BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

sexta-feira, 15 de abril de 2016


A Logística Terrestre e a Guerra do Ultramar*


Tenente-general Adelino Rodrigues Coelho**, Revista Militar, 2507, Dezembro de 2010



«A logística condiciona todas as campanhas e limita muitas»
Eisenhower



«A logística nunca ganhou nenhuma guerra mas condicionou muitas»
Adaptado do General Wavell




I — Generalidades

1. A LOGÍSTICA, considerada um «ramo dos conhecimentos militares», ao nível da táctica e da estratégia, apenas desde os finais da década de cinquenta, teve de ser estudada e regulamentada com mais profundidade, pelo que não admira que quando se iniciaram as guerras do Ultramar o Exército Português não tivesse qualquer regulamento ou directiva que apontasse procedimentos e normas logísticas, de uma forma geral, e muito menos sobre conflitos subversivos.

Apesar de tudo, e muito principalmente derivado aos ensinamentos americanos, colhidos durante a II Guerra Mundial, e adoptados por Portugal naquela década, a logística esteve à altura das suas responsabilidades desde o início da guerra e com capacidade para se adaptar às necessidades e características diferenciadas dos três Teatros de Operações (TO). E fê-lo de forma notável, começando por definir «Normas de Execução Permanente (NEP)», assim se cumprindo a formulação e definição de Logística, que ainda hoje é aceite pelo Exército Português.

«A LOGÍSTICA é o ramo dos conhecimentos militares que tem por finalidade proporcionar às forças combatentes os meios humanos e materiais necessários para satisfazerem em quantidade e qualidade, momento e lugar, as exigências do combate.» (Fig 1)

É conveniente esclarecer, e desde já, que só será abordada a LOGÍSTICA OPERACIONAL OU DE COMBATE. No entanto convirá dizer que foi da maior importância a LOGÍSTICA DE BASE, OU DE PRODUÇÃO (aquela que fica na Zona do Interior e que fornece os meios para a Logística Operacional) a qual já existia e estava em condições de operar de forma eficiente e eficaz, tornando-se somente necessário aumentar o seu pessoal ao nível das necessidades para fornecer os recursos de acordo com o crescimento dos efectivos a apoiar. Vale a pena mencionar: OGMA – Oficinas Gerais de Material Aeronáutico; o ARSENAL DO ALFEITE; as OGFE – Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento; a MANUTENÇÃO MILITAR; as OGME – Oficinas Gerais de Material de Engenharia; o INSTITUTO HIDROGRÁFICO; a FMBP – Fábrica Militar de Braço de Prata; a FNMAL – Fábrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras; o LMPQF – Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos; os HM – Hospitais Militares e o SCE – Serviço Cartográfico do Exército. Há que lhes reconhecer a sua enorme importância especialmente para fazer face aos primeiros embates de guerra e o continuado apoio, sempre incrementado, durante todo o tempo que ela durou.

É oportuno mencionar que foi mais fácil aumentar o pessoal para responder às necessidades crescentes que reduzi-lo quando terminou a guerra. Ainda hoje os estabelecimentos fabris do Exército estão com pessoal em excesso e passado todo este tempo, ainda não foram aplicadas medidas para corrigir a desadequação efectivos versus necessidades.

2. O estudo da Doutrina Logística, bem com a sua adaptação à guerra subversiva só foi possível pelo contributo dado pelas Escolas Militares portuguesas, de todos os níveis, porque não era aceitável a adopção da doutrina americana sem ter em conta, as nossas características específicas, essencialmente pelos reduzidos recursos disponíveis e as nossas limitações.

E, na generalidade, não há combatentes, nos três Teatro de Operações (TO) que não sejam unânimes em reconhecer que o apoio logístico funcionou com flexibilidade e rigor. E em relativamente pouco tempo estava fixada uma doutrina para a guerra subversiva, abrangendo todos os campos, em cinco volumes que viriam a ser adoptados por outros Exércitos, pois foram os primeiros a abordar de forma sistematizada e completa toda a doutrina deste tipo de guerra.

II — A Organização Logística – Introdução

1. Em guerra convencional o Teatro de Operações (TO) está ligado à zona do Interior (ZI), onde funciona o poder político e por uma Zona de Comunicações (ZC), que se deseja a mais curta possível.

No nosso caso a ZI era Portugal Continental e a ZC era o espaço que a separava dos Três TO, já que a partir de 1963 nos foi cortada a possibilidade de usar o espaço aéreo de África.

2. A ZC terminava em bases logísticas de onde partiam os recursos para o interior do TO. Neste aspecto quem tinha as piores condições era Moçambique pela impossibilidade de criar apenas uma base logística, a que se juntava ainda o facto de ter a maior ZC.

3. Nos Três TO, com uma ESTRUTURA incipiente, quase nula a DOUTRINA e reduzida padronização de PROCEDIMENTOS regulamentares, a breve prazo se concretizou um importante desenvolvimento, conseguindo-se, nos sistemas implementados, que os RECURSOS ESCASSOS fossem usados com o máximo rendimento e as UNIDADES, de uma maneira geral sentiam confiança no apoio logístico que lhes era prestado.

4. Para aquilatar da tarefa basta enumerar as Unidades, Subunidades e Destacamentos que foram enviados para Angola de Abril até ao fim do ano de 1961 (Fig 2):

  • 21 Batalhões de Caçadores (Comando, Companhia de Comando e Serviços                    Companhias de Caçadores);
  •   2 Comandos de Batalhão (Comando e CCS);
  •   6 Companhias de Caçadores;
  •   1 Grupo de Artilharia;
  •   9 Companhias de Artilharia;
  •   1 Batalhão de Cavalaria;
  •   2 Companhias de Policia Militar;
  •   3 Companhias de Sapadores;
  •   1 Companhia de Construção;
  •   1 Companhia de Automacas;
  •   2 Companhias de Transportes;
  •   6 Destacamentos de Intendência;
  • 13 Destacamentos de Manutenção Militar;
  •   3 Destacamentos de Inspecção de Alimentos;
  •   7 Depósitos Avançados de Víveres.

5. Ao ultimar este capítulo não deixarei de referir mais três pontos:

– Não devemos esquecer o Estado da Índia que começou a ser atacado em 1954 e em 1960 a situação estava estabilizada, de tal forma que a Índia, para conseguir o seu objectivo de a integrar no seu território, teve de montar um grande dispositivo operacional e usar meios próprios de uma guerra convencional;

– Não seria justo deixar de referir os trabalhos levados a cabo pela ZI (a Metrópole), reunindo e enviando os meios necessários para, com oportunidade, apoiar as tropas enviadas para Angola, pois os meios chegaram à frente de combate e as unidades e subunidades foram rendidas ao fim de dois anos que era o tempo da comissão de serviço.

– Repetir, agora e sempre, que o TO de Angola foi o pioneiro na implantação do sistema logístico e os outros TO aproveitaram os ensinamentos para, com a necessária adaptação, os aplicarem.

III — Os Princípios, a Estrutura e a Doutrina

1. Os princípios logísticos que orientaram a acção da Logística consistiram na aplicação dos que eram seguidos e estudados para aplicar na guerra convencional, ainda que devidamente adaptados (certamente que não se falava em Divisões e Corpos de Exército, mas nas PU, desde o Batalhão ao Destacamento). Por isso eles aqui se enunciam:

Princípios (Fig 3)

– Subordinação à Manobra Operacional;

– Unidade de comando;

– Simplicidade;

– Precisão;

– Economia;

– Flexibilidade.

2. No começo da segunda metade do século passado foi introduzida, na doutrina logística portuguesa, o conceito de «FUNÇÃO LOGÍSTICA» que substituía a de «Serviços», mas seria esta que viria a ser aplicada, permanecendo ao longo de toda a guerra. Refira-se, contudo, que algumas funções coincidiam com os Serviços (p.e. «função» transporte e «Serviço de Transportes»).

As Funções Logísticas tinham a seguinte designação:

– função ABASTECIMENTO;

– função EVACUAÇÃO/HOSPITALIZAÇÃO;

– função TRANSPORTE;

– função SERVIÇO TÉCNICO;

– função DIRECÇÃO LOGÍSTICA.

3. A actuação dos Serviços resultava de um planeamento centralizado e de execução descentralizada e orientava-se por (Fig 4):

– fazer coincidir, na medida do possível, os limites logísticos com os limites tácticos;

– estreitar a ligação entre os comandantes tácticos e os comandantes logísticos, de forma a obter uma manobra táctica e logística, perfeitamente integrada;

– distribuir os abastecimentos directamente às unidades;

– dotar as unidades do máximo de autonomia logística para fazer face às possíveis interrupções da cadeia de reabastecimento, ou seja uma razoável constituição de reservas.

IV — Caracterização Logística dos Três TO

1. Podem, sintetizar-se da seguinte forma, os três TO, no que respeita ao apoio logístico às forças terrestres, em resultado das respectivas características:

2. O TO da Guiné tinha a sua base Logística em BISSAU e os abastecimentos eram levados à frente principalmente por meios marítimos e por avião militar os mais perecíveis e urgentes e como, por exemplo, a evacuação e o correio (Fig 5).

As características principais do dispositivo Logístico eram:

– centralização de todo o apoio em Bissau, em consequência da pequena extensão da Província e ausência quase completa de recursos no interior;

– apoio de área, pelo que toda a Guiné é transformada numa só área de apoio, com a sua base em Bissau, que é a porta de entrada de todos os abastecimentos destinados ao TO;

– dependência total da Zona do Interior, a 3.200 Km da Zona de Operações;

– planeamento, cuidado e rigoroso tendo em atenção, além das necessidades de apoio logístico das tropas, as possíveis intermitências nos meios de transporte marítimo no sentido Metrópole-Guiné e a insuficiência dos transportes disponíveis em Bissau para apoio às unidades, tudo agravado pela acção do inimigo sobre as vias de comunicação terrestres e fluviais;

– estabelecimento de níveis elevados quer na Base, quer nas unidades, o que é uma consequência natural do que antes se disse;

– rede de frio extensa e o mais eficiente possível para fazer face às condições climatéricas e à inexistência de frescos por exploração de recursos locais;

– apoio ao desenvolvimento sócio-económico das populações e ao seu reordenamento, que muitas vezes constituiu tarefa de primeira prioridade para o transporte de materiais e reabastecimentos em prejuízo das necessidades operacionais e logísticas das tropas;

– importância das vias fluviais no transporte logístico, através das quais se processavam cerca de 70% dos transportes realizados no TO.

3. A organização do apoio Logístico do TO de Angola é, no inicio, fortemente influenciada pelo desconhecido o que conduziu a que os meios de apoio avançassem de qualquer maneira, passando para segundo plano a organização e o controlo desses meios. Mas, apesar disso, essa organização, estrutura e funcionamento rapidamente foram implementados, apoiados numa doutrina que houve que estabelecer.

Os factores que influenciaram a organização do apoio logístico na Região Militar de Angola foram:

– necessidade de descentralização a apoio por áreas;

– dispersão dos órgãos logísticos, e a sua consequente vulnerabilidade;

– importância da exploração dos recursos locais;

– utilização da via aérea para a evacuação de indisponíveis;

– órgãos de manutenção do material o mais à frente possível;

– necessidade de um planeamento atempado, dada a distância enorme das fontes de abastecimento ao TO e a escassez de recursos locais e, consequentemente, a manutenção de níveis elevados nos órgãos de apoio logístico (Fig 6).

4. O TO de Moçambique era o mais excêntrico em relação à Zona do Interior e tinha uma configuração geográfica e insuficiência de estruturas económicas que maiores dificuldades ofereciam ao apoio logístico.

5. Os principais factores inerentes aos meios geográficos e económicos eram;

– configuração geográfica com grande desenvolvimento em latitude;

– grandes distâncias a percorrer e escassez de vias de comunicação terrestres, tudo agravado pela difícil transitabilidade do terreno em extensas áreas, mormente durante a época das chuvas;

– as poucas vias de comunicação terrestre com interesse logístico eram penetrantes; os rios constituíam sérios obstáculos aos movimentos na direcção norte-sul, acrescendo ainda o facto de serem quase inexistentes as obras de arte sobre esses rios;

– grande dependência da actividade das vias marítimas e aéreas;

– fracos recursos económicos;

– as fontes de apoio logístico, situadas em posição exterior ao TO ou, quando no seu interior, com duas áreas restritas, muito afastadas das zonas de combate: Beira e Lourenço Marques; esta última cidade e porto de mar, a mais importante, situa-se em posição de máxima excentricidade em relação à área de combate (1 800 Km ao Rio Rovuma);

– carência de infra-estruturas civis, sanitárias, comerciais, industriais e de transportes, em quantidade e qualidade suficientes, que permitissem apoio eficaz à acção militar; de um modo geral, essa falta era quase total nas áreas de maior actividade militar, no extremo norte do TO.

6. Condicionamentos estruturais

A excentricidade da capital do território (Lourenço Marques) conjugada com as enormes dificuldades para o transporte terrestre (agravadas no tempo das chuvas) e ainda o facto de a guerra ter começado no extremo oposto da capital foram determinantes no sistema de apoio logístico até porque a ZI (Metrópole) só «conhecia» uma base logística que era Lourenço Marques para onde encaminhava a totalidade dos abastecimentos. E como fazê-los chegar às tropas em operações? E foi com alguma dificuldade que se conseguiu que fossem reconhecidas outras «entradas» no TO (Beira, Nacala, Porto Amélia).

Aqui, também exercia influência negativa a localização do QG, que só com alguma persistência e determinação, se foi deslocando para Nampula (a distância desta a Lourenço Marques é idêntica à de Lisboa a Nice!) (Fig7).

7. Resta, por último, acrescentar que para todos os TO, foi decretado que os abastecimentos teriam de ser todos adquiridos localmente ou na Metrópole. Tal trazia graves consequências para Lourenço Marques, que podia obter muitos abastecimentos na vizinha África do Sul.

V — As Fases do Apoio Logístico a Moçambique

1. O apoio logístico em Moçambique evoluiu de maneira a poderem identificar­-se três fases distintas (Fig 8):

 uma primeira fase, que se estende até meados de 1964, que cobre o tempo de paz e a pré-insurreição, caracteriza-se por uma base logística em LMARQUES e incipiente organização logística;

– a segunda fase vai desde o início das operações militares activas até finais dos anos sessenta, com uma base logística que, progressivamente, se desloca de LMARQUES para NAMPULA e organização logística bastante mais desenvolvida no terreno, especialmente no Norte do território;

– a terceira fase começa a concretizar-se em 1970, consolidando-se nos anos subsequentes, quando NAMPULA se assume, por completo, na conduta de todas as operações logísticas e o território é coberto por um dispositivo logístico coerente e perfeitamente ajustado às realidades operacionais.

2. De seguida se aprofundarão as características dominantes de cada uma das fases, relacionando-as com o que antes se referiu quanto à caracterização na óptica dos interesses da logística.

1.ª Fase – O Apoio Logístico até meados de 1964

A Direcção logística (4.ª Repartição e alguns Comandos e Chefias) situava-se somente em LMarques, onde também se encontravam os principais órgãos de execução.

Destes, os que existiam nos três Comandos Territoriais (Norte, Centro e Sul, com sede, respectivamente, em Nampula, Beira e LMarques) eram em reduzido número e poucos os órgãos que ficavam fora das respectivas sedes.

Os efectivos totais no território, naquela data, pouco ultrapassavam os 14 000 homens, um terço dos quais pertencente à guarnição normal.

Neste período não havia acções militares pelo que se poderia ter implementado um dispositivo logístico. Mas é evidente que existindo outros dois TO onde havia operações militares activas eles teriam, naturalmente, toda a prioridade. De tal modo assim era que um ano depois (em Maio de 1964) o dispositivo logístico permanecia sensivelmente o mesmo, tendo somente sido organizado o Agrupamento do Serviço de Material, com o seu Comando, a Companhia de Comando e Serviços e a Companhia de Recuperação em LMarques e uma Companhia de Apoio Directo na Beira e outra em Nampula (Fig 9).

2.ª Fase – O Apoio Logístico de 1964 a finais dos Anos Sessenta

A partir de finais de 1964 e no decurso do ano seguinte instalou-se em Moçambique um dispositivo logístico ainda pouco expressivo, mas já com algum desenvolvimento quando comparado com o que antes existia. Como é natural o maior incremento verificou-se na região de Cabo Delgado e em Nampula. Porém, a direcção logística mantêm-se em LMarques, onde são criados os Comandos das Armas e as Chefias dos Serviços.

O estudo da evolução do dispositivo logístico revela que a instalação de novos órgãos logísticos se faz a grande ritmo no Norte do território, na Beira mas muito pouco em Tete. Em Junho de 1967 a direcção logística inicia o seu deslocamento para o Norte, instalando Chefias Avançadas dos Serviços em Nampula. Era a materialização do reconhecimento da necessidade de estar mais perto das tropas em operações para melhor as poder apoiar. Porém, estas Chefias tinham reduzida autoridade, porquanto agiam sob direcção completa dos escalões recuados e principais, que se mantinham em LMarques. Só em 1969 o escalão principal das Chefias (Fig 10) se instala em Nampula, invertendo-se a situação, porque em LMarques ficaram os escalões recuados. A 4.ª Repartição do QG, em termos de localização, teve uma evolução semelhante à das Chefias.

Os transportes, cuja execução era controlada pela 4.ª Rep/QG, continuaram a ser accionados em LMarques até porque era onde havia ligação rádio a Lisboa, o que não acontecia em Nampula.

Os materiais e os equipamentos continuavam a ser encaminhados para LMarques, quando o destino da maior parte deles era o Norte. Com este procedimento criavam-se gravíssimos problemas, porque o seu posterior encaminhamento para o Norte era muito difícil e, na época das chuvas, quase impraticável por via terrestre ao que acresce que as embarcações de cabotagem eram poucas e incapazes de transportar alguns tipos de viaturas, por exemplo.

Ocorria então a situação inaceitável de existirem viaturas em LMarques e não se poderem transportar para o Norte, onde a carência era extrema. Para ultrapassar as dificuldades foram levadas a cabo duas tentativas na época das chuvas de 1969, uma que resultou num desastre de terríveis consequências e outra que se concluiu com sucesso, mas ao fim de uma marcha de quase um mês.

Para a primeira operação foi planeada e organizada uma coluna, no mês de Junho, com viaturas do tipo «Unimog» que tentou a travessia do Zambeze na zona de Mopeia.

A zona de travessia era a normal e o modo habitual consistia na utilização de duas jangadas muito precárias.

Na circunstância, a jangada de maior capacidade estava imobilizada aguardando reparação do motor com conclusão prevista para o dia seguinte ao da chegada da coluna. Em consequência, o comandante da coluna decidiu a instalação nas margens do rio, a aguardar. No dia seguinte fez-se o carregamento das viaturas e do pessoal que nelas foi instalado, por carência de espaço. Quando a travessia ia sensivelmente a meio a água começou a entrar nos botes que suportavam a jangada que, em menos de um minuto, se afundou numa zona de cerca de dez metros de profundidade. Perderam-se as viaturas e 96 dos cerca de cento e trinta homens transportados.

Aproximadamente três meses após o desastre é preparada a segunda operação, uma coluna «especial» integrando somente viaturas.

A «especialidade» resultava do percurso que iria percorrer: saindo de LMarques incluía a entrada na República da África do Sul, pela Vila Ressano Garcia, atravessar em direcção à Rodésia e, depois de ultrapassar Tete, seguiu pelo Malawi, entrando novamente em Moçambique, pela região de Nova Freixo rumo a Nampula.

A «operação» foi um sucesso, mas exigindo cuidados muito especiais como seja contactos com as autoridades dos países' atravessados, alteração das matrículas das viaturas, condutores trajando civilmente, ausência de rastos, etc.

Tudo o que precede demonstra, com suficiente evidência, que a logística da RMM nos finais dos anos sessenta e, em consequência, toda a actividade operacional, estava grandemente dependente do sistema de transportes. A deficiência de que enfermava determinava que:

– o pessoal e o material não chegavam em tempo oportuno ao seu destino;

– o pessoal aguardava, por largos períodos, possibilidade de transporte e, em certos casos, ainda corria graves riscos, decorrentes do mesmo transporte;

– deteriorava-se, perdia-se ou desaparecia muito material.

3.ª Fase – O Apoio Logístico a partir de 1970 (Fig. 11)

A chegada de um novo Comandante Militar a Moçambique em meados do ano de 1969 deu origem à revisão do estudo da situação logística e busca de soluções para os problemas existentes. A identificação dos problemas era relativamente fácil – o primeiro dos quais eram os transportes obviamente – mas a concretização das alterações era bem mais difícil, pelos custos financeiros e pelo tempo necessário.

A ponderação dos condicionamentos já antes identificados determinaram que a estrutura logística da RMM fosse reorganizada tendo em atenção três vectores fundamentais (Fig. 12):

– Estabelecer, face às determinantes geográficas e socio-económicas, áreas logísticas bem definidas, com vista à obtenção, nestas, de um certo grau de automatismo e independência na recepção dos recursos, quer locais quer recebidos do exterior;

– Deslocar para Norte todos os órgãos de direcção logística e, progressivamente e com a necessária segurança, as infra-estruturas militares de apoio de base, isto para aproximar os meios em relação às tropas e para estimular e desenvolver as estruturas civis nas áreas de maior interesse militar;

– Melhorar a eficiência dos sistemas de transportes, individualizando este Serviço e dando-lhe condições para um maior recurso aos meios civis, em ordem a libertar os meios militares para as actividades mais directamente relacionadas com as acções de combate.

VI — Áreas Logísticas. Complexos logísticos

1. «ÁREA LOGÍSTICA» – A porção de território, conjunto de unidades e órgãos que, para efeitos de «vida logística», nomeadamente quanto à recepção e evacuação de pessoal e de abastecimentos, capacidade de armazenagem e possibilidade de obtenção de recursos locais dependem da mesma origem geográfica (Fig. 13)

2. O conceito, embora subordinado ao dispositivo operacional, era mais directamente relacionado com as origens geográficas dos abastecimentos e com as possibilidades de irradiação dos sistemas de transporte do que com o volume dos efectivos apoiados. A definição teve em particular atenção:

– Possibilidade de receberem directamente do território ou da zona do interior os abastecimentos e de os encaminharem rapidamente, bem como ao pessoal, para as áreas de destino final;

– Possibilidade de obtenção ou de fomento dos recursos locais;

– Capacidade de armazenagem, na origem e nos pontos de destino intermédio, ou fácil desenvolvimento destas capacidades;

– Importância das operações militares em certas áreas de esforço.

3. Em consequência, foram definidas quatro Áreas Logísticas, a saber (Fig. 14):

– a PRIMEIRA, com sede em LMarques e abrangendo os distritos de LMarques, Gaza e Inhambane, caracterizava-se pela possibilidade de obtenção de recursos locais diversificados e pela existência de depósitos de base e de equipamento sanitário, oficinal e de transportes com certo desenvolvimento.

Do ponto de vista operacional coincidia com o Comando Territorial do Sul.

– a SEGUNDA, com origem na Beira e compreendendo o próprio distrito da Beira e os de Vila Pery e Tete, caracterizada pela possibilidade de dispor de recursos locais de certo interesse, pela existência de algum apoio oficinal e sanitário e, essencialmente, pelas boas ligações ferroviárias com Tete.

Coincidente com o Comando Territorial do Centro e o Sector Operacional F.

– a TERCEIRA tinha a sua origem no conjunto NAMPULA-NACALA e abrangia os distritos de Moçambique, da Zambézia e do Niassa. Próxima dos órgãos de decisão, o seu desenvolvimento local tinha algum potencial, com relações de proximidade das zonas de esforço militar, dispondo ainda de uma importante transversal ferroviária, entre Nacala e Vila Cabral.

Coincidia, do ponto de vista operacional, com o Sector B.

– a QUARTA, abrangia o distrito de Cabo Delgado e tinha a sua origem em Porto Amélia. A caracterização era essencialmente militar, e daí que fosse basicamente receptora de recursos: grande volume de efectivos e importância das operações militares ali em curso.

Em cada uma daquelas áreas existiam órgãos de apoio de todos os Serviços, o que lhes conferia efectivamente maior capacidade de reacção (recebendo directamente e não através de LMarques os meios vindos do exterior) e tornava possível a transferência dos abastecimentos e do pessoal dentro do TO.

4. Para atender às necessidades de armazenagem, na base de economia de instalações e de pessoal, definiram-se áreas para o desenvolvimento de verdadeiros COMPLEXOS LOGÍSTICOS, não somente nas origens como nalguns pontos de destino intermédio. Aí se criaram áreas cobertas em função dos abastecimentos a reter ou a movimentar e edifícios comuns para as actividades que o permitiam, nomeadamente as instalações para o pessoal e, dum modo geral, para a vida administrativa e a segurança do complexo.

5. Nas áreas logísticas existiam:

Pontos de primeiro destino, que eram as origens das áreas logísticas;

Pontos de destino final (ou de emprego, consumo e utilização). Eram as localidades onde se situavam as sedes das unidades (para a grande maioria do pessoal e do material) e as das subunidades para determinado pessoal, material crítico frágil, frescos e correio.

Pontos de destino intermédio, entre os pontos de primeiro destino e os de destino final, por onde o pessoal e o material terá de circular, especialmente quando as áreas de emprego, consumo e utilização se encontram afastadas dos primeiros.

6. Do estabelecimento das áreas logísticas resultou a definição do tipo de «apoio de área», que se caracterizava por:

– todos os órgãos logísticos pertencerem à RM e não às unidades em cuja área estivessem fisicamente implantados;

– a missão desses órgãos logísticos era sempre de apoio e não de reforço, sendo o apoio prestado a todas as unidades e subunidades que, permanente ou temporariamente, estivessem instaladas na área.

VII — Outros elementos doutrinários

1. A execução logística era descentralizada, mas a recolha de dados e o planeamento eram centralizados. Os princípios logísticos definidos incluíam ainda as seguintes preocupações:

– fazer coincidir, na medida do possível, os limites logísticos com os limites tácticos;

– estreitar a ligação entre os comandantes tácticos e os comandantes logísticos, de forma a obter uma perfeita integração da manobra, táctica e logística;

– distribuir os abastecimentos directamente às unidades;

– dotar as unidades do máximo de autonomia logística para fazer face às possíveis interrupções da cadeia de reabastecimento, ou seja, a constituição de adequadas reservas.

2. O relacionamento entre os comandantes logísticos e tácticos, em cada nível, obedecia às seguintes regras (Fig. 15):

– todos os comandantes de unidades e formações dos Serviços estavam subordinados, operacional e logísticamente, qualquer que fosse a dependência e localização, ao Comando da Região Militar, através do respectivo Comandante da Arma (Engenharia e Transmissões) ou Chefe do Serviço;

– os Comandantes Operacionais não podiam, salvo em situações de emergência, dispor do pessoal ou do material dos órgãos dos serviços, sem prévia autorização do Comando da Região Militar;

– a responsabilidade pela defesa imediata era dos próprios órgãos e a próxima cabia às unidades operacionais mais próximas;

– obrigatoriedade de ligação mútua entre os comandantes tácticos e logísticos, dentro da mesma área de actuação;

– existência de dois canais de comando de responsabilidades diferenciadas: o canal de comando que se estendia do Comando da RM (QG/4.ª Rep), pelo comando de sector ou territorial, comandos de batalhão e de companhia; o canal técnico era próprio do Serviço e estendia-se do respectivo Comando/Chefia até aos elementos de cada um deles que organicamente eram da própria unidade ou subunidade.

Deslocamento para Norte de direcção logística, dos órgãos de apoio de base e cooperação civil.

3. Apenas no princípio de 1970 os órgãos de direcção logística – Repartição do QG, Comandos e Chefias – ficaram completamente instalados em Nampula e sem escalão recuado. As eventuais funções deste passaram para o Comando Territorial do Sul. Com raras excepções – p.e. a Manutenção Militar – o mesmo sucedeu com os órgãos logísticos de base.

4. Um aspecto muito saliente da reorganização foi o grande desenvolvimento das relações civis militares, particularmente nas áreas: do apoio sanitário, do apoio de manutenção e de transportes. Quanto ao apoio sanitário foram celebrados acordos de colaboração mútua com os hospitais civis; idêntico procedimento com empresas civis para o apoio de manutenção sobretudo auto. Quanto à colaboração no âmbito dos transportes ela será evidente quando, de seguida tratarmos a solução dos transportes militares.

VIII — Sistema de Transportes (Fig. 16)

1. Um dos objectivos que foi alcançado consistiu em que o pessoal e o material enviados da ZI não ficassem somente em LMarques, mas que fosse desembarcado e descarregado o mais próximo possível das áreas de destino ou de emprego, ou seja na Beira, Nacala/Nampula, Porto Amélia e Mocímboa da Praia.

2. Decorrente da imperiosa necessidade de instalar o Serviço de Transportes, retirando à 4.ª Rep o planeamento e o controlo da sua execução, o Comando da RM decidiu atribuir a missão a um dos Batalhões de reforço, que foi desmembrado para guarnecer os órgãos do Serviço criados.

3. A estrutura dos meios de transporte disponíveis, militares e civis passíveis de utilização mediante contrato, articulava-se em três sistemas:

– Sistema Primário, ligando as origens das áreas logísticas, dotado de meios de transporte pesados: um navio do Comando naval, navios fretados para o transporte de tropas, aviões civis fretados e, acidentalmente, navios comerciais de longo curso em trânsito e meios de cabotagem.

– Sistema Secundário, partindo das origens das áreas logísticas até aos pontos de destino intermédio (regra geral os Comandos de Sector), onde existiam os complexos logísticos secundários, explorando os seguintes meios: rede ferroviária, aviões civis fretados mais ligeiros que os anteriores, aviões de transporte médio da Força Aérea, em pequena escala, meios rodoviários de grande capacidade de transporte, militares e civis fretados, em alguns percursos.

– Sistema Terciário, ligando os pontos de destino intermédio com os locais de utilização final, dotado de meios mais ligeiros: lanchas de desembarque do Comando Naval, meios de transporte das Secções de Transporte Auto, entretanto constituídas, e aviões ligeiros, civis fretados ou da Força Aérea, mas estes em muito pequena escala pelo seu envolvimento operacional prioritário.

4. O sistema de transportes assim constituído permitia:

– que o pessoal e o material chegassem em tempo oportuno aos seus destinos;

– fosse eliminado o considerável período de espera de embarque e de carga;

– aumentasse a segurança, eliminando riscos;

– diminuísse significativamente a deterioração do material, eliminando a sua perda ou desaparecimento;

– se verificasse mais rápido aproveitamento dos meios e se evitasse a sua dissipação, conduzindo a encargos financeiros directos da mesma ordem de grandeza, ou seja, permitisse economia de meios com idêntica eficiência de resultados;

– se libertassem os meios aéreos militares que bem necessários eram para fins operacionais.

O novo dispositivo logístico estava totalmente implantado em Agosto de 1970.

IX — Conclusões

a. No início do conflito não existia DOUTRINA sobre ORGANIZAÇÃO e ESTRUTURA do SISTEMA LOGÍSTICO na contra-subversão. Porém, tinha-se entretanto firmado uma doutrina logística para guerra convencional, que seguia de perto a doutrina americana, alicerçada na experiência da II Guerra Mundial.

b. Em qualquer dos TO a estrutura logística territorial existente, à data do início das operações, era muito reduzida. No entanto foi-se expandindo, para responder às necessidades crescentes, de forma equilibrada, oportuna e com eficácia, para que as unidades operacionais confiassem no apoio logístico que lhes era prestado.

c. O Estado-Maior, geral e técnico, do primeiro TO a ser activado – a RMA – foi pioneiro no estabelecimento da doutrina, organização e estrutura do Sistema Logístico na contra-subversão.

d. Nos sistemas logísticos implantados nos três TO a DOUTRINA, a ESTRUTURA e os procedimentos implementados fizeram com que, com LIMITADOS RECURSOS obtivessem o máximo rendimento e as UNIDADES sentissem confiança no apoio logístico que lhes era proporcionado.

e. O desenvolvimento do apoio logístico em Moçambique, nas décadas de 60 e 70, constitui um exemplo claro e expressivo da evolução da organização e da doutrina logística de apoio às operações militares em guerra subversiva, porque partindo de uma situação de apoio muito incipiente evoluiu para uma solução final em que tudo foi concebido e apoiado num adequado sistema de transportes.

f. A organização logística na década de sessenta era totalmente condicionada pela ausência de um sistema de transportes minimamente fiável.

Também a influenciavam negativamente o facto de a direcção logística se situar excêntrica em relação à área das operações e existir grande resistência à sua transferência de LMarques para Nampula.

g. O sistema de transportes implantado no decorrer de 1970 foi decidido tomando por base os novos conceitos de «áreas logísticas» e apoiado na existência de três componentes principais: os transportes primários, os secundários e os terciários.

h. A direcção e a execução logística respeitavam os princípios próprios da logística, com especial relevo para o da subordinação à manobra operacional, a flexibilidade e a simplicidade.

i. Não obstante as grandes dificuldades e as carências de toda a ordem, as manobras operacionais foram sempre apoiadas do ponto de vista da logística. As tropas tinham confiança e acreditavam no apoio logístico, sinal claro de que este cumpria a sua missão.

j. Finalmente, importa referir que os elementos doutrinários logísticos sobre o apoio aos teatros de operações nunca, até hoje, foram compendiados, mantendo-se dispersos nas excelentes «NORMAS DE EXECUÇÃO PERMANENTE», produzidas pelas Quartas Repartições e pelos Serviços Logísticos e nunca exploradas com essa finalidade.


ANEXOS

Figura   1 – Definição de Logística
Figura   2 – Batalhões e Subunidades até finais de 1961
Figura   3 – Princípios Logísticos
Figura   4 – Actuação dos Serviços
Figura   5 – Mapa da Guiné
Figura   6 – Mapa da Angola
Figura   7 – Distâncias em círculo de Moçambique
Figura   8 – Fases do Apoio Logístico
Figura   9 – Dispositivo Logístico em 01Jul65
Figura 10 – Dispositivo Logístico em 22Jun67
Figura 11 – Dispositivo Logístico em 02Mar70
Figura 12 – Vectores fundamentais da reorganização
Figura 13 – Definição de Área Logística
Figura 14 – As quatro áreas Logísticas
Figura 15 – Comandantes Logísticos vs Comandantes Tácticos
Figura 16 – Sistema de Transportes

____________

* Contém alguns extractos de trabalhos realizados pelo autor, sobre o assunto. Como elemento de apoio, de referir também os «Subsídios para o Estudo da Doutrina Aplicada nas Campanhas de África (1961-1974)».

** Vogal da Direcção da Revista Militar.






quarta-feira, 13 de abril de 2016


O desastroso ministro da Defesa


— Texto do general Ricardo Durão,

subscrito por outros oficiais.


Reflexões

Ricardo Durão – general do Exército, 9 de Abril de 2016

Em 8 de Abril de 2016 foi continuadamente noticiado e fui bombardeado pela SIC/NOTÍCIAS durante todo o dia, não sei se continuarei a sê-lo nos próximos dias.

Trata-se da notícia dizer respeito a um certo procedimento de ordem sexual que se terá passado no Colégio Militar.

Como de costume, como envolve um assunto de ordem militar, tudo é aproveitado para noticiar habilidosa e tendenciosamente a fim de menosprezar a Instituição Militar.

Pronunciaram-se diversas asneiras, contradições e até por parte de alguns ditos representantes militares que como vem sendo habitual, dão frequentemente ajuda às imprecisões e até dislates usuais que surgem na Comunicação Social, proferindo razões disparatadas e que em nada abonam a sua respectiva condição militar. Sobretudo a ocorrência dá origem a que seja questionada de forma caracterizada por absoluta falta de senso.

O subdirector do Colégio Militar em justificação do facto afirmou:

«Na situação de afectos entre alunos homossexuais não se pode fazer transferência de escola. A situação é contada aos encarregados de educação para que percebam que o filho acabou de perder espaço de convivência interna e a partir daí vai ter grandes dificuldades de relacionamento com os pares. Porque é o que se verifica. São excluídos.»

Pode haver outros estilos literários para esta afirmação, no entanto é correcta e a pura realidade.

O director do Colégio Militar, sobre este caso, afirmou:

«Estas situações devem ser tratadas com os pais, ainda assim garanto que ninguém é expulso por ser homossexual.»

Correcto. Os pais, a não ser que sejam absolutamente insensatos, compreenderão que o melhor para o seu filho será a sua transferência para outra escola, outro ambiente e consequentemente novas circunstâncias.

O ministro da Defesa, achou por bem pronunciar-se sobre esta questão e afirmou:

«O Ministério da Defesa Nacional considera absolutamente inaceitável qualquer descriminação, seja por questões de orientação sexual ou quaisquer outras, conforme determina a Constituição e a Lei.»

Lamentável, revela absoluta falta de senso, absoluta insensibilidade quanto à condição militar, sua especificidade e circunstância. Nenhuma noção do que consiste um internato escolar de carácter militar ou não. Confunde «ser ou não ser» com procedimentos inadequados passíveis de correcção, sejam de carácter homo ou heterossexual.

Refere-se a «quaisquer outras descriminações»; sabe com certeza que o ingresso na estrutura militar, incluindo nos respectivos estabelecimentos de ensino, é sujeito a apreciação da aptidão física, intelectual e observação de alguma deficiência. Será isto descriminação? No entanto, não existe nenhuma indagação no que respeita a orientação sexual, o que não implica que não sejam exigíveis determinados comportamentos de diversa espécie incluindo os de carácter homo ou heterossexual.

É admissível que um militar numa instalação militar se «envolva na marmelada» com um camarada ou uma camarada, dado que já existem mulheres militares. Deve achar, por certo, que é constitucional ou legal que um militar contraia casamento com outro do mesmo sexo (p.exemplo: um general casar com um cabo, ou que isto aconteça com outras patentes).

As afirmações do ministro da Defesa Nacional constituem o lançamento de um bidon de gasolina sobre uma fogueira de pouca importância.

Como será o futuro? Alguns passarão a desfilar de mãos dadas, em manifestação expressiva do respectivo «orgulho gay»? Como pretende, o ministro da Defesa Nacional, gerir as Forças Armadas?

Quanto à forma tendenciosa como foi difundida a notícia, pretende-se fazer crer que o Chefe do Estado-Maior do Exército pediu a demissão devido às afirmações do subdirector do Colégio Militar.

Puro disparate, se assim fosse e delas discordasse teria repreendido ou mesmo punido o respectivo subordinado. Nunca se teria demitido.

É óbvio que a causa da sua demissão, é a posição tomada pelo ministro da Defesa Nacional. O que afirmo é confirmado pela posterior afirmação do Chefe do Estado Maior na sua comunicação aos seus subordinados:

«Actuei em defesa dos princípios da ética e da honra, bem como no cumprimento de deveres militares como os de tutela e responsabilidade. Os homens e mulheres que servem Portugal no Exército continuam a ser formados e a acreditar nos valores que distinguem a profissão militar. Pelo que deve assumir a defesa intransigente desses valores e dos deveres que lhe estão associados.»

Felicito a decisão tomada pelo Chefe do Estado-Maior, como felicitarei os generais que recusem a nomeação para o substituir, enquanto for mantido em funções o actual ministro. É simples, é só mais uma substituição que contribuirá para a melhoria do elenco governamental.

Não percebo bem qual a intenção da notícia terminar com a afirmação de que o general «caiu depois de uma polémica com um dos três tabus do Colégio Militar, drogas, roubos e homossexualidade.» Será elogio ou depreciação do Colégio Militar? Se for depreciação, parece elogio.

Que mais irá acontecer no Colégio Militar após a sua descaracterização realizada pelo anterior ministro da Defesa, que estupidamente fechou o Instituto de Odivelas e colocou a «acha ao pé do lume». Será o único responsável por qualquer incidente que venha a suceder…

Li esta reflexão e subscrevo-a na íntegra.


Assinam:

Altino de Magalhães – general do Exército
Abílio Joaquim Patinho – coronel da F.A.
Joaquim Macias Vilão – coronel do Exército
Ramiro Alves Correia Oliveira – coronel do Exército
José Joaquim de Magalhães Pequito – coronel do Exército






General Pires Veloso – Democrata e Patriota


O Presidente da Câmara Municipal do Porto, o Comandante do Pessoal do Exército, a Comissão Promotora da Homenagem ao General Pires Veloso e a Âncora Editora têm o prazer de convidar V.Exa. para o lançamento do livro

General Pires Veloso – Democrata e Patriota


 A obra será apresentada pelo Prof. Dr. Adriano Vasco Rodrigues.
A sessão terá lugar no próximo dia 21 de Abril, pelas 18:30 horas,
no Salão Nobre do Quartel de Santo Ovídio, Praça da República, Porto.

Estacionamento gratuito no interior do Quartel, com entrada pelo Portão Norte, junto à Igreja da Lapa.





terça-feira, 12 de abril de 2016


A demissão do general

Comandante do Exército Português


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

A coisa conta-se em poucas palavras:

O subdirector do Colégio Militar (CM) – instituição das mais antigas e prestigiadas do país, com provas dadas e obra feita – deu uma entrevista a um órgão de comunicação social, na passada semana.

Nessa entrevista teceu considerações sobre como os casos de homossexualidade detectados no colégio – cujo corpo de alunos é formado, lembra-se, por menores e onde existe internato – são tratados, diria, que desde sempre.

O tenente-coronel – ele próprio, um ex-aluno – nada de grave exprimiu que pudesse pôr em causa a lei ou a moral pública; não faltou à verdade, nem revelou falta de senso ou defendeu qualquer ideia que possa ser interpretada como discriminatória. Tão pouco, ao que se sabe, incorreu em qualquer falta disciplinar.

Porém, logo que a entrevista viu a luz do dia, os tiranetes de serviço de uma área do politicamente correcto, mais as diferentes «antenas» dos abichanados do «lobby gay» (na versão «internacionalista soft», mas com tradução apropriada em vernáculo lusitano), logo gritaram em suas «cloacas máximas», aqui d’el-rei, que há discriminação de género no Colégio Militar.[1]

O senhor ministro da Defesa do alto da sua guarita, sita no Restelo onde, sempre vigilante, é suposto defender a Pátria, dando conta do alarido (que parte da comunicação social ampliou injustificadamente), mandou recado para o general Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) para que o tenente-coronel, no dia «x» à hora «y», já estar removido da sua função (parece que, por enquanto, ainda não o condenou às galés…).

E é esta a razão que, aparentemente, leva o general Jerónimo – que sempre foi um bom militar e sobre quem não impende qualquer mácula – a apresentar a sua demissão. Demissão que também é fruto, seguramente, de um acumular de situações muito pouco apropriadas, de como os sucessivos governos e não só, têm tratado a Instituição Militar e os militares.

Foi uma espécie de «basta»!

Mas uma demissão destas carece de alguma explicação pública. Não só porque políticos que se comportam desta maneira não merecem qualquer respeito e não se devem poder ficar a rir, e porque as Forças Armadas necessitam ser desagravadas e a opinião pública deve saber, por quem de direito, o que na realidade se passou.

E ir ao Parlamento pode ser uma boa oportunidade para lhes esfregar com umas quantas verdades na cara!

Tudo o que se tem passado revela o nulo cuidado com que os sucessivos primeiros-ministros e PR, têm colocado na nomeação dos personagens que vão tutelar a pasta da Defesa (que na realidade nunca existiu, mas sim e apenas a função de ministro para as Forças Armadas…), pois é inadmissível, que tendo o ministro despacho directo com os Chefes dos Ramos, não fale pessoalmente com o CEME (ou lhe telefone) e lhe envie recados, dando ordens que não estão na sua competência dar, e desrespeitando os regulamentos e a deontologia militar.

Por isso quem devia ser demitido era o ministro – que não sabe o que anda a fazer – e não ter sido aceite a demissão do Comandante do Exército. Aqui o Presidente da República tergiversou.

Convém ainda colocar os pontos nalguns «is»: em primeiro lugar o senhor, por enquanto ministro, tem que perceber que o Exército não funciona propriamente como um Partido Político; e, depois, deve meter na sua cabecinha que as Forças Armadas não têm rigorosamente nada a ver com os equilíbrios políticos, que o seu Partido tem que fazer para se manter à tona de água (isto é, no Poder). E se andam acossados pelo Bloco Canhoto aturem-nos como quiserem, mas não tentem interferir e macular as instituições que são o esteio do país e os seus servidores.[2]

Se o Conselho Superior do Exército se tivesse demitido em bloco e os Chefes dos outros Ramos tivessem mostrado solidariedade, talvez outro galo cantasse.

Mas pelos vistos o que está a dar são as marchas de orgulho «gay». Ainda tenho esperança de lá vir a ver um general, fardado e tudo!

Uma outra razão que, estamos em crer, levou a esta decisão por parte do CEME foi a falta de actuação do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general Pina Monteiro, que terá condescendido com a aberração ministerial, deixando cair o seu subordinado e não se opondo à imolação do subdirector do CM.

Sem embargo não nos devemos admirar: com o anterior MDN, um tal Dr. Aguiar traço Branco, já tinha, enquanto CEME, exonerado o então director do Instituto de Odivelas, por este não estar a ser um zeloso cumpridor da, para sempre maldita, decisão de fechar tão vetusta instituição – que é a raiz recente deste esparvoado caso (a mais antiga é o texto do programa do PS após a sua fundação, em 1973, que defendia a extinção dos colégios militares!) – tendo aquele ministro vetado, mais tarde, a nomeação daquele oficial, que nada cometeu de errado, para um cargo de adido militar, em Madrid (para onde acabou por ir mais tarde).

É por estas e por outras atitudes que roçam o «são as horas que V. Ex.ª quiser que sejam», que os políticos, de um modo geral, perderam o respeito pelas Forças Armadas e pelos militares, e tenham levado, com a complacência e a ignorância de parte da opinião pública e publicada, ao estado de miserabilismo em que se encontram.

E onde tudo está preso por fios.


[1] Embora eu só conheça dois: o masculino e o feminino!

[2] Há poucas semanas o Dr. Azeredo Lopes bolsou um disparate revelador da sua ignorância e intenção: «O IASFA (Instituto de Assistência Social das FAs), não é uma coutada dos militares»…





sexta-feira, 8 de abril de 2016


Uma excelente análise

sobre o «aborto ortográfico»


«Insegurança ortográfica»

«Uma excelente análise, por Acílio Estanqueiro Rocha, Professor Emérito da Universidade do Minho, Departamento de Filosofia, Instituto de Letras e Ciências Humanas, sobre a Insegurança Ortográfica que o AO/90 gerou entre aqueles que aceitaram, sem pestanejar, a imposição ilegal e inconstitucional deste monumental engano

Acílio Estanqueiro Rocha

1 — Já afirmámos que o Acordo Ortográfico veio criar enorme «insegurança ortográfica», onde esta antes não existia; subestimaram-se vários pareceres solicitados que alertavam para isso mesmo. Aliás, no ano passado, o Parlamento recomendou ao Governo a constituição de um grupo de trabalho para acompanhar o processo de aplicação do AO, com elaboração de relatório; que se saiba, nem grupo nem relatório.

Mostrámos já que a obsessão pela unificação ortográfica criou, em vez das duas, três grafias, patente em exemplos simples (portuguesa/brasileira):

aspeto/aspecto,
detetar/detectar,
receção/recepção,
conceção/concepção,
deceção/decepção,
perceção/percepção,
espetador/espectador,
perentório/peremptório,
tática/táctica,
espetro/espectro,
cato/cacto,
perspetiva/perspectiva,
interceção/intercepção, etc.

Assim se pretende que se escreva agora (em Portugal) «aspeto», «conceção», «perspetiva», que antes se escrevia (Portugal e Brasil) «aspecto», «concepção», «perspectiva», e que continua a ser «aspecto», «concepção», «perspectiva» (Brasil).

Não entendo tamanha estultícia! Se eu escrever, por ex., a «receção do texto» em vez de «recepção do texto», como evitar que o leitor não pense em «recessão», se é isso que ouve a toda a hora e sofre no seu vencimento ou pensão? Um brasileiro, ao ler «receção», não entende…

Como sabemos, a aprendizagem da ortografia não se faz só na escola: é um processo quotidiano, multímodo, que envolve a memória visual; escrever «Egito» causa calafrios: é um triste espectáculo, que já não tem espectadores mas «espetadores» (a primeira vez que li, pensei em «espeto»). Aliás, como é sabido, as grandes diferenças que separam as variantes portuguesa e brasileira da língua não são ortográficas, mas são lexicais, semânticas e morfossintácticas.

2 — Sobre as consoantes não pronunciadas, importaria evitar a homografia, por ex., «acto»/«ato» (verbo), «corrector»/«corretor» (da bolsa), «óptico» (relativo à vista)/«ótico» (relativo ao ouvido), sendo que, no Brasil, continua a escrever-se «óptico»; seria também imprescindível evitar a homofonia (por ex., «intersecção» e «intercessão»), como é necessário ainda evitar o fechamento vocálico («acção», «aspecto», «baptismo», «lectivo», etc.). Note-se que o português europeu está a tornar-se, por vezes, dificilmente inteligível na oralidade, dada a tendência para fechar as vogais. Já um linguista advertiu que «adoção» (de «adoptar») poderia conduzir à pronúncia de «adução» (de «aduzir»); este é um problema grave: as próximas gerações tenderão a ler «setor», «receção», «deceção», etc., sem abrirem as vogais.

As consequências gravosas do AO saltam à vista: ao contrário de outras alterações ortográficas do século XX, este AO atinge aspectos estruturais da Língua Portuguesa. Todo este processo tem sido, pois, arrogante e autoritário.

3 — A sanha em simplificar (complicando) o português europeu, acaba por o desfigurar como património que opera a comunhão entre gerações, reduzindo a língua a um mero veículo de comunicação, a um artefacto instrumental, não atendendo ao carácter consuetudinário e à estabilidade ortográfica que são dimensões valiosas de identificação. A simplificação a todo o custo, a redução à pura fonética, como se de uma experiência laboratorial se tratasse, é uma das consequências mais nocivas do AO: é assim, por ex., que «acto» se torna «ato»; se, no artigo anterior, demos o exemplo de «directo», veja-se, entre outros, por ex., «acção», do latim «actio», «action» (em inglês), «action» (francês), «Aktion» (alemão), «acción» (espanhol), «actiune» (romeno).

Tal afasta o Português europeu dessas línguas europeias românicas e germânicas (incluindo o inglês). Por isso, o AO vai dificultar que alunos portugueses aprendam (sem erros) línguas estrangeiras e que estudantes de países europeus aprendam (sem erros) o Português.

Note-se que na língua inglesa abundam palavras com consoantes e vogais não pronunciadas, as «silent letters» – «dou(b)t», «forei(g)n», «ni(gh), «thou(gh)t», etc.

Ao pretender-se que a grafia coincida com a «pronúncia», esquece-se que esta é contingencial, variando de país para país, de região para região, de pessoa para pessoa. Aliás, se nos orientássemos apenas por critérios fonéticos, deveríamos escrever, por ex., «úmido» (como no Brasil), o que seria por demais ridículo.

Não conheço nenhum AO em nenhuma outra língua. Quem se preocupa com a unificação do inglês? E há, pelo menos, dezassete variantes do inglês, meia dúzia do alemão, quinze do francês e vinte do espanhol.

Trata-se de mais uma originalidade da política portuguesa, própria de políticos modernaços mas ignaros, pós-modernos, que não sabem o que é um livro; se citam versos de um poema, é só ao jeito de tique decorativo.

Naturalmente são indiferentes à estabilidade ortográfica – essencial na Língua –, como a qualquer estabilidade (legislativa, fiscal, etc.), quando esta é apanágio de um povo desenvolvido.






Os ministros da defesa e da educação

ao serviço do lóbi dos invertidos


O chefe do Estado Maior do Exército, general Carlos Jerónimo,
com o ministro da Defesa
Nacional Azeredo Lopes

Correio da Manhã, 7 de Abril de 2016

Chefe do Estado-Maior do Exército demite-se

Demissão surge na sequência de denúncias de que o Colégio Militar
não aceita alunos homossexuais.

O chefe do Estado-Maior do Exército, o general Carlos Jerónimo, apresentou esta quinta-feira a demissão ao Presidente da República.

O pedido de demissão surge na sequência de denúncias de que o Colégio Militar não aceita alunos homossexuais.

A demissão foi apresentada ao final da tarde.

O Presidente da República aceitou o pedido de exoneração do chefe do Estado-Maior do Exército.

Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu os serviços relevantes prestados à Nação por Carlos Jerónimo.

Colégio Militar exclui alunos homossexuais

O subdirector do Colégio Militar, tenente-coronel António Grilo, admitiu que a instituição contacta as famílias dos alunos e aconselha-os a retirar os filhos da escola quando descobrem que eles são homossexuais, para os proteger dos outros alunos.

«Falamos com o encarregado de educação para que percebam que o filho acabou de perder espaço de convivência interna e a partir daí vai ter grandes dificuldades de relacionamento com os pares, porque é o que se verifica, são excluídos», afirmou ao jornal digital «Observador». O ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, pediu explicações ao Estado-Maior do Exército, que tutela a instituição de ensino.

O ministro da Defesa Nacional iniciou processo de substituição do general CEME

O ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, anunciou que já iniciou os procedimentos adequados visando a substituição do general Carlos Jerónimo, que hoje pediu a exoneração do cargo de chefe do Estado-Maior do Exército.

Em comunicado, o gabinete do ministro Azeredo Lopes afirmou que na sequência do pedido de demissão, que foi aceite pelo Presidente da República, «foram iniciados pelo Governo os procedimentos adequados com vista à nomeação de um novo» CEME.

A Lei de Bases da Organização das Forças Armadas prevê, no artigo 18.º, que os chefes de Estado-Maior dos ramos são nomeados e exonerados pelo Presidente da República, sob proposta do Governo, que deve ser precedida da audição, através do ministro da Defesa Nacional e do chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

Na mesma nota, o ministro da Defesa manifestou «o seu apreço e consideração pessoal e profissional» pelo general Carlos Jerónimo, que estava no cargo há dois anos.

«O ministro da Defesa Nacional manifesta o seu apreço e consideração, pessoal e profissional, pelo senhor general Carlos António Corbal Hernandez Jerónimo pela valiosa colaboração com a tutela durante o exercício do seu mandato e pelos serviços que tem prestado, e certamente continuará a prestar, ao Exército, às Forças Armadas e a Portugal», refere o comunicado.

Questionado pela Lusa, o porta-voz do Exército disse que o general chefe do Estado Maior do Exército «solicitou a resignação do cargo por motivos pessoais».