BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

sábado, 1 de outubro de 2016


Os Comandos: Agora a sério[1]


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

«A Infantaria não é uma pêra doce».
Capitão Moura (meu instrutor em 1972/73).

Um determinado tipo/especialidade/arma/serviço de um Exército (no conceito lato de Forças Armadas) deve ser criado ou extinto, por uma simples e única razão: existir ou não, uma necessidade doutrinária/estratégica/táctica, para a sua criação, manutenção ou extinção. Tudo o resto são divagações.

Por isso é que os Alabardeiros foram extintos a partir do fim do século XVI e os Fuzileiros renasceram em 1961.[2]

Os Comandos também surgiram em 1962, devido a uma necessidade premente de ter uma força específica de contra-guerrilha que cumprisse missões que mais ninguém fazia, ultrapassando rapidamente a especialidade de «caçadores especiais» – que tinham a sua inspiração remota nos Batalhões de Caçadores das Guerras Peninsulares – preparados em Lamego e que tiveram uma vida efémera.

No fundo a preparação dos caçadores especiais, era aquela que devia ser comum a todas as unidades de infantaria…

É evidente que a partir do 25 de Novembro de 1975, no caso específico português,[3] e na queda do muro de Berlim, em 1989, na generalidade dos países europeus, passaram a existir dois outros aspectos que condicionaram a maneira como os políticos e a opinião publicada passaram a olhar para as FA: a sua dispensabilidade e a alocação de meios financeiros.

O resultado tem sido um desastre extenso em termos de segurança e de vivência em sociedade.

Daí que, e agora vamos reportarmo-nos apenas ao âmbito nacional, as FA tenham vindo a ser reduzidas a termos simbólicos e a IM e os militares, a serem apoucados; a condição militar – que é o fulcro da idiossincrasia da profissão militar – a ser destruída e a Deontologia triturada.

Tudo, porém, acompanhado de um conjunto de mentiras matraqueadas «ad nauseum», e em que quase todos colaboraram, de que tudo era feito para «racionalizar» a estrutura e os meios existentes; adequado e adaptado às novas «realidades» estratégicas e geopolíticas; às necessidades de «contenção financeira» (enquanto se esbanjavam e roubavam biliões em todas as outras áreas) e «last but not least», tudo se passando em harmonia e de acordo com as chefias militares…

Que cambada de despudorados mentirosos!

E ainda com uma outra particularidade, ainda mais despudorada e deveras infantil: a de que, até hoje, ninguém ter tido a coragem e a decência, de cortar uma única missão que fosse, a qualquer ramo das Forças Armadas!

Está tudo preso por fios e ninguém tem vergonha na cara.

Por isso o que é de admirar – e já agora de louvar! – é que não haja mais problemas, incidentes, acidentes ou falhanços – quando se pretende cumprir todas as missões com cada vez menos dinheiro, homens, treino, logística, concorrentes às fileiras, disciplina, moral, etc…

Não tenho dúvida em afirmar que, se qualquer empresa, organismo do Estado ou instituição civil, tivesse passado por um/vinte avos daquilo por que tem passado a Instituição Militar, já tinha cessado há muito, a sua actividade!

*****

É sobretudo pelos resultados que qualquer organismo deve ser avaliado.

Ora, com todas as «facadas» que a IM levou, as mais dolorosas das quais, foram facadas espirituais e não materiais, e de terem emergido do caos do maldito «PREC»,[4] onde se meteram e se deixaram meter, rapidamente se convertendo numa força armada tão boa como as mais modernas existentes, descontando os «hiatos» logísticos, tecnológicos e em armamento, existente para as mais avançadas e equipadas, nestes âmbitos.

E esta avaliação passou a ser feita não só no âmbito dos exercícios da NATO como também pelos Comandantes de Teatro (mais de 30), onde desde os anos 90 do século passado, forças militares portuguesas actuaram.

O mesmo se passou, até com especial destaque, para com as tropas «Comando», sempre empregues nas zonas e nas operações mais difíceis e exigentes.

Ora tudo isto não se consegue propriamente com jogos de escuteiros (embora sejam excelentes), exercícios de ginástica sueca, das nove às cinco, concertos rock ou com actividades tipo daquelas efectuadas nos acampamentos do Bloco de Esquerda.

Requer muito empenho, treino, suor, estudo, carácter, nódoas negras, sacrifício, desenvolvimento de capacidades múltiplas, disciplina e doutrinação mental e muitas coisas mais, completamente arredadas do dia-a-dia da gorda, titubeante, baralhada, ignorante e imbecilizada, maioria da sociedade contemporânea.

E todas as actividades de treino militar são envoltas em risco elevado, não havendo volta a dar! Uma evidência que muitos pretendem escamotear…

Por outras palavras, os acidentes são sempre uma possibilidade acrescida.

Não está em causa – e nunca esteve – que tudo se deve fazer para minimizar os riscos e quando existam acidentes, estes devem ser investigados para se tirarem ensinamentos para o futuro e apurar responsabilidades – outro âmbito em que a sociedade civil deve aprender com os militares, vide a matança existente nas estradas e o rol de acidentes no trabalho, ocorridos anualmente (só para citar estes)!

E que se saiba, a CP ainda não deixou de enviar comboios para Espanha, depois do inexplicável acidente recente, na Galiza, onde houve a lamentar vários mortos…

O que é de procurar entender, especialmente neste último caso ocorrido nos Comandos, é o facto de tal ter acontecido no primeiro dia de instrução do curso e ao fim de seis horas; numa prova apelidada de «aptidão comando», especialmente desenhada para o Ultramar, onde antigamente se dava um cantil por dia, por instruendo e agora já se distribui 7,5l…[5]

Como é que um instruendo apresenta, aparentemente, o fígado destruído (a sede ataca sobretudo os rins) e ainda não se sabe se alguém utilizou substâncias químicas para melhor superarem o rigor dos treinos. A autópsia o dirá.

A decisão médica de evacuação e em que termos, também me parece ser um ponto critico neste caso – seguramente que não foi avaliado nenhum problema de extrema gravidade, senão ter-se-ia accionado o helicóptero de alerta na BA6 (Montijo) a cinco minutos de tempo de voo.

E o que dizer do facto do actual Hospital das Forças Armadas (o Serviço de Saúde Militar tem vindo a ser destruído pelos sucessivos governos anteriores), não se atrevesse a receber e a tratar, os militares evacuados, enviando-os para os hospitais civis? Para que serve pois, o HFAR?

Esperemos que todas as questões sejam esclarecidas, e a opinião pública e sobretudo as famílias, informadas da causa da morte dos militares, naquilo que não ponha em causa qualquer aspecto que seja considerado classificado.

Como pano de fundo de tudo isto devemos ainda referir, e para terminar, um aspecto transversal a toda a sociedade portuguesa e ocidental, que é mister acudir: a falta de candidatos à vida militar em quantidade e qualidade suficiente.

A juventude – e os mais velhos também, pois esta situação já leva décadas – perderam toda a rusticidade, deixou de ser preparada para as dificuldades da vida e está inundada de individualismo e relativismo moral.

Pode dizer-se que é o preço do «desenvolvimento», eu diria que são os sintomas da decadência. Desde a queda do Império Romano que se sabe que é assim, mas nunca se quis assumir tal consciência!

A instrução dada no sistema de ensino, é um desastre extenso, a educação familiar, acompanha quando não fomenta o mesmo, em conluio com sindicatos, políticos, «media», etc…

O desporto escolar e universitário é quase inexistente e deixado à balda; os «campus» universitários passaram a ser espaços onde campeiam os desregramentos e excessos com álcool, estupefacientes, batota e sexuais, já sem contar com toda a casta de experiências pedagógicas delirantes que começam na pré-primária…

Salvo raras e honrosas excepções pode-se acreditar tanto no sistema de avaliação, como na qualidade dos relógios vendidos pelos ciganos na feira da Amareleja…

A malta nova, mal nutrida – apesar das campanhas todas de sensibilização – anda com a coluna deformada pela falta de postura no assento e camas fofas; tem a vista num molho de brócolos por causa dos vídeo jogos e os ouvidos estuporados por causa dos MP3, música rock aos berros e discotecas sem regras nos decibéis.

E como lhes andam a dizer desde pequeninos que têm direito a tudo e dever a nada (menos pagar impostos); que o dia de amanhã será cor-de-rosa (demagogia dos Partidos), são super protegidos desde o berço e deixaram de jogar à bola na rua, ou subir às árvores para verem os ninhos (ninhos, o que é isso?), etc., deixaram de ter vontade própria e tendem a desistir à primeira dificuldade que lhes surja, tal como privá-los de telemóveis durante uns dias...

Os resultados de todo este desastre que se perpetua (pois ganhar votos não se compadece com emendar seja o que for), salta bem à vista nos resultados dos concursos de todas as incorporações militares, desde as praças até aos candidatos às Academias Militares. Estes resultados deviam ser estudados e sobre eles elaborados relatórios adequados, pois permitem visualizar em corte, o estado da juventude à volta dos 20 anos.

Estes relatórios deviam ser entregues e discutidos em Conselho de Ministros e Parlamento, pois são as únicas entidades que podem influir nas eventuais correcções a fazer.

É sobretudo neste âmbito que valeria a pena debruçarem-se nas investigações a realizar ao que se passou nos «Comandos» (que têm problemas específicos de recrutamento, que não vou esmiuçar).

Com esta sociedade que criámos, é impossível ter um Exército digno desse nome… Mas isto digo eu, que sou estúpido, ao ponto de andar, há décadas, a malhar neste ferro, que nunca está quente para se poder modificar.


[1] Embora a crítica ao Bloco de Esquerda também fosse muito a sério…

[2] Os Alabardeiros foram sendo postos de lado a partir das derrotas dos Suíços em meados do Século XVI e com a vulgarização da arma de fogo. Tiveram durante muito tempo depois, uma função honorífica.

[3] Mais propriamente, a partir de 1982, com a extinção do Conselho da Revolução e a Lei 29/92, Lei da Defesa Nacional e das FA.

[4] Processo Revolucionário em Curso – 11/3/75 (no fundo desde 26/4/74) – 25/11/75.

[5] De referir que todos os instruendos eram já militares com a recruta feita.





quarta-feira, 21 de setembro de 2016


Última hora: O Bloco de Esquerda reorganiza

os «Comandos»


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador, 20 de Setembro de 2016

Fontes geralmente bem informadas revelaram que os equilíbrios instáveis no «governo geringoncional», obrigaram o PM – o feliz e bem – humorado António Sorridente Costa a ordenar ao inefável e consideradíssimo MDN, que constituísse um grupo de trabalho (GT), a funcionar nas alcatifas fofas do 7.º piso do edifício do Restelo – onde a Câmara de Lisboa já mandou retirar todo e qualquer símbolo que pudesse lembrar o tenebroso passado colonial português (as janelas que davam para o antigo Jardim do Ultramar foram até mandadas entaipar).

Este GT seria presidido pela novel especialista em assuntos de Defesa, de seu nome Catarina «Eufémia/Eumacho» Martins, acolitada por um representante de cada facção do lixo ideológico amalgamado numa coisa a que chamaram Bloco de Esquerda (BE) (conhecido na gíria por Bloco Canhoto, Bloco de Esterco, Bloco de Estrume, etc., tudo termos depreciativos que os invejosos da oposição põem a correr subversivamente para os denegrirem…)

Até ao momento em que escrevemos estas linhas não se sabe quantos membros vai ter o GT, já que ninguém se entende no tal BE, sobre quantas tendências há, ou se o GT há-de ter uma coordenação bicéfala, tricéfala, ou outra. Provavelmente, digo eu, vai acabar tudo ao molho e fé em belzebu!

Bom, quando soube disto o Dr. Azeredo Lopes apanhou um «golpe de calor», arrancou em fúria a gravata da sua desabotoada camisa (de onde se podiam vislumbrar uns pêlos negros – o homem é peludo, portanto) e mandou o chefe de gabinete recolher todas as gravatas que havia no piso e enviá-las para um qualquer centro de refugiados na Grécia, jurando que era desta que nunca mais usava semelhante objecto de tortura medieval.

O «Comandante Supremo» que passasse revista às tropas (que ele até gostava disso), terá pensado, ou mandaria o secretário Perestrello representá-lo, pois até estava no cargo uma segunda vez, para ver se levantava a nota (ah, ah, ah, como o filho do caseiro se deve estar a rir!).[1]

Mas, pensando melhor, o MDN lá convocou o tal GT, não fosse o belzebu tecê-las…

Naturalmente os chefes militares souberam de tal decisão pela imparcialíssima e mui profissional comunicação social, podendo inferir-se que tenham reagido da mesma maneira, quando confrontados com casos semelhantes no passado.

A sala e os corredores de alcatifas fofas tinham ainda a vantagem no caso, remoto, do chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, ser convocado pela Catarina, para dar o seu parecer, este possa explicar como se enrola uma cambalhota em frente; rasteja de costas, executa uma «queda na máscara», simula o «passo fantasma», etc.[2]

A praxe faz muita falta e a «aplicação militar» é (era) linda!…

O relatório final foi célere, já que foi escrito apenas pela «coordenadora» do mesmo, por via dos elementos do GT o terem abandonado por diversas razões: três por se declararem objectores de consciência e ficarem com erupções de pele só de pensarem naquelas barbaridades todas; um saiu em protesto contra o facto de não haver um único transexual no GT; outro foi internado de repente devido a uma «overdose»; um deles nunca conseguiu chegar a horas a nenhuma reunião; uma recusou-se a identificar-se para entrar no edifício, ficando à porta com um cartaz a protestar contra tal violência; um outro ficou de tal maneira confuso com a terminologia que encontrou, que foi logo para casa digerir que um «tanque» não servia só para lavar a roupa ou molhar os pés; um «canhão» não significava uma manga de casaco com botões; uma continência não era um aceno lúbrico e não devia ser acompanhado de expressões como «oi»; que havia navios para além dos cacilheiros e que podiam ser armados e tudo (se bem que ele tivesse uma lembrança que um «fascista» de nome Vasco da Cama, ou Casco da Gama, tinha chegado à Índia num barco a remos a fim de roubar pimenta aos indígenas); e não conseguia entender que houvesse aviões, ainda por cima tão bonitos, que andassem para trás, e para a frente, sem ser com o objectivo de levar turistas à Tailândia, a fim de massajarem as têmporas ou irem fumar uns charros a Amesterdão.

Deste modo a dita Catarina encantada com a oportunidade única que se lhe deparava, elaborou uma série de propostas de onde se respingam:

O código «Comando» seria substituído pela Declaração Universal dos Direitos dos Animais, perdão, dos Homens; no mastro destinado à Bandeira Nacional, esta seria substituída por uma outra totalmente branca; as formaturas seriam trocadas por «molhadas»; a instrução do dia seguinte seria discutida em plenário, na véspera; o lema dos Comandos – designação a substituir por «delícias do campo» – deixaria de ser «Mama Sumae» (aqui estamos, prontos para o sacrifício) para ser «avante rebaldaria»; deixaria de haver postos (que diabo somos todos iguais!), e a continência seria suprimida – não se pode impor nada a ninguém – e substituída por saudações modernaças tais como «xau meu», «tas bué fixe»? «Topas?», etc…

O horário seria das 09:00 às 17:00 (enfim, mais ou menos), com amplos intervalos para descanso, refrescos e rancho reforçado (com muita rúcula, sushi, bagas e tofu) e cada instrutor seria sempre acompanhado por um canhoto militante devidamente certificado (de preferência LGBTQIA+).

Não haveria apenas um uniforme, mas sim uns 20, à escolha, já que a não ser assim tal constituiria uma castração inadmissível da personalidade; uma aberração quanto à livre escolha e um insulto à originalidade!

A instrução seria dada em salas climatizadas, com cada instruendo usando um termómetro no sovaco; as tácticas seriam estudadas em vídeo jogos; só seriam disparadas balas de borracha e apenas para o ar e seria abolida toda a linguagem agressiva, patriótica, máscula, etc., e qualquer tipo de vernáculo, tidos como reminiscências serôdias e imperialistas do malandro do Afonso Henriques e seus descendentes desequilibrados.

Deste modo o relatório garantia que não haveria mais mortes na instrução ao mesmo tempo que assegurava a constituição da melhor unidade jamais constituída que garantia a preservação da paz e o amor fraternal, perpétuo e universal.

Só não prometia a vida eterna – uma falha deveras lamentável e incompreensível – falha esta logo aproveitada pela Conferência Episcopal, que disse que esse assunto era com eles, apesar de a Catarina ter sugerido, entretanto, retirar todos os crucifixos das unidades militares e proibir a entrada de capelães (enfim, com a excepção, se forem muçulmanos).

Consta que o relatório teve um bom acolhimento no seio do partido no governo, nomeadamente da sua ala esquerda, onde se destaca o «Grupo de Argel» (para quem os «Comandos» seriam certamente um grupo a abater nos mais escuros momentos da «guerra colonial»); os partidos tidos de Direita (ah, ah, ah), armados em betinhos, liberais, aburguesados, cumpriram o dever de fazer uma ou outra crítica pontual e demagógica, num âmbito onde só têm feito asneiras ao longo do tempo.

O PCP, discreto e comedido, como sempre, fez um protesto cândido, defendendo que a instrução dos «Komandos» devia passar a ser feita na Sibéria…

O pessoal da Força Aérea (abençoados) ofereceram-se, espontaneamente, para carregarem os C-130 (e mais que houvesse) com militantes bloqueiros escolhidos entre os menos néscios, e largá-los nas montanhas do Afeganistão, a fim de participarem num estágio de sobrevivência.

O Comandante Supremo avisou entretanto, que se o relatório fosse aprovado (apesar de conter ideias muito construtivas) convidaria o Secretário-Geral da NATO para o próximo Conselho de Estado, a realizar em Bruxelas, onde o assunto iria ser discutido.[3]

Parafraseando o Eça, Portugal deixou de ser um país para ser um sítio. Mal, mesmo muito mal, frequentado.


[1] Um tal António de Oliveira Salazar, que intentou namorar uma Perestrello tendo sido apostrofado com o epíteto, pela mãe da mesma…

[2] Para estes casos o general CEMGFA apresentar-se-ia de uniforme n.º 3 sem nada por baixo (ai do último!).

[3] Os exaustos membros da casa civil e militar já procuram, afanosamente, instalações condignas para tal evento, no bairro de Molembeck.





segunda-feira, 19 de setembro de 2016


As perseguições mafiosas

ao juiz Carlos Alexandre


António José Vilela e Fernando EstevesSábado, 26 de Março de 2015


O juiz de instrução Carlos Alexandre não tem tido uma vida fácil. Nos últimos 10 anos, já o ameaçaram, invadiram-lhe a casa, tentaram atropelar-lhe a mulher e agora envenenaram-lhe o cão.

O animal de nome Bart, que lhe tinha sido oferecido pelo procurador João de Melo, morreu envenenado com remédio dos ratos. Durante semanas, o cão agonizou e acabou por morrer na semana passada. Suspeita-se que alguém tenha atirado para o quintal da casa do juiz um alimento misturado com veneno para ratos.

Estes casos já não são estranhos para o magistrado judicial que há mais de 10 anos lida com os processos mais complexos relacionados com criminalidade violenta e económico financeira. Quando estava colocado na Polícia Judiciária Militar, Carlos Alexandre chegou a ser ameaçado e temeu até ser agredido dentro das instalações daquela força policial que dependia hierarquicamente do ministro da Defesa Nacional. Na altura, Paulo Portas era o titular do cargo e o juiz tinha ordenado que o seu chefe de gabinete fosse colocado sob escuta por causa de um alegado negócio de compra de material militar.

Mais tarde, já colocado no Tribunal Central de Instrução Criminal,  invadiram-lhe a residência e deixaram-lhe uma velha pistola à vista que estava guardada numa gaveta. O juiz achou que se tratava de um aviso. Apesar de ter segurança 24 horas por dia, outros dois acontecimentos viriam a deixá-lo bastante preocupado, sobretudo porque em causa esteve a mulher Felisbela, que terá sido objecto de duas tentativas de atropelamento quando passava numa passadeira para peões.

Agora foi a vez do cão da família.






PETIÇÃO



Rogério de Moura enviou-lhe a seguinte Petição.

Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «APOIO AO JUIZ CARLOS ALEXANDRE » no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT82973

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação através de um email para os vossos contactos.

Obrigado.

Rogério de Moura

Esta mensagem foi-lhe enviada por Rogério de Moura (rdemoura007@gmail.com), através do serviço http://peticaopublica.com em relação à Petição http://peticaopublica.com/?pi=PT82973







Carlos Alexandre incomoda


A folha de serviço


Eduardo Dâmaso, Sábado, 15 de Setembro de 2016

O juiz Carlos Alexandre já foi alvo de denúncias anónimas sobre contactos com jornalistas que nunca teve. Foi obrigado a um striptease salarial e a relatar a inspectores judiciais todos os rendimentos da família. Foi vasculhado por causa de um empréstimo de 4 mil euros num programa de TV dirigido por Sandra Felgueiras, filha da famosa arguida Fátima Felgueiras, que fez outro programa onde explorava alegadas «coincidências» entre as decisões do juiz e as notícias de um jornalista.

Foi «aconselhado», por superiores, a suavizar decisões sobre o crime de branqueamento em processos relacionados com Angola. Viu processos de obras em casa espiolhados e decisões suas achincalhadas por desembargadores da Relação de Lisboa que passaram mais de uma década em comissões de serviço nomeados pelos amigos políticos, com base em opiniões e não em argumentação jurídica. Viu os filhos ameaçados com pistolas deixadas em cima das respectivas fotografias.

Nunca teve uma repreensão do Conselho Superior de Magistratura. Tem quase trinta anos de serviço público, centenas de decisões acolhidas pelo direito e uma folha de serviço impecável. Tudo isso é indiferente aos pregadores evangélicos como Louçã e a outros que o macaqueiam, que reduzem tudo ao interesse indisfarçável que prosseguem e que não é outro senão safar Sócrates, mesmo que isso leve Ricardo Salgado, Oliveira e Costa e Duarte Lima na mesma água do mesmo banho a deitar fora. Todos vítimas do malandro Carlos Alexandre e do iníquo Estado de direito em que vivemos… Grandes democratas!






O «caso» Carlos Alexandre


Elogio dos vermes


José Mendonça da CruzCorta-Fitas, 14 de Setembro de 2016


O juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista em que explicou quem era, e tudo o que disse de si está solidamente comprovado pela sua vida, a sua carreira, e o testemunho de quem o conhece ou com ele trabalhou. Mas o juiz Carlos Alexandre cometeu um erro grosseiro de avaliação: avaliou mal o país e o tempo em que vive, incomensuravelmente mais rascas do que julga ou desejaria. Compreende-se, pois, que logo lhe tenham caído em cima os barões do país pardo e da corrupção, obviamente acolhidos e aclamados na comunicação social avençada, e inevitavelmente acompanhados daqueles idiotas úteis que seguem qualquer carroça de pruridos politicamente correctos, na ilusão de mostrar equilíbrio e equidistância.

O juiz Carlos Alexandre avaliou mal.

Declarou-se católico praticante, e disse que a fé o estrutura e fortalece. Ofendeu o credo «laico» da redutora acepção socialista, menosprezou jacobinos e maçons.

Contou com alegria que tem uma família sólida e tradicional, com a qual se sente feliz. Desconsiderou, pois, as virtudes fracturantes.

Revelou serenamente que trabalha muito, ganha pouco, e vive uma vida de austeridade e contenção. Mostrou-se, portanto, displicente com uma governação que virou a página da austeridade, que defende a redução do horário de expediente para os trabalhadores (desde que do sector público), e celebra o fausto, (desde que reservado a quem tem políticas para as pessoas). E, pior, desprezou as nobres carreiras daqueles defensores da coisa pública que, à força do seu dinâmico optimismo, saltaram do Clio para o Mercedes S, do apartamento para o palacete e a casa de férias, da mediania para o enriquecimento sem causa ou explicação, do anonimato para a gloriosa inutilidade de algum observatório ou fundação.

O juiz Carlos Alexandre apresentou-se, em resumo, (e a sua vida e carreira, repete-se, parecem confirmar que é assim) como um homem sério e bom, incorruptível, estranho ao deslumbramento das mordomias, do dinheiro a rodos, dos pied à terre em Paris. Mais grave ainda: o juiz pareceu manifestar uma inabalável fé na Justiça, mesmo naqueles casos a que o programa do PS chama perseguição a políticos (seus).

Eis, pois, em pormenor e por extenso, o mais álacre manifesto contra o tempo novo português.

Que juiz deve servir, então, se Carlos Alexandre, que vai tão ao arrepio do miasma, não serve?

É fácil. Algum magistrado fiel como Santos Silva ou Silva Pereira; impoluto como Rocha Andrade; sensato, contido e escrupuloso como Costa; intocável como Ferro Rodrigues; polido como Galamba; sério como César; equidistante como Rangel; insuspeito como Nascimento; trabalhador como Nogueira; crível como Centeno; e que, no entanto, fosse frugal... como Sócrates.





sábado, 17 de setembro de 2016


E para já!…








«O Papa contra Hitler»:

Uma recensão e um pedido


Brad Miner

O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo «ecodrama» chamado «O Papa vs. Hitler», sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de «Church of Spies». Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. «O Papa vs. Hitler» demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto secretário de estado do Vaticano, foi ele o principal autor de «Mit brennender Sorge» (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: «É quase como se o Diabo estivesse do seu lado».

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um «consenso» de que a Shoah (o holocausto) «não poderia ter tido a magnitude» que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: «A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo».

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt.

Uma boa parte de «O Papa vs. Hitler» lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a «Absolvição de São Leão». É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era «o Papa de Hitler», como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado em The Catholic Thing)





quinta-feira, 15 de setembro de 2016


A preguiça mental contra a acção



Cid Alencastro

Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — «dá trabalho»… «dá preocupação»… «exige empenho»… «não é comigo»… — a pessoa acaba por ficar meio aparvalhada e deixa-se levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.

A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço. Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem é-me muito cómoda para exprimir esse «engorduramento» das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objectiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente «engordurados» da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.

Esse gosto mórbido da inacção mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de Género, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimónias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o «louco» olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.

Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!

O problema é exactamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar as suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem corajosamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.

Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores transformaram-se em lobos.