BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016


A Eslovénia recusa em referendo

o chamado «casamento» entre invertidos



Luís Dufaur

Em Dezembro de 2015, a Eslovénia recusou em referendo a lei que pretendia permitir o «casamento» entre invertidos, noticiou o jornal francês Le Monde.

O referendo foi de iniciativa popular e os eleitores eslovenos rejeitaram a lei, aprovada pelos deputados há dez meses. A maioria vencedora atingiu 63,12% dos votos.

A participação no escrutínio foi fraca (35,65%), mas legalmente suficiente para validar a votação. Os defensores da família natural conseguiram o apoio de pelo menos 370 000 eleitores. Eram necessários 342 000 votos para vetar a lei.

Esta tinha sido aprovada por larga maioria dos deputados do Parlamento, constituída por partidos de esquerda e engrossada pelos representantes do partido centrista que, como é de praxe nessas formações de meio termo, no momento decisivo traem o seu «centrismo», a sua «moderação» ou a «equidistância» e aliam-se à esquerda.

A Eslovénia votou NÃO ao «casamento invertido»
e à adopção de crianças por esses «casais».

O partido centrista é o mesmo do primeiro-ministro Miro Cerar e tinha à sua disposição as alavancas do poder do Estado.

O texto legal, hoje despojado de valor, concedia aos casais invertidos e lésbicos os mesmo direitos dos casais heterossexuais bem constituídos, inclusive o direito de adopção de crianças, um dos pontos mais contestados pela população.

O referendo pôde ser realizado graças às 40 mil assinaturas recolhidas por grupos pela vida pedindo a convocação de uma consulta de iniciativa popular com poder de veto.

A lei não entrou em vigor antes do veredicto popular e hoje encontra-se revogada.

Santuário e castelo de Bled na Eslovénia

Em 2012, numa consulta similar, os eslovenos já tinham dito «não» ao «casamento» sodomítico com uma maioria de 55%.

O país tem dois milhões de habitantes, pertence à União Europeia desde 2004 e é considerado o mais liberal das antigas nações que sofreram a imoral opressão comunista.

Contudo a lei antinatural acabou por ser rejeitada, facto que pressagia recusas análogas ou mais truculentas noutros países eslavos libertados da tirania soviética.





quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016


EUTANÁSIA

Morrer


Cristina Líbano Monteiro, professora da Faculdade de Direito de Coimbra

Gostava de morrer quando morrer. Receio dar ordens à morte. E se ela se enganar? E se eu me enganar? E se me faltar tempo? E se cortando a relação com todos ainda me faltar dizer alguma coisa a alguém?

Gostava de morrer como vivi. Com a mesma liberdade, com a mesma teimosia, com a mesma gratidão a quem cuidou de mim.

Gostava de morrer com a mesma liberdade (ou falta dela) com que nasci. Dizem que então chorei e que foi bom tê-lo feito. Dizem que também sofri, pois talvez tendesse a viver para sempre no ambiente fechado em que até então cresci.

Gostava de morrer como nasci. Rodeada do mesmo cuidado. Do mesmo carinho. Como vivi. Procurando beijar as mãos de que tantas vezes dependi. As mãos, os olhos, a atitude dos que, estando perto, me transmitiam certeza, segurança. Me repetiam e me repetem: é bom que existas; é bom que estejas aqui.

Gostava de morrer quando morrer. Receio dar ordens à morte. E se ela se enganar? E se eu me enganar? E se me faltar tempo? Liberdade? E se cortando assim a relação com os outros, com toda a gente, ainda me faltasse dizer alguma coisa a alguém: um pedido, umas palavras de amor, de perdão…? E se rompendo assim a relação comigo própria, não chegasse a encontrar o sentido de tudo isto, da minha vida e da minha morte?

Gostava de morrer quando morrer. Não quero programar o dia em que hão-de chorar por mim. E se não chorarem? E se chorarem pelo abandono a que os votei, não por mim? E as lágrimas forem de quem se dispunha a cuidar-me, tornando-se mais pessoa, mais capaz de sentir o que a une aos outros?

Agarro com as duas mãos, com senhorio, o meu ser em dor. Peço à minha liberdade que me acompanhe até ao fim. Auto-determino-me a morrer quando a morte vier. Quem disse que a dignidade é incompatível com sofrer?

Não permitirei que ninguém me mate. Não sou verso solto. E não quero que por mim, ou seja por quem for, alguns de entre os melhores comecem a desfazer o tecido social, a quebrar os fios da nossa coesão. A vida não é o valor mais alto da existência pessoal: pode dar-se a vida por uma causa, por alguém. Mas a norma das normas, a que estrutura e suporta o viver comunitário, não deve ser tocada e é esta: «não mates outra pessoa».





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016


A adopção («gay») e o engano


Abel Matos Santos, Público, 2 de Fevereiro de 2016

É deplorável, quando estão em causa questões tão cruciais para a família e as crianças, ter de assistir à passividade do centro e da direita.

Chega de ser enganado! Estou cansado de ver mentir sem pudor.

Nesta questão da confirmação parlamentar da lei vetada pelo Presidente da República sobre a adopção por uniões do mesmo sexo, sinto-me cansado, saturado, farto, ao ver o porta-voz do PS a faltar descaradamente à verdade, afirmando que toda a comunidade científica e o mundo inteiro são unânimes na ideia de que é igual para as crianças terem um pai e uma mãe, ou só dois pais, ou só duas mães.

É particularmente chocante e reprovável a falta de honestidade intelectual quando se convoca o testemunho da Ciência. É certo que, infelizmente, a falsidade já se tornou moeda corrente na política; mas não podemos deixar que essa mesma onda contamine a ciência ou a sua citação, cavando o seu descrédito geral.

Percebo porque o povo se distancia do que considera «políticos de pacotilha», ao ouvir-lhes falsidades e vê-los afirmarem todas as inverdades possíveis sobre o tema, apenas para fazerem aprovar derivas ideológicas, usando, neste caso, as crianças e desprezando o seu superior interesse.

A lógica subjacente é apenas a do poder, o poder circunstancial, e não a da razão, a serena e objectiva procura do que está certo. Como a democracia é, formalmente, a aprovação das leis pela maioria, ou seja pelo maior número de votos, mesmo que se aprovem coisas más, acreditam que leis injustas, leis desajustadas ao bem da pessoa humana, estão «legitimadas pela democracia».

Por isso, não hesitam diante de qualquer vulgar técnica de propaganda, mesmo quando estão em causa valores humanos fundamentais e até o bem de crianças desvalidas.

Seria mais correcto que afirmassem claramente aquilo a que vêm: que é uma lei para defender os direitos e os interesses dos homossexuais (ou melhor, da sua linha mais radical) e do lobby LGBTI.

Deviam também dizer, num assomo de seriedade, que é certo que muitos homossexuais são contra esta lei, revelando e publicitando as suas posições e os seus argumentos.

Deviam reconhecer que esta lei diminui os direitos das crianças, em especial o direito natural a terem um pai e uma mãe.

Deviam ter a  hombridade de reconhecer, noutro assomo de seriedade, que os estudos e a comunidade científica não são de todo unânimes e que, por sinal, os principais e mais credíveis estudos indicam que esta lei vai permitir a pior opção quanto às crianças.

Tenham a simplicidade e a objectividade de dizer tudo isto e, depois, em consciência, como agora se usa em política, votem!

Votem e aprovem esta lei, se é mesmo isto que querem impor à sociedade e às crianças confiadas ao poder e aos serviços do Estado (para que delas cuide efectivamente). Mas não confundam a opinião pública, nem enganem os cidadãos menos informados, que não têm acesso aos estudos.

E, por favor, não acusem o Presidente da República, nem acusem o Mark Regnerus, o Paul Sullins, o Loren Marks, o Sarantakos, a Kristin, o Nock, o Colégio Americano de Pediatras, e todos os demais clínicos e investigadores com trabalhos publicados nas melhores academias e revistas científicas, atacando-os e denegrindo-os só por provarem que existem diferenças enormes, significativas, entre ser criado e viver com um pai e uma mãe e o modelo que agora querem aprovar.

Não venham com os argumentos hipócritas de as crianças estarem mal em instituições, porque não estão, desde que as instituições sejam boas. Haverá sempre, infelizmente, crianças em instituições – por isso, é fundamental que o Estado Social (ou também aqui querem destruir o Estado Social?) assegure a existência dessas instituições pelo apoio à livre iniciativa comunitária e garanta que sejam muito boas.

Não me venham também falar das capacidades dos homossexuais cuidarem de crianças porque todos sabemos que não é isso que está em causa – do que se trata é de impor a uma criança, dependente e desvalida, que tenha dois pais (sem mãe) ou duas mães (sem pai).

Certo que é de amor que se trata. É que, quando se ama, queremos o melhor para aqueles que amamos e não para nós próprios – focamo-nos principalmente no outro e não nos centramos sobre o nosso ego.

E o melhor para a criança não é a adopção por pares do mesmo sexo, com imposição da dupla filiação materna ou paterna no registo civil, atropelando o direito à identidade pessoal, um direito humano fundamental de cada um.





segunda-feira, 25 de janeiro de 2016


Áustria: Oficiais entram publicamente

em dissidência com os políticos



Coup de théâtre dans les débats sur la sécurité! Des officiers de haut rang lancent un avertissement: «La sécurité de notre pays et de sa population est gravement menacée.»

Personne ne s’y attendait pas. Pourtant, aujourd’hui, ils se font entendre. Les officiers de l’Armée autrichienne ont décidé de ne plus se taire! Sur une plate-forme nouvellement créée, «L’Autriche défendue», ils alertent sur les dangers d’une politique de sécurité qui a complètement failli. En résumé: la sécurité serait «gravement» menacée, les milieux politiques fermeraient les yeux et l’armée seraient instrumentalisée politiquement, condamnée à l’inactivité et brisée économiquement.

Dans un spot publicitaire publié le 20 janvier 2016, les officiers parlent clairement. Aux côtés du colonel Siegfried Abel et du chef de la Société des officiers autrichienne, le colonel Erich Cibulka, s’exprime également le général Günther Greindl. Ce dernier a participé activement à l’évolution de l’armée fédérale, a été représentant de l’Armée autrichienne auprès d’institutions internationales, est le fondateur et le président de l’Association des Peacekeepers [Casques bleus] autrichiens et chevalier de l’Ordre du Mérite pour les services rendus à la République autrichienne. Les activités des officiers devraient soumettre à une certaine pression le ministère de la Défense et le gouvernement fédéral.

Dans leur vidéo, les officiers justifient leur action de façon exhaustive. «En tant que soldats de l’armée autrichienne, nous servons notre pays. Nous accomplissons notre devoir depuis des décennies avec fierté et conviction.» Pourtant, les dangers croissent de jour en jour. Le conflit Est-Ouest entre la Russie et l’Otan, le terrorisme en Europe pratiqué par «l’Etat islamique» et une immigration massive incontrôlée de millions d’êtres humains sur le sol européen caractérisent la situation actuelle. Il semblerait qu’une grande partie de la sphère politique ne prenne pas ces menaces en considération par ignorance ou clientélisme. Non seulement la destruction de l’armée a été planifiée, mais la «volonté de défense de la population» serait aussi systématiquement détruite et ridiculisée. En conséquence, les soldats auraient aujourd’hui l’obligation de parler et d’agir. En raison «d’une capacité de défense dégénérée» (textuellement), la «sécurité de notre pays et de sa population est gravement menacée».

Outre un renforcement de l’armée fédérale et de sa capacité de défense, ils demandent une sécurisation des frontières efficace. Les soldats ne se tairont plus longtemps. Et ils sont tous d’accord: «Nous voulons une Autriche souveraine et ayant les moyens d’agir. Nous voulons assurer l’avenir de nos enfants et de nos petits-enfants.»





quarta-feira, 20 de janeiro de 2016


Os 30 desavergonhados do PSD e do PS

que querem mamar a vida inteira


José Lemos

O DN acaba de divulgar a lista dos 30 deputados-chulos que requereram ao «Tribunal Constitucional» a reposição das suas benesses vitalícias, aliás imoralmente apenas suspensas. Os parceiros da corporação chamada «Tribunal Constitucional», corporação de privilegiados obviamente a extinguir numa república a sério, aprovou a súplica dos pobres. Hoje decidimos para vocês, instituímos o princípio, e portanto amanhã será para nós... Tudo em família.


OS 9 CHULOS DO PSD

Arménio Santos
Carlos Costa Neves
Correia de Jesus
Couto dos Santos
Francisco Gomes
Guilherme Silva
Hugo Velosa
João Bosco Mota Amaral
Joaquim Ponte

OS 21 CHULOS DO PS

Alberto Costa
Alberto Martins
Ana Paula Vitorino
André Figueiredo
António Braga
Celeste Correia
Fernando Serrasqueiro
Idália Serrão
João Barroso Soares
Jorge Lacão
José Junqueiro
José Lello
José Magalhães
Laurentino Dias
Maria de Belém Roseira
Miguel Coelho
Paulo Campos
Renato Sampaio
Rosa Maria Albernaz
Sérgio Sousa Pinto
Vitalino Canas





segunda-feira, 18 de janeiro de 2016


Lancha «Vega» — 18 de Dezembro de 1961

Relato sobre a morte do 2.º tenente Oliveira e Carmo


Acção da lancha «Vega»

A lancha «Vega»(1), que patrulhava as águas do Distrito de Diu, não fazia parte do Agrupamento «António Silveira».

Modelo da lancha «Vega»

Não obstante, com ele partilhou da acção violenta das forças aéreas da União Indiana e, como tal, o relato da sua actuação integra-se na sequência das operações ocorridas naquele Distrito e atrás referidas.

Por ter morrido em combate o Comandante da lancha «Vega», segundo-tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo, coube aos seis marinheiros sobreviventes a elaboração do respectivo «relatório de acção».

Pela espontaneidade da descrição, pelo vigor que ressalta da leitura desse relatório, resultado da vivência de inesquecíveis momentos de heroísmo, julgamos que nenhum outro documento poderia ter maior interesse e transmitir com tanta fidelidade o combate travado naquela manhã de 18 de Dezembro de 1961.

Como tal, as palavras que se seguem, são a transcrição, na íntegra, do referido relatório:

Saída de Diu em 17 de Dezembro pelas 21:40, em serviço de fiscalização, rumo a Nagoá onde fundeou pelas 22:00.

Na madrugada do dia 18, por volta das 01:40 foram ouvidas rajadas de metralhadora e tiros isolados em terra, pelo marinheiro de serviço (marinheiro-fogueiro-motorista n.º 5645). Foi dado imediato conhecimento da ocorrência ao Comandante, o qual imediatamente ordenou postos de combate e levantamento de ferro, dirigindo-se para o mar.

O radar já se encontrava em funcionamento e tinha acusado uma embarcação fundeada na praia de Brancavará nas nossas águas. Com a mudança de escala de radar para as 24 milhas, esta acusou imediatamente um eco denunciando um navio de grande porte que vinha navegando com ocultação de luzes. A lancha continuou com a mesma rota que era Diu.

Ao passar a linha fortim do mar-Fortaleza, pelas 02:20, ouviram-se fortes detonações que denunciaram intenso fogo de artilharia da Fortaleza para a região da fronteira de Gogolá. O Comandante ordenou rápida manobra e de novo voltou ao mar. Novamente foi captado o eco do navio desconhecido e calculada a distância verificou-se que este navegava a 12 milhas da costa. O Comandante ordenou que se navegasse junto a terra e na zona da Fortaleza, a pouca velocidade de modo a dar tempo para que as embarcações «Folque» e «Dio» saíssem para o mar a fim de se juntarem à lancha «Vega».

Às 02:40 efectuou-se a saída da «Folque», depois de consultado pelo telefone do posto da alfândega o Comandante do Agrupamento, o qual ordenou apenas a saída desta e não a de «Dio» como estava previsto nas ordens secretas transmitidas ao patrão da «Folque», com rumo a Nagoá.

Às 03:00, deu-se o encontro entre as lanchas «Vega» e «Folque», na região costeira de Podamo, em virtude do radar da «Vega» a ter localizado. Pelo radar foi também constatada a aproximação do navio que se presumia ser inimigo e que se encontrava nesta altura a uma distância aproximada de 12 milhas.

O Comandante ordenou rumo à baía de Nagoá seguindo a «Folque» as águas da «Vega».

Às 03:45 foi notado pelo radar a nítida aproximação do navio do qual se continuava a desconhecer a sua nacionalidade, embora se notasse que o mesmo estava a captar todos os movimentos da «Vega» mantendo-se à distância de 1,5 milhas.

Às 03:55, por ordem do Comandante, a Vega» rumou em direcção ao navio desconhecido para melhor o identificar, deixando para trás a «Folque».

Às 04:00, conseguiu-se identificar apenas como sendo um navio de grande calado e notou-se na parte leste uns sinais luminosos «TNT» aos quais o Comandante ordenou não se desse resposta. Por suspeitar das intenções daquele navio, a «Vega» voltou ao encontro da «Folque» com a qual abordou, tendo embarcado rapidamente naquela todo o pessoal que nesta se encontrava. Como, entretanto, o barco que se presumia ser inimigo tivesse feito fogo com granadas iluminantes sobre as lanchas «Vega» e «Folque», com o possível fim de as localizar e tentar abater, o Comandante optou por que se abandonasse a «Folque» o mais rápido possível, sem tempo sequer para retirar todo o material que nesta se encontrava, tendo-a abandonado com o motor a trabalhar, com o fim de a avariar. Depois de todo o pessoal embarcado na «Vega», o navio, já identificado como sendo tipo cruzador, e, ainda sob o efeito das granadas iluminantes alvejou com fogo de metralhadora pesada as lanchas «Vega» e «Folque», pelo que o Comandante ordenou rápida manobra e rumo para Dio na máxima velocidade, tendo a «Vega» fundeado entre o Fortim do mar e a Fortaleza às 05:30.

Às 05:40, foram mandados desembarcar os seguintes homens: A tripulação da «Folque» (cabo-artilheiro 2590 e marinheiro-artilheiro 6216), um civil natural de Dio, criado do Comandante e o cabo-artilheiro 2195, mestre da lancha «Vega», o qual era portador de uma mensagem verbal, das ocorrências anteriores, dirigida ao Comandante do Agrupamento, cuja mensagem lhe foi entregue às 05:45.

Às 06:00, foi entregue ao Comandante da lancha «Vega» uma mensagem verbal do Comandante do Agrupamento. O mensageiro recebeu nova ordem para completa destruição do aquartelamento da marinha. Entretanto a «Vega» mantinha-se fundeada e em vigilância.

Às 06:15, o Comandante ordenou o levantamento de ferro afim de se poder identificar mais completamente o cruzador e se possível recuperar a «Folque» ou destruí-la. À saída da barra e pela proa da «Vega», avistou-se então, a uma distância aproximada de 2 milhas, o cruzador com bandeira de fogo içada no mastro e a da União Indiana no mastro da ré, tirando-se todas as dúvidas sobre a sua nacionalidade. Regresso rápido da «Vega» ao ponto de partida, onde fundeou cerca das 06:35. O Comandante dirigiu-se à câmara e fardou-se de branco, dizendo que assim morreria com mais honra.

Às 07:00, avistaram-se aviões de jacto bombardeando Passo Sêco. Foi dado por esta lancha o alarme sonoro para a Fortaleza. Por ordem do Comandante ligou-se um rádio portátil o qual anunciava o programa «Alvorada musical», seguindo-se um passe-doble, o qual foi interrompido por silêncio total da Emissora de Goa. Mau sinal. O Comandante reuniu toda a guarnição e leu uma mensagem que lhe tinha sido enviada. Essa mensagem era de Maiormar(2) e comunicava que a lancha combateria até ao último cartucho. No caso de ficar inutilizada, deveria ser destruída (ou afundada), tendo o Comandante acrescentado que, nessas circunstâncias, o pessoal deveria dirigir-se para terra, auxiliando os camaradas feridos. Perguntou mais se todos sabiam nadar ao que se respondeu afirmativamente. A seguir as suas breves palavras foram as seguintes: «Rapazes sei que vocês vão cumprir assim como eu e que mais vós quereis! Acabarmos numa batalha aero-naval. Fazemos parte da defesa de Dio e da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala se possível. Algumas despedidas se fizeram e até as fotografias dos entes queridos foram beijadas e guardadas nos bolsos dos calções.

Às 07:30, começou o ataque aéreo contra a Fortaleza. Vindo dois aviões quase em cima da lancha, o Comandante deu imediatamente voz de fogo com as seguintes palavras dirigidas ao artilheiro Ferreira: «Fogo nesse, Ferreira, dá-lhe» e assim começou a luta. Os aviões passaram no seu primeiro ataque à Fortaleza. A bordo da lancha foi tudo feito na normalidade. Todos nos seus postos. Motores a trabalhar e levantou-se ferro rumo fora da barra, mas logo a seguir os dois aviões retornaram para atacar a lancha. Os carregadores começaram a esvaziar-se e a lancha manobrada pelas mãos firmes do Comandante parecia baixar, esquivando-se ao fogo inimigo na sua máxima velocidade. Os ataques sucediam-se tanto de um bordo como do outro, aos quais se respondia com a maior energia. O marinheiro-artilheiro é substituído na peça(3) pelo grumete-artilheiro Ramos e os carregadores sucediam-se. O primeiro golpe sofrido proveio de um ataque vindo do enfiamento do sol e em cruz feito por dois aviões o qual atingiu a lancha entrando a rajada pela amura de estibordo e saindo pela alheta de bombordo, causando a morte imediata do marinheiro-artilheiro Ferreira que foi varado pelas costas quando se encontrava a remuniciar um dos carregadores de peça, cortando as pernas totalmente pelas coxas ao Comandante e causando em poucos momentos o incêndio, pois notou-se imediatamente grande fumarada que saía da casa das máquinas. O Comandante ainda com vida tirou do bolso da blusa um plástico onde se encontravam as fotografias de sua esposa e seu filhinho e deles se despediu com beijos. A ponte imediatamente se tornou um charco de sangue e ouviam-se as palavras de um camarada «bandidos e assassinos».

Motivado por este ataque resultou o incêndio que se propagou à casa das máquinas e seguidamente à ponte de comando e cobertas, o qual pôs termo à resistência da pequena lancha «Vega», tendo esta parado em virtude das bichas de aceleração dos reguladores terem sido cortadas pela citada rajada.

A peça foi abandonada pelo grumete-artilheiro Ramos em virtude de se tornar intransitável o reduto da mesma devido aos buracos causados pelas balas inimigas e às labaredas que já invadiam o convés. «Vamos para o bote, arreá-lo imediatamente, foi a voz do marinheiro Costa, tendo saltado para dentro dele 3 homens que se prepararam para receber o Comandante. Enquanto o marinheiro-electricista Freitas transportava o Comandante que se encontrava junto do leme para a popa da lancha, com o fim de o deitarem dentro do bote para ser levado para terra, deu-se novo ataque dos aviões sendo a lancha metralhada totalmente pelo través de bombordo por consecutivas rajadas, ocasionando novas desgraças: O Comandante foi atingido mortalmente no peito; o grumete-artilheiro Ramos foi ferido na perna esquerda; o marinheiro-telegrafista Costa no ombro esquerdo e nas costas, ficando em estado lastimoso; ao marinheiro-artilheiro Aníbal foi cortada a perna esquerda pela canela; ficou ileso o marinheiro-electricista Freitas que ainda se encontrava na lancha e não foi atingido por muita sorte, pois deitando-se no chão no sentido bombordo-estibordo, ficou entre as duas rajadas cujas balas, esburacando o convés, desapareceram no mar. Este marinheiro, depois do mortífero fogo levantou-se e debruçando-se do lado de bombordo viu os seus camaradas feridos e o bote inutilizado metendo água, obrigando os homens que nele se encontravam a nadarem em direcção à terra mesmo feridos. O grumete-artilheiro Ramos ainda subiu à lancha, tendo, no entanto, de se lançar imediatamente à água em virtude das munições terem começado a explodir. Entretanto, o marinheiro-electricista Freitas também se lançou à água, em direcção a uma balsa que, havia alguns minutos, tinha sido lançada à água a título de precaução e que se tinha afastado da lancha por causa da corrente e do vento. Porém, o marinheiro Silva já a transportava para junto dos feridos com o fim de se efectuar o seu socorro. Nesta altura o marinheiro Aníbal pediu socorro em virtude de se encontrar com uma perna cortada, tendo sido socorrido pelos marinheiros Silva e Freitas.

Entretanto, em virtude do aquecimento do óleo dos comandos do motor principal de BB este desenvolveu avante e a lancha completamente envolta em chamas começou a deslocar-se lentamente e quase passava por cima do marinheiro-telegrafista Costa; este, ao ver-se em tal situação, começou a gritar: «Silva, salva-me que eu morro», ao que este lhe dirigiu as seguintes palavras: «aguenta-te Costa que vou já buscar-te». Chegado ao pé dele o marinheiro Silva perguntou-lhe se se encontrava muito ferido ao que o Costa Ihe respondeu estar varado nas costas e ferido num braço. A lancha depois de alguns metros andados parou na nossa frente, enquanto as munições rebentavam com grande estrondo e grossas colunas de fumo se elevavam no ar, tendo começado a aparecer a flutuar no mar gasóleo (combustível da lancha). Muito lentamente, a lancha foi-se afastando de nós, afundando-se pouco a pouco, arrastando consigo os corpos do Comandante e do marinheiro-artilheiro Ferreira.

2.º Tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo
heróico Comandante da lancha «Vega»

Terrível espectáculo. Começou então a tentativa para a salvação dos feridos, os quais tinham começado a lastimar-se. Procurou-se então empurrar a balsa com os feridos agarrados a ela, mas era impossível; foi então que o marinheiro Silva tirando o cinto de salvação, amarrou um dos seus atacadores à balsa e o outro à cintura para melhor poder nadar e rebocar os feridos. O Freitas tinha uma bóia debaixo do corpo e nadava com um braço para assim auxiliar o seu camarada. Procurou-se seguir rumo à Fortaleza, o que muito lentamente se ia fazendo; só passado muito tempo se notou, pelo ponto tirado a terra, que se estavam a afastar da Fortaleza. Em virtude do vento e da mareta, descaindo para fora, para o lado de Brancavará, o desânimo apoderou-se principalmente dos feridos que não deixavam de pedir: «Silva leva-nos para terra», ao que este respondia: Ânimo rapazes que havemos de chegar». Já havia algumas horas de luta com o mar quando o marinheiro Silva começou a não poder abrir os olhos dizendo para o Freitas que o guiasse em virtude de não ver, por ter os olhos cheios de gasóleo, tendo também a garganta com bastante ardor devido também a algumas goladas de água misturada com gasóleo que fora forçado a ingerir. Novamente se afastaram mais de terra em consequência do vento que os arrastava para fora procurando tentar chegar a terra nadando sempre contra a maré. «Vamos rapazes, todos à uma que estamos quase a chegar», mas era somente para animar os feridos que, sempre com a esperança de se salvarem, tentavam corresponder. Ouviu-se o marinheiro Aníbal dizer que não podia mais, tendo-o então, passado para cima da balsa. Gemidos e ais saíam consecutivamente da boca dos feridos, e as cãibras de vez em quando inutilizavam as pernas dos marinheiros Silva e Freitas. Foi nesta altura que, em frente de Podamo, nos fomos aproximando de terra. Ali, quase junto à terra pedimos socorro a alguns naturais que aí se encontravam mas estes, talvez com receio dos aviões, não o fizeram; assim, mesmo junto à terra estivemos mais de 1 hora a nadar quase no mesmo sítio até que finalmente se conseguiu entrar na rebentação do mar tendo sido lançados para as rochas. Foi nesta altura que se notou o silêncio e a cor muito branca do nosso camarada Aníbal que se encontrava morto, tendo então dito o marinheiro Costa que ele tinha morrido talvez há perto de 1 hora mas que se calara para que não houvesse desânimo. Com a ajuda de um natural pôs-se a balsa em seco, tendo ficado em cima da mesma o corpo do infeliz marinheiro Aníbal. Foi também que reparámos nos ferimentos do marinheiro Costa, deixando-nos como apalermados. O braço totalmente destroçado na zona do músculo e o furo de uma bala de 20 mm que o varava das costas para a frente sobre o rim esquerdo. Colocou-se o Costa em sítio seguro e abrigado enquanto que o marinheiro Silva, com os membros tolhidos, ali ficou estendido recuperando energias, indo o marinheiro Freitas, descalço, cheio de sede e fome, a alguns quilómetros de distância em busca de socorros. Foi então que, mais tarde, acompanhados pelo Freitas apareceram o médico e dois maqueiros no local onde tinham ficado. Chegados ali, alguns naturais acordaram o marinheiro Silva que entretanto dormia, o qual procurando pôr-se em pé não o conseguiu, indo a arrastar-se, só muito lentamente se reanimando. Entretanto foi-se à procura do marinheiro Costa que gemia e pedia àgua. Pouco depois apareceram alguns naturais trazendo água e dando-a aos marinheiros, tendo então o Silva dado de beber ao Costa. Logo após a chegada do médico e dos maqueiros no jeep imediatamente se procedeu à acomodação do Costa no mesmo, bem como dos seus camaradas Silva e Freitas, dirigindo-se o jeep para o hospital, onde ficaram internados. Estes 3 homens, marinheiro-fogueiro n.º 5645 Silva, marinheiro-electricista n.º 5353 Freitas e marinheiro-telegrafista Costa chegaram a terra depois de 7 horas de nadar.

Na altura do afundamento da lancha o grumete-marinheiro Ramos, apesar dos seus ferimentos, nadou sozinho para terra, próximo da Fortaleza, tendo passado por baixo do fogo que o cruzador lançava para a Fortaleza, tendo conseguido salvar-se apesar de chegar a perder as esperanças, em virtude do intenso fogo com que o cruzador bombardeava a Fortaleza. Chegado a terra, com a ajuda de alguns soldados, foi conduzido ao hospital onde ficou internado.

Ainda na altura do afundamento da lancha, o marinheiro-fogueiro-motorista Nobre, tendo sido o primeiro a abandonar a lancha nadou com grande vigor afim de se afastar da mesma que se encontrava a arder e a darem-se explosões a bordo, depois de olhar para ver se via alguns sobreviventes reparou somente na balsa de salvação e, não avistando nenhum dos seus camaradas, pensou que todos tivessem morrido quando se encontravam no bote, em virtude do ataque dos dois jactos. Nadou então em direcção ao fortim do mar, porém, nesta altura, foi o fortim alvo de grande bombardeamento, pelo que teve de desistir do seu intento e nadar em direcção a terra indiana, onde chegou exausto, quase sem forças, após 7 horas de grande esforço. Ali foi recolhido por naturais e feito prisioneiro passados 45 minutos, tendo sido amarrado e levado para a cidade de Una onde esteve encarcerado durante 42 horas, tendo sido interrogado sobre: como tinha aparecido ali; há quanto tempo tinha começado o fogo e se os aviões eram indianos. Desconfiaram ainda que ele não fosse marinheiro, o que justificou pelas tatuagens que tem nos braços. Afirmaram-lhe ainda que Diu já se tinha rendido. O intérprete era um goês.

Este marinheiro viu a lancha afundar-se completamente em chamas.

Após o combate aéreo-naval havido com a lancha «Vega» e depois do seu afundamento e da salvação de alguns dos seus tripulantes é que se pôde calcular as baixas sofridas,
verificando-se:

Mortos:

Comandante 2.º tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo;
Marinheiro-artilheiro-apontador n.º 10030 — António Ferreira;
Marinheiro-artilheiro da RM. n.º 10519 — Aníbal dos Santos Fernandes Jardim.

Feridos:

Marinheiro-telegrafista n.º 11027 — António da Costa Bagoim;
Grumete-artilheiro n.º 13032 — Venâncio dos Ramos.

Ilesos:

Marinheiro-fogueiro n.º 5645 — Armando Cardoso da Silva;
Marinheiro-electricista n.º 5353 — Francisco Mendes de Freitas;
Marinheiro-fogueiro n.º 6788 — António da Silva Nobre.

Nota: — No dia 18 de Dezembro de 1961 verificaram-se ainda os seguintes factos:

Às 06:30, destruição de aquartelamento da marinha pelos cabos-artilheiros n.º 2195, António Fernandes da Silva Gonçalves (mestre da lancha «Vega») e n.º 2590 — José de Azevedo (patrão da embarcação «Folque»).

Às 07:00, destruição total do material hidrográfico pelos cabo-artilheiro n.º 2590 — Azevedo e marinheiro-artilheiro n.º 6216 — José António Botinas, este da «Brigada Hidrográfica do Estado da Índia.»

Este, o relato da acção da lancha «Vega» em águas de Diu, quando da invasão indiana em 1961.

Mais tarde, através de um oficial da aviação indiana que esteve em Diu, houve conhecimento que a lancha «Vega» havia atingido três aviões, desconhecendo-se, porém, a natureza dos danos causados.

O comportamento da lancha «Vega» foi, de facto, brilhante e poderemos dizer, servindo-nos de palavras do Comandante do Agrupamento, que «a guarnição desta pequena unidade naval escreveu páginas que honram a tradição da Armada Portuguesa.»


(1) A lancha «Vega» era uma pequena unidade naval de 18 toneladas de deslocamento, com 17 m de comprimento, armada com uma metralhadora de 20 mm e uma guarnição de oito homens.

(2) NA — Indicativo de Estado Maior da Armada.

(3) Peça de 20 mm.





quinta-feira, 14 de janeiro de 2016


(Obra da tonta da ministra laranja Teresa Morais)

Fábrica de intolerantes


Helena Matos

O guia para «Acolhimento de refugiados» agora editado pela Direcção-Geral da Saúde é um prémio para os fundamentalistas. Nem as consultas só com mulheres lá faltam.

«Por imperativos de ordem cultural e religiosa, deve ter-se em atenção a escolha dos profissionais e mediadores no relacionamento com certos grupos. Por exemplo, poderão existir restrições de género consubstanciadas na recusa de mulheres serem observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino. É de extrema importância que estas limitações sejam esclarecidas e respeitadas, para que o apoio tenha a maior qualidade possível.» – Não, não é engano, estamos mesmo a ler: «É de extrema importância que estas limitações sejam esclarecidas e respeitadas, para que o apoio tenha a maior qualidade possível.» E voltemos ao que aqui se designa como «limitações»: «recusa de mulheres serem observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino».

Em que remoto país serão dadas estas instruções? Que estranho mundo será esse em que as mulheres (ou os homens por elas) podem recusar ser «observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino»? E em que a essa atitude (que nós sem sombra de dúvida classificamos como discriminação atávica ou intolerável exigência) é aqui docemente colocada ao nível da «restrição» e da «limitação»?

Claro que isto não pode ser Portugal. Pois não pode mas é. E é Portugal agora, em 2015, e não há um século. Estes conselhos fazem parte do recentemente publicado «Acolhimento de refugiados: Alimentação e necessidades nutricionais em situações de emergência», editado pela Direcção-Geral da Saúde, no âmbito do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS).

Este guia, anunciado há dias com pompa e circunstância mediáticas, apresenta-se a si mesmo como um «documento inovador a nível nacional». Do carácter inovador não duvido sequer um segundo pois nem nos mais vetustos documentos editados pelas autoridades de saúde deste país se previa que as mulheres recusassem ser «observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino». Nem nos nossos maiores delírios imaginámos que algum dia teriamos de organizar os serviços de saúde de modo a prever a «recusa de mulheres serem observadas ou cuidadas por profissionais do sexo masculino.»

A inovação chega assim anexa a algo que sempre vimos como sinal de atraso e de falta de respeito pelos serviços e técnicos de saúde. Não se percebe aliás se estas «restrições de género» se prendem apenas com os cuidados de saúde mais básicos ou se também serão extensíveis às diversas especialidades médicas. O que no limite nos levará ao paradoxo de além de discutirmos se o hospital A deve ter neurocirurgião e o centro de saúde B psiquiatra termos também de fazer essas escolhas em função do sexo dos profissionais de saúde (na era APC – Antes do Politicamente Correcto – isto chamava-se discriminação não era?).

Curiosamente, ou talvez não, este manual recomenda a quem lida com os refugiados: «Fique atento aos seus próprios preconceitos e preferências e coloque-os de lado». Pois, está a contradição desfeita: o que é preconceito é acharmos preconceituoso o comportamento da mulher (ou do seu marido) que rejeitam que ela seja observada por um médico. Complicado? Só na aparência.

Aos ingénuos que neste momento se interrogam sobre a razão de ser deste tipo de recomendações num guia de alimentação, no caso para refugiados, recordo que os totalitarismos sempre tiveram como veículos privilegiados dos seus ditames as recomendações e a legislação produzidas pelas autoridades sanitárias, logo a começar por essa espécie de estrutura ancestral do progressismo totalitário que foi o Comité da Saúde Pública ao qual se devem muitas medidas que instauraram o Terror na Revolução Francesa. E na verdade este manual de «Acolhimento de refugiados: Alimentação e necessidades nutricionais em situações de emergência» vai muito além das questões alimentares e nutricionais propriamente ditas, como bem percebem aqueles que o consultam.


Mas mesmo que este guia tivesse ficado pelas páginas dedicadas à alimentação as suas recomendações colocam questões muito sérias sobre o que se entende por acolher ou receber refugiados, sobretudo quando esses refugiados são muçulmanos.

Primeiro temos as observações óbvias: interdição de bebidas alcoólicas (que também estão presentes, como lembra o guia, em «tempero, em caldos, marinadas e sobremesas») e da carne de porco e seus derivados, a saber fiambre, salsichas, chouriço, presunto, mortadela, paio, salpicão, farinheira, morcela, tripas, fígado, pulmão, banha… (digamos que o porco e seus derivados estão mais ou menos presentes em tudo que nos apetece comprar nesta altura do ano).

Em seguida, lembram-nos os zelosos autores deste guia que também se devem evitar as gelatinas de origem animal e os alimentos com extracto de baunilha por utilizarem álcool na sua composição ou no processo de produção.

Digamos que até aqui será possível atender a tantas restrições, embora os refugiados devessem ser esclarecidos que não sendo Portugal um país muçulmano muitos dos alimentos aqui comercializados contêm gorduras animais ou álcool: uma simples fatia de bolo com passas transforma-se nesta perspectiva num problema de intolerância religiosa caso as passas tenham estado a ganhar sabor em vinho do Porto.

Enfim, uma coisa será não servir entrecosto no churrasco aos refugiados outra bem diversa passa por ter de encontrar bolachas sem baunilha.

Mas passemos adiante porque outros e bem mais sérios problemas são colocados neste guia pelo item dedicado à contaminação cruzada, conceito que no caso nada tem de sanitário mas sim de religioso: «Para a manipulação de produtos de origem suína nas instituições que fornecem e/ou preparam alimentos para os cidadãos deslocados, devem-se aplicar os mesmos processos de segurança alimentar de modo a evitar a contaminação cruzada, ou seja, os equipamentos, superfícies e utensílios que entrem em contacto com produtos de porco devem ser convenientemente lavados e higienizados

Face à logística inerente a lavar e higienizar a cada refeição «os equipamentos, superfícies e utensílios que entrem em contacto com produtos de porco» cabe perguntar como se procederá caso nessas instituições estejam também refugiados para quem o porco seja a base da sua alimentação?

Não se pense que com as outras carnes os problemas são menores: «Relativamente a outros tipos de carne, em algumas culturas e seguindo determinadas correntes do Islão, poderão haver reservas sobre a forma como o animal é abatido, havendo especificidades rituais próprias que terão que ser cumpridas.»

Terão que ser cumpridas? Sempre? Para todos? E alguém interrrogou os refugiados sobre estes assuntos?

Não deixa de ser irónico que fugindo os refugiados sírios de uma guerra causada pelos fundamentalistas islâmicos, aqui chegados esses mesmos refugiados se confrontem com serviços de acolhimento dispostos a satisfazer as exigências das suas correntes radicais. Aliás o mesmo raciocínio tem sido aplicado na questão das caricaturas de Maomé em que de repente o Ocidente dá como verdadeiro que todo o Islão considera ofensiva a representação do profeta, o que é manifestamente falso pois durante séculos e séculos os muçulmanos representaram Maomé.

Ironias e patetices de lado, o que encontramos em muita da linguagem e das estruturas de acolhimento a refugiados e emigrantes são as teses do relativismo, teses essas que exponenciaram os problemas de integração. E que por exemplo, levam regularmente à anulação em França de várias festas escolares pois já não basta haver recipientes separados para alimentos com carne de porco e sem carne de porco: há o problema da partilha das mesas, dos frigoríficos e do espaço (o conceito de contaminação cruzada é uma espécie de caixa de Pandora!) Que levam também a agressões recorrentes nos hospitais porque estes não estão dotados de equipas exclusivamente femininas. Que obrigam a alterações nas aulas de natação…

Ao identificarem-se os valores de quem acolhe com preconceitos e ao assumirem-se como «especificidades rituais próprias que terão que ser cumpridas» e limitações que terão de «ser respeitadas», comportamentos e opções que no país de acolhimento não se toleram está a criar-se uma cultura de exclusão que certamente será terreno fértil para radicalismos de todo o tipo e gerará interessantes oportunidades de emprego a legiões de mediadores culturais e cientistas sociais. Mas à excepção destes grupos ninguém mais sairá beneficiado. Se seguirmos o que está inscrito neste guia de «Acolhimento de refugiados: Alimentação e necessidades nutricionais em situações de emergência» acabaremos com refugiados muito bem alimentados mas duvido que acabemos com cidadãos integrados.