe o que quer!);
  • Oposição de alguns chefes a mudanças na macroestrutura das FA, seguida da sua aceitação e implementação, aquando de promoção e mudança de função;
  • Incapacidade manifesta de lidar com a gestão do pessoal e suas carreiras, havendo a registar 40 anos de caos sem a mínima possibilidade de reestruturar fosse o que fosse;
  • Incapacidade manifesta de lidar com a retenção/saída de especialidades com maior apetência para procurar emprego no mercado civil, de cujo expoente (mas não único) são os pilotos. Nunca se tentou lidar com isto seriamente, havendo um constante mudar de agulhas e falta de entendimento crónico;
  • Incapacidade em haver uma estratégia para lidar com a Protecção Civil e sobretudo com a questão dos fogos de onde se destaca a magna questão da operação de meios aéreos (que nunca deviam ter saído das FA!);
  • A displicência com que se encarou as hipotéticas mudanças de dispositivo, aquando das tentativas frustradas da construção do novo aeroporto de Lisboa, sobretudo a de Rio Frio, por causa do Campo de Tiro de Alcochete (e não só). Aliás qualquer parecer de um grupo ecologista ou similar, tem de longe mais importância do que qualquer parecer sobre aspectos de Defesa e Segurança Nacionais, os quais por norma não são pedidos quanto mais atendidos. Nada que tenha perturbado, porém, o equilíbrio psicossomático das chefias militares, que apostam sempre em estar «serenas» e serem «parte da solução e não do problema»…
  • Outra questão que dilacerou os Ramos foi a controvérsia sobre a quem deveriam pertencer os meios aéreos de asa rotativa, assunto que se arrastou por anos;
  • O recente episódio em que um alto chefe militar pediu para passar à reforma, tendo ficado no activo e a posterior incrível posição da Caixa Geral de Aposentações sobre o assunto, e de todos os outros que ficaram a ver…
  • Finalmente diz a declaração tornada pública no fim do jantar, repudiar «a tentativa de desresponsabilização política da tutela, que sempre tem feito o anúncio público das medidas tomadas, escudando-se na participação e concordância das Chefias Militares»; é verdade e tal tem constituído uma iniquidade política, institucional e pessoal. Porém, até hoje, e já lá vão muitos anos, nunca houve um qualquer desmentido de uma única dessas chefias, ao passo que muitas vezes as mesmas, se têm deixado arrastar para conferências de imprensa, onde algumas medidas foram apresentadas, sentando-se ao lado daqueles que usam o título de MDN – sem que, até hoje nesta República, algum tenha exercido tal cargo[7].

*****
    Numa palavra, não foi por acaso que a IM chegou ao ponto a que chegou.

    Só é respeitado quem se dá ao respeito. E as Forças Armadas, por tudo o atrás descrito, e não só, deixaram de se dar ao respeito.


    O País está, neste momento, desprotegido, num dos pontos mais baixos da sua História em termos de Poder efectivo.

    A tropa está desmoralizada; o país não tem reservas de espécie alguma (tirando crude, parte do qual está guardado fora do país!); não tem capacidade de produzir uma munição de qualquer calibre e nem sequer é capaz de mobilizar parcialmente, uma pequena parte da sua população, não só porque o sistema de mobilização foi destruído, como, também, por não ter sequer botas para calçar, digamos, 500 indivíduos de uma só vez…

    Ora em toda esta débacle não podemos em verdade dizer, que as sucessivas chefias militares não têm vastas culpas no cartório, não só por acção mas, sobretudo, por omissão e demissão.

    E devem arcar com a sua parte de responsabilidade pela situação a que chegámos.

    *****

    Desde meados de 1976 e até hoje, tenho tentado denunciar e inverter toda esta situação a qual, ao contrário da maioria, sempre considerei atentória da IM e da Nação.

    O resultado foi, a páginas tantas, terem-me punido – diga-se em abono da verdade, com alguma razão – e não descansaram enquanto não me puseram fora do serviço activo.

    Fora processos em tribunal, outras ameaças e uma censura cerrada a muitos níveis.

    Espero, contudo, continuar a denunciar o que entendo por denunciável, mesmo depois de morto.

    Mas, como disse, vale mais tarde que nunca e tudo o que se puder fazer para corrigir os erros manifestos e punir o dolo perpetrado, é bem-vindo.

    E parece que, mesmo antigos chefes militares por mais «compreensão» que tenham tido pela actuação dos políticos para com as FA, passaram a estar revoltados com a soma de malvadezas, algumas roçando a humilhação, que têm sido perpetradas – estas últimas sobre o pessoal na reserva poder ir para continuo duma escola, ou os preceitos a que agora estão obrigados os da reforma relativamente ao uso e porte de armas, são disso o derradeiro expoente.

    Espero que seja a consciência de velhos soldados, cuja formação militar deixa marcas indeléveis, a vir ao de cima!

    *****

    Voltemos ao jantar e outras eventuais iniciativas já tomadas ou a tomar.

    Não só é adequado mas essencial, que tudo o que se faça, não tenha conotações partidárias, se confunda com apoios espúrios eleiçoeiros e, ou, não se encontre ligado ou infiltrado pelas diferentes maçonarias existentes.

    A única ideologia deve ser a da dignidade da IM e dos militares; a doutrina, o patriotismo e a estratégia, a defesa da independência e perenidade de Portugal.

    Sobre cujas sucessivas machadadas, a hierarquia, aos costumes tem dito nada. Será que pensam que tal não cabe nos seus deveres?

    Os leitores certamente já repararam que sobre a figura do Presidente da República, que ostenta – mas apenas ostenta – o honorífico título de «Comandante Supremo das FA», nada disse.

    Para quê? Desde Eanes que sobre as FA todos têm sido de uma vacuidade cujo esplendor brilha nas frases de circunstância (tirando o que atrás foi dito sobre o actual PR relativamente às FA terem lugar de destaque no dia de Portugal e onde passaram também a desfilar grupos de antigos combatentes).

    Houve até um – que em tempo de guerra foi dispensado de ir à tropa por ter os pés chatos – que se cobriu de ridículo ao escrever um artigo no Diário de Noticias apelando a que devia haver mais debate sobre as FA…

    Por último, analisemos o que se passou no jantar.

    Primeiro, foi um bom negócio para o Hotel Mundial.

    Foi lida uma mensagem do general Eanes, a qual, salvo melhor opinião, foi perfeitamente deslocada para o âmbito para que foi dirigida.

    Foi lido um pequeno comunicado – que tenho por bem escrito – à comunicação social que toca em alguns pontos pertinentes (era muito difícil ser mais abrangente/sintético para o objectivo de fazer passar uma mensagem para a comunicação social), tendo, porém, tido pouco eco, na mesma e nos comentadores de serviço.

    No fim do jantar, onde não estava previsto ninguém falar – não se percebe, contudo, como se pode debater ou refletir sobre algo, se ninguém fala – um oficial mesmo sem lhe ser dada a palavra e com 14 decibéis elevados colocou uma pergunta pertinente: E a seguir o que se faz?

    Ninguém lhe respondeu.

    Hoje já ninguém se lembra do repasto e, se nada se passar a seguir, foi um tiro de pólvora seca e mais uma oportunidade perdida.

    Vou ainda e para finalizar, dar-me ao incómodo de tentar responder ao meu camarada de armas que colocou a questão.

    *****

    Não se preparar o dia seguinte parece ser pecha dos militares, o que aparenta ser uma incongruência e inconformidade graves, dada a sua formação, instrução e treino.

    Mesmo quando se abalançam a fazer coisas complexas e sensíveis, como sejam golpes de estado, de que são exemplo o 28 de Maio (de 1926), salvo «in extremis», um ano e meio depois por Carmona e Salazar; e o 25 de Abril (de 1974), emendado (parcialmente) à última, a 25 de Novembro (de 1975), mas com danos irreversíveis, 40 anos depois.

    A IM está ainda a pagar as favas de tudo isso.

    Do século XIX e do granel criminoso da I República, nem vale a pena falar. E também ninguém quer falar...

    Não se trata agora (segundo consta no convite feito e na declaração lida) de fazer nada semelhante, mas sim o de tentar parar com tanta barbaridade (os termos usados são mais bonitinhos), fazer reverter as asneiras maiores e colocar a IM e os militares, na justiça relativa adequada à condição militar e à posição especialíssima que lhes cabe na estrutura do Estado e da Nação.

    E, já agora, – digo eu – tentar defender minimamente este pobre povo dos seus inimigos externos das chagas morais da sociedade, que o deslustram e, até, de si mesmo.

    E a primeira coisa que é necessário apurar é se os agentes políticos que têm afrontado a Instituição Militar são apenas adversários ou são inimigos das FA e dos militares – e, por arrastamento, da própria Nação. Pois as FA são uma instituição absolutamente estruturante do país desde a sua fundação.

    A diferença não é um pormenor.

    Eu creio, que a maioria da classe política – e isso é transversal a todos os Partidos – uns por umas razões, outros por outras, não gosta, não entende, não quer e têm até um pó indisfarçável, aos militares.

    Mas a maioria dos meus camaradas tem entendido (ou fingido) que eu não tenho razão e sou um exagerado (normalmente os adjectivos não se ficam por aqui).

    E, por isso, na «Ordem de Batalha» que elaboram, colocam as Forças Políticas no campo das «Forças Amigas».

    Assim devia ser, de facto, e outra coisa não faz sentido.

    Acontece, porém, que a prática tem desmentido este desiderato, por uma margem que ultrapassa qualquer desvio padrão.

    Ora tomar decisões sobre premissas erradas nunca deu bom resultado. Daí, também, o insucesso de tudo o que se tem tentado fazer até hoje…

    Seja como for a «Estratégia» – e isso todos os oficiais, sobretudo os de graduação superior, devem saber (o GREI é até, um grupo de reflexão estratégica) – que esta disciplina lida com inimigos e não com adversários e utiliza como ferramentas as diferentes formas de coação ao seu dispor.

    Ora o dia seguinte só valerá a pena planear – já que o «poder» da palavra ou é ignorado pela palavra do Poder ou leva muito tempo a dar frutos – e mesmo neste âmbito pouco se tem feito – se conseguir preparar um conjunto de acções coativas, que levem os tais agentes políticos a mudar a sua actuação.

    Mas parece que ainda não se reuniram as condições para confluir numa estratégia a sério.

    Ora a discussão de formas de coação (podem ser políticas, económicas, financeiras, diplomáticas, psicológicas, militares, cívicas, etc.), não se fazem e nunca se fizeram em jantares públicos.

    De modo que, caro camarada, após a intendência ter tratado do estômago e umas declarações comedidas, terem acalmado o espírito, foi tudo dormir com a consciência tranquila do dever cumprido. Até ao próximo jantar.

    Até porque comer fora, caro camarada, é que é o desporto nacional. Não é o futebol.

    E, como disse o tracinho Branco, cujo despautério não conhece limites, «é a Democracia a funcionar». A dele.



    [1] Este trabalho foi escrito sem qualquer preocupação de tempo ou de espaço.

    [2] Uma missiva que, para além de um elogio ao GREI e à 25A, é intragável do ponto de vista do entendimento.

    [3] Até a «classe» dos oficiais generais, que tinha sido preservada deste tipo de promoções, acabou por ser atingida aquando da promoção do coronel Jaime Neves a major general, o que era perfeitamente dispensável e não lhe acrescenta nada…

    [4] E não resisto a lembrar aquela distribuição pindérica de medalhas a granel, quase em regime de «self service», promovida por esse monumento à demagogia populista, conhecido na gíria pelo «Paulinho das feiras», junto ao pavilhão Portugal, da Expo…

    [5] Existe aqui uma excepção: os livros publicados pela Comissão para o Estudo das Campanhas Ultramarinas (CECA), tutelada pelo Exército, têm sido um bom contributo. Mas, ó ironias do destino, nem os conseguem comercializar!

    [6] Já repararam certamente e por exemplo, que quando há queimas das fitas ou até a bênção das mesmas, nas universidades, as televisões e demais OCS passam um caudal de noticias, onde por vezes só aparece desbunda, bebedeiras, praxes obscenas e outro folclore académico. Pergunto: qual dos leitores se lembra da última vez que viu/ouviu/leu, uma notícia sobre um Juramento de Bandeira?

    [7] Dado que a única coisa que fizeram, foi o de serem ministros para as FA!





    quinta-feira, 25 de junho de 2015


    Vamos referendar o Acordo Ortográfico!


    Heduíno Gomes

    Em boa a verdade, a ortografia não é assunto que se referende por constituir matéria a ser tratada por especialistas — competentes e não por broncos ou vendidos a interesses —, no exercício da autoridade do Estado que defenda a identidade nacional — Estado que não temos.

    Esta acção política do referendo não é propriamente para decidir da correcta ortografia mas apenas se destina a travar esse crime contra a língua portuguesa iniciado por Santana Lopes-Cavaco e continuado pelos sucessivos políticos medíocres que nos têm governado ao longo destes decénios.

    Eis os elementos essenciais sobre a iniciativa.


    Recolha de assinaturas está em marcha.

    Personalidades das áreas da política, artes, cultura e académicos estão a recolher assinaturas para um 
    referendo ao Acordo Ortográfico  (AO1990) e questionam sobre a matéria os candidatos a cargos políticos nas próximas eleições.

    Finalmente, os cidadãos podem pronunciar-se sobre um assunto que sempre foi decidido e imposto sem lógica.

    Da lista fazem parte escritores, professores e cientistas, políticos, comentadores, jornalistas, todos juntos numa iniciativa que nasceu em Abril passado num fórum realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com o título «Pela Língua Portuguesa, diga NÃO ao Acordo Ortográfico de 1990».

    Além do referendo, os promotores querem também perguntar às forças políticas e aos candidatos presidenciais o que pensam sobre o Acordo, se o utilizarão no exercício do cargo caso sejam eleitos, de que forma Portugal se deve de desvincular (se for o caso) e em que sentido votarão a iniciativa de referendo na Assembleia da República.

    A iniciativa tem 52 mandatários. O referendo, segundo a Constituição (artigo 115.º  2) pode resultar de iniciativa de cidadãos dirigida à Assembleia da República. São necessárias 75 mil assinaturas.


    Onde Assino?

    https://referendoao90.wordpress.com/






    terça-feira, 23 de junho de 2015


    O candidato a órgão institucional Observador

    Acerca do problema de Olivença


    Heduíno Gomes

    O Observador, jornal electrónico candidato a órgão institucional dirigido por José Manuel Fernandes, acaba de publicar uma croniqueta de José Carlos Fernandes sobre uma salada de temas históricos entre os quais Olivença.

    Que características tem a peça?

    Primeira característica: pretenso humor, a chuchar com «muito patriota português» por exigir a devolução de Olivença à soberania portuguesa, na linha daquele internacionalismo idiota que caracteriza o habitat mental destes intelectuais. Para os idiotas bem-pensantes, o patriotismo é um bom assunto para fazer humor, sentimento a destruir. Curiosamente, num momento em que já mais de 300 oliventinos pediram a nacionalidade portuguesa.

    Segunda característica: relativismo histórico, numa subjectivista salganhada de argumentos e contra-argumentos em que, pelo cérebro do «historiador», nos vários conflitos «analisados», nenhum país tem razão para se queixar disto ou daquilo. Entre eles, Portugal no caso de Olivença. Mais uns Miguéis de Vasconcelos dos nossos dias.

    Fernandes & Fernandes — empresa a reter na memória em matéria de patriotismo e verdade histórica.

    Uma legítima dúvida. Já existem relações entre a tesouraria do Observador e o Palácio da Moncloa ou apenas a candidatura?

    Para informações sobre a questão de Olivença:

    http://www.olivenca.org/

    https://www.facebook.com/AmigosDeOlivenca

    http://jornaldeolivenca.blogs.sapo.pt/


    http://www.alemguadiana.com/

    http://alemguadiana.blogs.sapo.pt/

    http://www.cafeportugal.pt/pages/noticias_artigo.aspx?id=8570




    segunda-feira, 22 de junho de 2015


    Patrícia Lança sobre mulheres na tropa


    Heduíno Gomes

    A Patrícia Lança, falecida o ano passado, era luso-britânica e serviu, durante a II Grande Guerra, como sargento, no exército britânico. Estava num serviço de apoio ao Estado-Maior, e portanto na retaguarda.

    Ela e o marido, Carlos Lança, foram activos militantes comunistas, tendo estado em Praga nos serviços de propaganda. Cortaram com a União Soviética em 1956, quando da invasão da Polónia e da Hungria. O seu corte com o marxismo teve lugar já no princípio dos anos 70. Entretanto, haviam residido em Argel, onde constaram entre as vítimas do bando de Argel, que integrava o «democrata» Manuel Alegre, então trauliteiro do PCP.

    Depois do 25A, deu o nome para as listas do PSD... e acabou por ser eleita deputada durante 4 anos na enxurrada do cavaquismo. Sempre se distanciou do cavaquismo e das taras dos e das cavaquistas, nomeadamente do feminismo das senhoritas da organização de fachada «Mulheres Social-Democratas» e dos mansos oportunistas que lhes aparam as «igualdades» e as «quotas» para mulheres.

    Publicou no Diabo muitos artigos, nomeadamente contra o feminismo, um dos quais com o sugestivo título /Deverá a Mãe-Natureza Mudar de Sexo?\.

    Uma vez, em conversa sobre as mulheres nas Forças Armadas, diz-me ela: — Ó Heduíno, já pensaste se uma mulher está na frente da batalha e precisa de fazer chichi?

    Era a opinião de uma mulher com provas dadas, uma mulher não-bibelot...

    Patrícia Lança, sargento, em 1943, e em 2003.





    quarta-feira, 17 de junho de 2015


    «Chega de igualdade!

    Mulher não dá para ser soldado!»

    — diz capitã dos Marines


    Luis Dufaur

    No artigo intitulado «Chega disso! Nós não fomos criados todos iguais», a capitã defende que a anatomia feminina não é capaz de resistir às asperezas de uma longa carreira militar que envolve operações de infantaria.

    Ela adverte que os Fuzileiros Navais (Marines) vão sofrer «um aumento colossal no número de mulheres incapacitadas e obrigadas a concluir a sua carreira por motivos de saúde».

    Katie Petrónio baseia-se na experiência pessoal, adquirida em situação de combate. Causando-lhe sérios danos físicos, malgrado um promissor começo na elite da oficialidade da arma.

    A capitã escreveu que «preenchia todas as condições» para ser uma mulher-soldado ideal quando começou a carreira. «Eu era uma estrela no hóquei sobre o gelo no Bowdoin College, pequena escola de elite em Maine, com um título em Direito e Administração».

    Ela também tirou resultados «de longe acima da média em todos os testes físicos de capacidade para mulheres», embora não completasse todo o treino prévio.

    «Cinco anos depois, eu não sou fisicamente a mulher que uma vez fui, e os meus pontos de vista a respeito da mulher ser bem sucedida numa carreira duradoura na infantaria mudaram muito», escreveu Petrónio.

    «Mulher nunca deveria ser soldado de infantaria»,
    escreveu a capitã dos Marines Katie Petrónio na revista «Marine Corps Gazette»,
    segundo informou a agência LifeSiteNews.

    «Eu posso dizer, com base na minha experiência pessoal directa no Iraque e no Afeganistão, e não é apenas uma impressão, que nós ainda não começamos a analisar e a compreender as questões específicas de saúde do género e os danos físicos nas mulheres por causa de contínuas operações de combate».

    Petrónio «participou em numerosas operações de combate» que por vezes duravam semanas, sofrendo stress e falta de sono. As suas pernas começaram a atrofiar-se, perdeu a mobilidade, perdeu peso, parou de produzir estrógenio e desenvolveu uma síndrome no ovário que a deixou estéril.

    Ela completou o seu período com bons resultados, mas percebeu que lhe seria impossível aguentar o esforço que um homem é capaz de fazer e pediu para se retirar por motivos de saúde.

    Petrónio manifestou a sua preocupação diante da pressão dos grupos que impulsionam a integração de mulheres no corpo de infantaria.

    «Quem está a promover esta agenda? Eu não vejo Marines femininas, recrutas ou oficiais, batendo às portas do Congresso, queixando-se de que a sua impotência para servir na infantaria viola o direito à igualdade» escreve ela.

    Kate diz que essa pressão está sendo aplicada pelo «pequeno comité de civis nomeado pelo Secretário da Defesa» denominado Comité Consultivo de Defesa para Mulheres no Serviço (Defense Advisory Committee on Women in the Service – DACOWITS).

    Embora alguns deles tenham experiência militar, nenhum de seus membros «estão no serviço activo ou têm qualquer tipo de experiência recente em combate ou em operações relevantes sobre as realidades que eles estão tentando modificar», observou Petrónio.





    quinta-feira, 11 de junho de 2015


    Convite para conferência sobre Cristóvão Colon









    Alegre perde caso de difamação na Relação


    Vítor Matos, Revista Sábado, 3 Março de 2015

    O Tribunal da Relação confirmou a semana passada que Manuel Alegre perdeu o processo por difamação que tinha interposto contra Brandão Ferreira, um tenente-coronel aviador na reforma e cronista da SÁBADO, que o acusou de traição à Pátria durante os anos em que foi uma das vozes da rádio Voz da Liberdade, em Argel. A primeira instância criminal tinha absolvido o militar à luz da liberdade de expressão, por entender que este tinha manifestado uma opinião sobre factos históricos. O socialista e ex-candidato presidencial recorreu da decisão para a instância superior, que agora se pronunciou.

    A decisão da primeira instância criminal tinha sido conhecida em Setembro de 2014. O caso remonta a 2010, quando o antigo piloto-aviador assistiu a uma intervenção de Manuel Alegre num colóquio da Gulbenkian sobre os antecedentes e o contexto internacional da guerra do Ultramar. Na fase das perguntas, Brandão Ferreira, que estava na assistência, colocou uma questão hipotética dirigida ao antigo resistente anti-fascista: tendo Portugal forças em Cabul, como é que Manuel Alegre reagiria em relação a alguém que fosse para o Afeganistão emitir textos para os talibãs e apelando à deserção dos soldados portugueses?

    Uns meses mais tarde, no seu blogue Novo Adamastor, acusou Manuel Alegre, que já era candidato à Presidência da República, de traição à Pátria, o que seria incompatível com o cargo de comandante supremo das Forças Armadas: «Quando foi para Argel não se limitou a combater o regime, consubstanciado nos órgãos do Estado, mas [foi] ajudar objectivamente as forças políticas que nos emboscavam as tropas». Depois concluiu: «Traição não tem assim que ver com ataques a pessoas, instituições ou sistemas políticos, a não ser que os fins justifiquem os meios. Traição tem mais a ver com carácter hombridade e ser-se inteiro».

    Contactado pela SÁBADO, Manuel Alegre não quis fazer comentários porque ainda não tinha tido conhecimento da decisão do tribunal. Em Setembro, o socialista tinha considerado a sentença «surpreendente» porque a «liberdade de expressão não permite tudo, não permite o atentado ao bom nome e à dignidade das pessoas».

    Brandão Ferreira afirmou à SÁBADO que mantém a sua posição: «Penso que configura traição à Pátria, porque fez uma guerra psicológica contra Portugal. Isto não tem a ver com a luta contra o regime. Tem a ver com um País que está em guerra e uns tipos passam para o lado do inimigo e isso tem um nome. Congratulo-me pela decisão e espero que faça jurisprudência».





    segunda-feira, 1 de junho de 2015


    A destruição da Instituição Militar
    está quase concluída...

    As barbaridades contra os militares continuam!


    João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador



    «As únicas nações que têm futuro,
    as únicas que se podem chamar históricas,
    são aquelas que sentem a importância e o valor
    das suas instituições e que, por conseguinte,
    lhes dão apreço».

    Tolstoi

    O Ministro da Defesa, sobre quem qualquer adjectivo de urbanidade passou a ser estultícia, veio anunciar, no dia em que Vasco da Gama chegou ao Tejo, vindo da Índia, que iria desbloquear a promoção de 6 088 militares e que tal implica a despesa de 6,8 milhões de euros.

    Diversos órgãos de comunicação social fizeram eco das declarações, pondo enfâse e «entoação», na ideia de que se trata de um tratamento preferencial, que o custo é pesado, deixando subentendidas várias criticas veladas.

    Todos se comportam como se estivessem a fazer algum favor à Instituição Militar (à «tropa» como, eufemisticamente, usam apelidar), ou aos seus profissionais que são, desde Afonso Henriques, os primeiros servidores da causa pública.

    E o que mais doí é que não há um único general ou chefe militar no activo, que venha a terreiro colocar as coisas como elas são.

    Desde há 40 anos que raros foram aqueles que deram o peito às balas e tenham reposto a verdade dos factos e das intenções, e com o seu silêncio permitiram que basbaques da classe política e jornalística desconsiderassem, distorcessem, mentissem, prejudicassem e até humilhassem, não só a eles próprios, como a Instituição que integram e, supostamente comandam.

    E já nem falo das ocasiões em que a soberania do País foi beliscada (e tem sido muito) e os mesmos aos costumes disseram nada, fazendo tábua rasa dos juramentos que fizeram.

    Este melífluo ministro da defesa (e sua equipa), de falinhas mansas e untuosas, teve o despautério de apresentar uma medida, que deveria ser normal e automática, como sendo uma grande coisa, sem referir que o ora anúncio, que devia ter vergonha de fazer, apenas decorre da escabrosa e injustificada medida que o governo de que faz parte tomou, em 2011, de congelar as promoções nos três Ramos das Forças Armadas e que ia do simples soldado aos generais de três estrelas (e que vinha a ser preparado do governo anterior).

    Os únicos que não foram «congelados» foram os de quatro estrelas, os quais poderiam ter entrado para a História se algum deles tivesse tido a coragem e a sageza de afirmar não querer receber a promoção enquanto a normalidade não fosse restabelecida!

    Uma medida, aliás, muito mais gravosa do que o malfadado decreto-lei 353/73 (que regulava a passagem dos oficiais milicianos ao quadro permanente), que está na origem do golpe de Estado ocorrido em 25/4/74!

    E não se esqueceram de referir o custo quando, do anterior (e o actual despacho n.º 5505-B/2015 reitera, e onde aberrantemente o MDN assina na companhia do secretário de Estado da Administração Pública) se estabeleceu que todas as promoções a haver, não aumentavam a despesa global orçamentada para o pessoal!

    É evidente que não devemos culpar apenas o inefável ministro, hífen Branco por mais esta aberração demagógica – a juntar às mais recentes extinção do Fundo de Pensões dos Militares; idem para o Complemento de Pensão de Reforma; a borrada em que continua a Saúde Militar; a destruição e apropriação do IASFA e a promulgação, hoje mesmo, do novo Estatuto dos Militares das FA, pelo PR, facada que culmina (por enquanto) o início da desmontagem da Instituição Militar iniciada no primeiro governo de Cavaco Silva.

    As responsabilidades repartem-se pelo Governo (os anteriores também não foram melhores, neste âmbito, mas nunca se chegou tão longe), onde se destacou o Ministério das Finanças que, na sequência do que se fez no consulado do ministro Santos Silva – conhecido na gíria por «hiena trotskista» (Governo Sócrates), numa incrível inspecção que fizeram aos Ramos – e que também não mereceu, na altura, qualquer oposição da hierarquia militar – tem continuado na mesma senda.

    Aquilo representou um completo atestado de incompetência (até ao próprio ministro) e uma espécie de usurpação de funções!

    E, claro, o primeiro-ministro que é o responsável máximo por toda a política de defesa nacional – se é que tais termos se podem aplicar, actualmente, em Portugal.

    Na sua arenga aos «Filhos da Escola» – termo pelo qual os nossos marinheiros gostam de se tratar – no tal dia em que a Armada comemora o seu aniversário, na data maior da sua vetusta História – que levou Toynbee a considera-lo divisória na época pré e pós – gamica – o personagem que o estrago – maior laranja arranjou para tutelar a Defesa, elogiou a Marinha afirmando que «todas ou grande parte das suas missões são missões de serviço público».

    Mas então era suposto serem o quê? E aquelas que ficaram de fora («todas ou grande parte»), são o quê?

    E saiu-se também com esta tirada: «está a generalizar-se em Portugal a ideia da importância do Mar para Portugal».

    Deve ser por isso que não se descobre um canal televisivo que tenha dado sequer uma notícia ou imagem do Dia da Marinha…

    É incrível como a memória é tão curta, a desfaçatez tão comprida e a cobardia tão extensa – até a costumam confundir com «prudência», «bom senso» e, até «sentido de estado»…

    De facto a natureza humana não muda mesmo.