BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A TROPA APAGOU-SE E O ESTERTOR DA TERCEIRA REPÚBLICA


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

«Considerando …

Considerando …

Considerando …

Manifesto a minha concordância para a autorização do lançamento da empreitada de obras públicas com a designação PM001/VNBarquinha – Polígono de Tancos
— «Reconstrução da Vedação Periférica Exterior no Perímetro Norte, Sul e Este dos Paióis Nacionais de Tancos», com o preço base de (euro) 316 000,
ao qual acresce o IVA à taxa legal em vigor».

Despacho 5717/2017 de 05 de Junho, do MDN (DR n.º 125/2017, série II de 30/6/2017

Apetece dizer, tarde piaste!...

E também apetece perguntar como é que, anúncios destes sobre matérias sensíveis que deviam ser classificadas, são públicas…

O alarido que para aí vai sobre o assalto aos paióis do Exército em Tancos, Deus meu!

Tanta virgem ofendida!

Tanta admiração, tanta indignação, tanto espavento!

Será que acordaram agora ou têm vivido noutro planeta?

Então há cerca de 35 anos (trinta e cinco) que os sucessivos governos, parlamentos e presidentes andam a destruir paulatina e sistematicamente a multisecular Instituição Militar e agora querem que as coisas funcionem?

Trinta e cinco anos não são 35 semanas ou meses (o que já seria grave)! Tudo isto com a ajuda pressurosa da comunicação social e de uma chusma imensa de intelectuais, políticos de partidos, comentadores, baladeiros e filhos d’algo avulsos e, de repente, incomodam-se por a coisa dar para o torto?

Sabemos há muito que a generalidade da população está ignorante de tudo e mal preparada para a vida em todos os campos, pois a Escola deixou de ser séria para se transformar num recreio permanente onde se despejam alegremente biliões de euros; meio imbecilizada que está, pela acção deletéria dos jornaleiros (que não jornalistas) de serviço e confundidos e descrentes pela infrene demagogia (a doença infantil da Democracia) vertida pela actuação dos agentes políticos – que já não há saco que aguente – e só acorde quando há uma bronca qualquer.

O que de resto também não os preocupa muito desde que no dia seguinte possam ir até à praia, passear no centro comercial ou mandar uns «shots para a blusa»!

Para além do mais é uma questão de horas até acontecer uma outra barbaridade qualquer, passado o que, já ninguém se lembra da do dia anterior.

O que se passou em Tancos – porque será que só agora há este alarido, quando já assaltaram o paiol dos Comandos, na Carregueira; dos Fuzileiros, em Vale do Zebro; da PSP, e outros roubos menores que não chegaram a vir a público? – não deve ser objecto de qualquer admiração.

O que nos deve admirar – e essa é a pergunta que se impõe – é isto: depois das sucessivas barbaridades cometidas contra as Forças Armadas (que temos denunciado activamente nos últimos 40 anos), como é que ainda há alguma coisa que funciona?

De facto a Instituição Militar tem uma «endurance» absolutamente notável!

Nos últimos 35 anos – note-se que são problemas acrescidos e continuados – tem-se subvertido todos os fundamentos em que assenta a Condição Militar; houve erosão contínua do estatuto remuneratório e benefícios (que eram poucos) associados; acabou-se com a Justiça Militar; deram-se facadas violentas na Disciplina; invadiu-se o ensino militar através de exigências originadas no mundo universitário (e político) civil, no mais das vezes desajustadas da realidade e necessidades militares (mesmo assim este âmbito ainda é o que vai funcionando menos mal); esvaziou-se a hierarquia militar de competências, a ponto de hoje um general não ter autoridade para promover um soldado e ser difícil a um comandante comprar um parafuso.

Acabou-se com o Serviço Militar Obrigatório; torpedeou-se completamente o sistema de promoções; reduziu-se e cativou-se despudoradamente os orçamentos, sem qualquer paralelo noutras áreas da vida nacional; reduziram-se os efectivos, o sistema de armas e o dispositivo a números ridículos e abaixo de qualquer funcionalidade – está tudo preso por fios: não se cumprem as Leis de Programação Militar; não existem reservas de guerra, nem sistema de mobilização; a sustentação logística é medíocre; não existe representatividade política da IM e ninguém a defende institucionalmente – a não ser por palavras de circunstância.

Ora tudo isto – que está longe de esgotar a lista de erros, barbaridades e malvadezas – tinha de afectar gravemente o Moral da tropa. E afectou!

E o Moral é a mola real que mantém um Exército de pé.

As coisas, aliás, estão de tal modo graves que agora até afectou a Moral dos militares, vide as recentes prisões de militares da Força Aérea!

Há muito que os três Ramos sobrevivem apenas para manter no estrangeiro umas pequenas unidades ou grupos de instrutores, que o poder político entende ter interesse enviar para o exterior, onde por norma se têm portado muito bem (enfim, também houve alguns fiascos individuais aqui e ali), mas até isto pode ter os dias contados!

O resto passou ao campo da quase ficção. Destruir um Exército faz-se num instante (veja-se o que aconteceu nos meses a seguir ao 25 de Abril); pô-lo de pé novamente leva anos ou até décadas. É como a floresta que arde…

A grande responsabilidade, pois, de tudo o que se tem passado recai no Poder Político, devido à sua reiterada ignorância, má-fé, irresponsabilidade e, até, revanchismo.

No meio disto tudo, as Forças Armadas estão isentas de responsabilidades? Infelizmente não estão.

As Forças Armadas sendo a instituição nacional mais antiga e hierarquizada da Nação, juntamente com a Igreja (por isso têm sido as mais atacadas), estão muito dependentes dos comandantes que têm e cuja hierarquia culmina nos respectivos Chefes de Estado-Maior. Embora nem tudo se possa ou deva empurrar para cima…

O que é um facto é que, sobretudo depois das chefias militares terem passado a ser essencialmente escolhidas através de critérios políticos, desde o primeiro mandato do Professor Cavaco Silva, como PM, as coisas pioraram significativamente.

Percebe -se que estejam à partida condicionados, mas não se pode aceitar tal estado de coisas.

Ora o que se tem verificado é que a hierarquia militar deixou de existir em termos práticos: ninguém os vê – a não ser com ar de perú em vésperas de Natal, a espreitarem atrás do senhor Ministro – e é raro conhecer-lhes uma ideia, um pensamento, uma doutrina.

Não se sabe o que fazem e ninguém lhes liga nenhuma.

Não se conseguem, por norma, entender sobre coisa alguma, e têm dificuldade em fazer frente seja ao que for. E quando o fazem não se sabe nada. Resultado, continuam a não lhes ligar peva.

Afirmam sempre comedidamente que têm de trabalhar com o dinheiro que o governo da Nação (como se esse termo pesasse alguma coisa no conceito dos actuais políticos) atribui aos Ramos, mas não se manifestam quanto à impossibilidade de continuarem a cumprir qualquer missão atribuída, seguindo a velha máxima que não há dinheiro a menos mas sim missão a mais...

Às vezes (poucas) chega-lhes a mostarda ao nariz e demitem-se, nem sempre pelos melhores motivos. Uma atitude que após dois minutos de «glória», se torna inconsequente, não só porque não tem repercussão nas fileiras e vem logo outro, prestes, ocupar o lugar (ficando ainda mais na mão do ministro que o indigita), e porque depois de se «libertar» do fardo, nunca explicam minimamente as razões que os levam a abandonar a função.

Por isso tem faltado aqui muita coragem, o que desde tempos imemoriais é considerada uma virtude e um atributo dos militares…

E já nem falo daqueles que se deslumbram pela fofice das alcatifas…

Tudo, porém, muito bem explicado e camuflado através de termos como «sentido de Estado»; «prudência»; «não prejudicar o Ramo»; Ética, etc., e, por vezes, um mais pueril «não estou para me chatear».

Acho que serve para aliviar a consciência.

O ridículo é tanto que quando foi do ataque às torres gémeas, em Nova Iorque, em 2001, colocou-se o País no estado de ameaça «Alfa»; até hoje «esqueceram-se» de o modificar…

*****

«R.I.9 As sentinelas dos terrenos do paiol farão fogo sobre quem tente escalar os muros.1948».

Dizeres escritos numa placa de rocha
Existente nos terrenos do mesmo.[1]

Finalmente sobre a gravidade do roubo dos paióis, ainda parece que querem agravar tudo.

Não há soldados para fazer nada; não há cabos quarteleiros para pernoitarem e, ou, cuidarem dos paióis; não há sequer por vezes, já, oficial de dia, mas sim um graduado de serviço – que por norma não tem pessoal para fazer o serviço…

Não há dinheiro nem pessoal para manter ou substituir vedações; os espaços entre os paióis não estão minados pois isso é contra os «direitos do homem»; não há electrificação das redes pois não há dinheiro para tal tecnologia «de ponta» que ainda se arrisca a matar uma ovelha que se encoste; o sistema de vídeo vigilância estava avariado, etc.

O pessoal da ronda passava de vez em quando, e ainda bem que desta vez não passou, pois se tivesse confrontado os assaltantes, ou não faziam nada e davam meia volta ou arriscavam-se a ser abatidos.

Porquê, perguntarão: por duas gravíssimas razões: primeiro porque o poder político não quer que os militares possam defender violentamente as instalações e material à sua guarda não lhes outorgando autoridade para tal.

Deste modo qualquer sentinela que pregue um tiro em alguém está tramado para o resto da vida e, pelos vistos, não pode esperar que alguém assuma a responsabilidade do acto. Mas também porque, desde o tempo do General Firmino Miguel, como CEME, o pessoal de serviço ou não tem munições reais ou estas existem em carregadores específicos que estão por regra, lacrados e, ou, têm duas a três munições de salva, por cima da primeira munição real.[2]

Todos os responsáveis sabem que isto é verdade.

Por tudo isto, há muito que as Forças Armadas Portuguesas se podem considerar decalcadas da célebre charla da guerra do Solnado![3]

Acresce que há enormes suspeitas de que pode haver conivências do interior, o que não espantará vivalma, dado que, desde 1974, que não temos serviços de informações (e há muito que estão entregues a pessoal aparentemente membro das Maçonarias…); os registos criminais deixam muito a desejar e o crivo não é grande coisa. Parece que também é contra os direitos do homem, agora também dos animais.

Ora o General – Chefe de Estado-Maior do Exército, aqueles que o antecederam, bem como os dos outros Ramos, estão carecas de saber tudo isto que acabei de dizer.

E não podem alegar que não sabem, pois isso significaria que seriam ignorantes, incompetentes ou estiveram a dormir na forma.

E por isso se estranha também, porque é que segundo notícias vindas a público, o CEME terá exonerado (temporariamente) quatro Coronéis e um Tenente-coronel sitos nas unidades militares da área de Tancos. E tenha acrescentado que seria para não «interferirem» nas investigações (será que os segundos comandantes já não interferem?).

Se isto é verdade, é muito grave: primeiro essa da exoneração temporária, não existe nem faz qualquer sentido (o PR já enviou até um remoque acerca disto!) – tão pouco foi aplicada no recente processo ocorrido nos «Comandos»; e dar como racional, a hipotética interferência dos seus comandantes (como?) no processo, é de uma inconveniência e gravidade extremas. E que irá ter consequências.

Aparenta, até, ser uma manobra dilatória, de mãos dadas com o senhor MDN a fim de salvaguardarem os seus imaculados traseiros.

A situação é de tal modo grave (algum dia tinha que rebentar) que o Conselho de Chefes Militares, não se deve alhear, como costume, do que se passa. Isto toca a todos e deixou apenas de ser uma derrocada institucional e nacional (há muito anunciada), para passar a ser uma vergonha internacional inominável.

Só falta assistirmos a um General CEMGFA vir frente às camaras dizer que está tranquilo…

E sobre os assaltantes que, pelos vistos entraram calmamente pela porta do paiol, ninguém sabe nada.

Podem, senhores governantes limpar as mãos à parede e agora já nem conseguem responsabilizar o «cabo quarteleiro», pela simples razão de que é uma figura do passado.

O País e as Forças Armadas só não bateram no fundo por isto: deixou de haver fundo.

Não foi nestas Forças Armadas em que assentei praça.

E sinto-me envergonhado.


[1] R.I.9 – Regimento de Infantaria 9, na altura sito em Lamego.

[2] Para além disso, há muito que o comum dos militares só pode dar 10 tiros reais, para não defraudar o real tesouro e por isso se tornar um risco dar poderes a um sentinela sobre coisas que ele não domina…

[3] Alerto há anos para a forte possibilidade de um dia haver um atentado em Pedrouços, onde estão reunidos, cursando, centenas de oficiais. Pois bem, há muito que não há sentinelas e à Porta de Armas está um elemento de uma empresa de segurança civil…





«No tempo de Salazar, os ministros mandavam nos ministérios»




ENTREVISTA AO GENERAL GARCIA LEANDRO
SOBRE OS ACONTECIMENTOS NO EXÉRCITO.
(PEDRO RAINHO, OBSERVADOR)
(EXCERTOS)

O general Garcia Leandro diz, em entrevista ao Observador, que se o CEME avisou o ministro da falta de segurança, a culpa é do ministro. Se não o fez, a responsabilidade é dele.

general Garcial Leandro, 77 anos, foi vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, conselheiro de Portugal na NATO, comandante da missão das Nações Unidas no Sahara Ocidental. Uma das lições que aprendeu na sua longa carreira militar explica-se assim: a missão cumpre-se sempre, até se pisar a linha vermelha. No assalto ao armamento de guerra de Tancos, essa linha foi ultrapassada quando se encarou como «rotina» uma fragilidade na segurança que esteve dois anos para ser resolvida e que abriu a porta ao furto do armamento. Se tem um responsável em mente para o que se passou no parque de paióis de Tancos, Garcia Leandro não assume, mas diz: «Se o CEME alertou o ministro para as consequências graves que esta situação tinha, o responsável é claramente o ministro. Se não alertou, a responsabilidade é dele.»

— Dizer que tem havido outros assaltos do mesmo género que o de Tancos em países como França ou Estados Unidos retira alguma gravidade ao que se passou na semana passada?

— Não, para mim, não tira. O que se passou em Tancos é uma coisa, o resto é outra. Com o mal dos outros estou eu bem.

— Então de que serve este argumento usado pelos responsáveis políticos?

— Existe para dizer que não é caso único, mas o que me preocupa é este caso, este país, com todas as consequências que isso tem em termos de segurança para as populações e para a imagem do país no exterior.

— Está-se a dar demasiada importância ao que aconteceu em Tancos?

— Não, não está. Isto é muito grave.

— Já disse que isto não podia ter acontecido.

— Não podia. A segurança nos depósitos de material de guerra sempre foi uma das preocupações das autoridades militares. Os paióis sempre foram uma grande preocupação. Isto é algo que nunca aconteceu na minha vida. Por todos os sítios por onde andei em guerra e, sem ser em guerra, em missões internacionais… Para uma coisa destas são precisos lapsos, asneiras, limitações grandes de meios.

— O que revela este assalto?

— A minha abordagem não tem nada de corporativo ou pré-partidário, não tem pré-posições a esse respeito. É só uma questão de interesse nacional e de avaliar o que se deve fazer para correr bem. Há aqui três ou quatro aspectos enquadrantes. Um deles é a cultura militar, que é fazer sempre a missão, mesmo com cortes de meios. Imagine: tem um orçamento de 100 mil euros e faz a missão. Cortam 10 mil, faz. Cortam mais 10 mil e faz. Até que a casa cai. A cultura é tentar sempre cumprir a missão.

— Sempre?

— Há momentos em que, como avisei várias vezes, a casa pode cair, o castelo de cartas vai abaixo. Há uma linha vermelha que não se pode ultrapassar.

— Neste caso, foi passada a linha vermelha?

— Isto já vem de trás, é um acontecimento que não se esperava. Acontece também que, do ponto de vista do sistema de Governo, houve uma grande alteração. Mesmo no tempo do professor Salazar e de Marcelo Caetano, os ministros mandavam nos ministérios. Tinham muito ou pouco dinheiro, mas o ministério era piramidal. O ministro estava no topo e tinha o seu dinheiro. De há 15 anos a esta parte, com a evolução da tecnologia e com a necessidade de controlar as finanças, o Ministério das Finanças entra, transversalmente, nas direcções gerais todas. Entra, corta, tira e põe. Os ministros não mandam, têm uma falta de poder muito grande. Até pode haver uma grande compreensão daquilo que são as necessidades da sua área, mas têm de negociar isso com o Ministério das Finanças. As Finanças têm uma acumulação de assuntos que, tendencialmente, fazem paralisar a máquina e, por outro lado, obrigam os ministros a negociar caso a caso. É um drama permanente.

— Essa intervenção das Finanças deve ser limitada?

— Há assuntos, tais como a segurança nacional que não podem ser tratadas dessa maneira. Não estamos a falar de ter ou não ter papel A4.

— Isso exige que na tutela esteja um ministro com poder político.

— Tem de ter poder político e compreensão, não pode ter uma posição em que diz que está ali para dar ordens. (...)

(...)

— Estávamos a falar de linhas vermelhas. Como é que esse princípio se aplica ao assalto a Tancos?

— As chefias militares das Forças Armadas têm missões para cumprir e essas missões têm de ter meios, uma estrutura, orçamento, pessoal. Na questão dos paióis, o que se passou é que, no tempo do dr. Aguiar Branco, o corte de meios em pessoal, em finanças e em material foi muito, muito, muito grande. As unidades ficaram muito reduzidas de meios, nomeadamente humanos.

— Ao ponto de já não se poder cumprir a missão?

— Isso não sei responder. Mas alguém há-de saber responder a isso. Este Governo ainda não conseguiu inverter isso. Agora, temos de ter a noção de que vivemos num tempo de paz e de calma, mas o mundo não vive. Nós estamos aqui relativamente tranquilos mas o mundo não está. Temos de estar preparados para qualquer situação de imprevisibilidade em que tenhamos de responder no âmbito da segurança nacional, da segurança na aliança Atlântica, em que temos o nosso papel, dentro da UE, dentro da CPLP, dentro da ONU e queremos sempre tomar parte disso. Mas não podemos fazê-lo deixando o interior do país, as ilhas e o mar completamente desprotegidos. Quando chegamos à questão dos paióis, a localização daquela estrutura obriga a que tenha uma segurança óbvia, até porque é a zona onde há mais meios militares. Se os meios militares baixarem até um determinado nível, a partir de certa altura não se pode garantir a segurança.

— Os dados que foram conhecidos indicam que a segurança naquela infraestrutura estaria a cargo de 10 militares.

— Mas não foi sempre assim, já foram 30. E 30 não é a mesma coisa que 10, independentemente da videovigilância, porque em 1980 não havia videovigilância. Mas o mundo também era diferente. Isto de se fazerem assaltos a estes locais não existia.

— Portugal não acompanhou essa evolução em termos de segurança?

— Por um lado, tivemos os cortes no orçamento e no pessoal. Por outro lado, tínhamos o sistema de videovigilância que estava obsoleto e ia ser substituído. Onde é que está a falha? A falha está em dizer que determinado equipamento não está em condições, que esse equipamento é vital e não pode ser sujeito à rotina da burocracia.

— Não se pode esperar dois anos para intervir…

— Tem de ser já. E aí é que o chefe militar tem de dizer que não se responsabiliza e perguntar ao ministro se assume a responsabilidade. Tem de dizer que não tem condições para fazer a segurança. Normalmente, quando as coisas são postas assim, a resposta é positiva. As pessoas não querem ficar com a responsabilidade em cima. Mas, historicamente, não são os ministros que ficam com a responsabilidade em cima, são os generais e os almirantes. Situações de grande responsabilidade não podem ser tratadas como situações de rotina, são situações excepcionais e não podem ter uma decisão de rotina.

(...)

— O comandante do Exército não deve ter essa capacidade independentemente das circunstâncias?

— Tem. E tem de avisar: «Olhe que a partir de agora não garanto a segurança disto.» E admito que tenha avisado. Agora, não sei de quem é a responsabilidade.

(...)

— Fica a sensação de que está tudo refém dos inquéritos. Não há tomadas de posição pessoais sobre as falhas, não se assume responsabilidade e não se tiram consequências se não houver um inquérito que atribua essa responsabilidade.

— O CEME acha que estava a fazer o melhor que podia com a segurança dos depósitos de material de guerra. Não tenho dúvidas de que isso é verdade, mas dentro de uma linha de rotina. Não numa linha de situações excepcionais. Nessa linha de situações excepcionais, não respondeu. No mecanismo de pensamento militar, em todas as situações têm de se ver as hipóteses, as chamadas modalidades de acção: qual é a modalidade mais perigosa e qual é a mais provável. Neste caso dos paióis, tinha de se fazer um cuidadoso misto. Julgo que nunca acreditaram na possibilidade de aquilo ser assaltado. Porque se tivessem acreditado o esquema montado teria sido diferente.

— O senhor tem um responsável identificado, só não quer apontá-lo.

— Pode deduzir isso do meu pensamento, mas eu não sei qual é o responsável. Porque se o CEME alertou o ministro para as consequências graves que esta situação tinha, o responsável é claramente o ministro. Se não alertou, a responsabilidade é dele.

(...)

— António Costa tem de intervir directamente neste processo?

— Ele está no topo do executivo.

— Em Setembro morreram dois instruendos do curso de Comandos e, nesse momento, o CEME não suspendeu nem exonerou qualquer responsável militar. O CEME devia ter agido?

— Não lhe sei dizer porque a estrutura do regimento de Comandos obriga a vários patamares de responsabilidade. Pode ter acontecido que ao nível do comando tudo tenha sido bem feito e tenha sido mal executado por outras pessoas. Nestas forças especiais, existe gente muito nova cheia de vontade de fazer coisas e que depois exagera.

(...)

— Tancos não é a única infra-estrutura com elevado grau de sensibilidade. Há outros pontos em que a segurança possa estar comprometida e para que se deva olhar?

— Julgo que não é a minha opinião que conta. Julgo que isso é imediato. Assim que isto aconteceu até o senhor ministro se envolveu e disse que tinha de ser feita uma fiscalização cuidadosa noutros paióis. No que respeita à dimensão e importância, os maiores são os de Santa Margarida. Existe um depósito de material NATO, na margem sul, mas é da NATO.

— O assalto a Tancos teve grande repercussão internacional. A imagem do Exército fica fragilizada com este episódio?

— Acho que sim, o próprio CEME disse isso.

(...)

— E não podemos ficar a perder na relação com os parceiros da NATO, parceiros europeus, etc.?

— O facto em si é muito mau, mas daí a tirar consequências gerais para o futuro não creio que possa acontecer.

— Que lição se deve tirar de tudo isto?

Nunca deixar passar a linha vermelha. É bom não esquecer isto: quem fica sempre com a responsabilidade são os chefes militares. Os políticos passam, mudam, vão fazer outra coisa, até podem ser substituídos, mas não ficam com a responsabilidade. O chefe militar tem de ter o cuidado de não deixar entrar estas situações em incapacidade de cumprimento.

— Fazendo esse alerta, e não havendo a tal resposta por parte do poder político de que falava, o chefe deve sair?

— Isso tem de ser analisado caso a caso, pessoa a pessoa. Alertando, conforme a gravidade da situação, então deve dizer que não contem mais com ele.

(...)





quarta-feira, 5 de julho de 2017

OS «COMANDOS» E O SEU DIA


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador

«Senhor, umas casas existem no vosso reino onde homens vivem em comum, comendo o mesmo alimento, dormindo em leitos iguais. De manhã a um toque de corneta se levantam para obedecer. De noite a outro toque de corneta se deitam, obedecendo. Da vontade fizeram renúncia como da vida. Seu nome é sacrifício. Por ofício desprezam a morte e o sofrimento físico. Seus pecados mesmo, são generosos, facilmente esplêndidos… Por essa divina humildade que os faz semelhantes a coisas eles se levantam acima de outros homens. Corações mesquinhos lançam-lhe em rosto o pão que comem como se os cobres do pré pudessem pagar a Liberdade e a Vida. Publicitários de vista curta acham-nos caros de mais, como se alguma coisa houvesse mais cara que a servidão. Eles, porém, calados, continuam guardando a nação do estrangeiro e de si mesma. Pelo preço da sua sujeição eles compram a liberdade para todos, e a defendem da invasão estranha e do jugo das paixões. Se a força das coisas os impede agora de fazer em rigor tudo isto, algum dia o fizeram, algum dia o farão. E desde hoje é como se o fizessem. Porque por definição o homem de guerra é nobre. E quando ele se põe em marcha à sua esquerda vai a coragem e à sua direita a disciplina…»
Moniz Barreto
In «Carta a el-Rei de Portugal», 1896

No pretérito dia 29 de Junho o Regimento de Comandos comemorou o 55.º aniversário da criação desta especialidade no seio do Exército Português.

O objectivo, na altura, era conseguir um corpo especial de tropas devidamente preparadas para combater duramente a subversão e a guerrilha, que tinham irrompido em Angola no fatídico dia 15 de Março de 1961.

Um genocídio que, se as autoridades políticas em Lisboa tivessem um pouco de pundonor, não deixariam esquecer tanto a nível jurídico internacional, como a nível da memória colectiva nacional.

Estes assuntos não prescrevem, nem devem prescrever.

A cerimónia decorreu nos seus moldes tradicionais mas sentia-se no ar um ambiente, não direi pesado, mas sim algo triste, a que não é seguramente alheio a pequena tragédia ocorrida durante a instrução do último curso de comandos e as ondas de choque que criou, cujas consequências estão longe de estar sanadas.

O abalo no Moral da «tropa» é extenso e não vale a pena esconder o sol com a peneira.

E muita coisa vai correr ainda em tribunal.

É preciso reagir.

Esta reacção creio, começou agora com o discurso do novo Comandante da Unidade um discurso atípico num Coronel do Exército em eventos deste jaez, que chamou alguns bois pelos nomes sem rodriguinhos de diplomacia barata.

Em primeiro lugar foi original nas saudações iniciais, não se limitando a repetir a «choca» existente para estas ocasiões, mas deu-lhe uma saudável nova aragem.

O que de resto levou o General-Chefe a responder-lhe logo no início do discurso que proferiu de seguida…

Tocou na crucial falta de efectivos e na adequação do equipamento e armamento à evolução moderna, «itens» em situação de ruptura (digo eu, que o discurso não chegou a tanto).

Falou na «Pátria» e na preservação dos «valores», assunto que no País, e sobretudo na classe política, constituem uma espécie de buraco negro do espaço…

Fez referências históricas adequadas, ligando-as aos antigos combatentes e às actuais missões fora de portas – estando disponível para todas as missões, mesmo as mais arriscadas, coisa cada vez mais rara em exércitos com algum gabarito – acrescento eu uma vez mais…

E como é tradicional, resumiu os principais eventos em que a sua unidade esteve envolvida, tendo uma palavra de camaradagem para quem o antecedeu, não se esquecendo da evocação dos falecidos. E tudo isto bem escrito e bem dito, coisa que vai sendo rara.

Na parte final do discurso, referiu-se à generalidade da comunicação social, acusando-a, com razão, do muito mau serviço jornalístico e informativo de que não raras vezes alardeiam.

Infelizmente, caro comandante, à míngua de leis adequadas enformadoras da liberdade de expressão e de imprensa; da falta de preparação e escrutínio profissional e deontológico a nível da Escola e da Empresa, e da lentidão da Justiça, que um conjunto de leis inadequadas potencia, só há uma maneira de lidar com os maus jornalistas: é como usava fazer o grande soldado que foi Paiva Couceiro!

Não é por acaso que, à parte os políticos – que não podem sequer ser confundidos com uma profissão – os jornalistas são das classes profissionais mais desacreditadas no País.[1]

Por tudo, caro coronel, os meus parabéns, respeitos e desejos de bom comando.

Assistir à cerimónia é, porém, uma dor de alma, senão vejamos:

A fanfarra e a Banda do Exército, pareciam ter tantos ou mais elementos do que militares com a especialidade «Comando», existentes em parada[2]; os convidados sentados nas tribunas aparentavam somar maior número do que a totalidade da formatura; 14 (catorze), foi o número que consegui contar relativamente aos instruendos que restam no curso que está a decorrer, que por vicissitudes relacionadas com o passado muito recente, não acabaram ainda a instrução o que os impediu de receber a boina e o «crachá»; e, até, o número de antigos comandos que normalmente são convidados neste dia par virem à «casa mãe», estava muito longe de dias de outros tempos.

É preciso ainda, ter sempre presente que um dia cerimonial pode ser um dia atractivo para atentados e a segurança, apesar de ser mais difícil, nunca deve ser descurada.

O ponto alto da cerimónia (e este dizer, só me responsabiliza a mim) foi a outorga do título de «comando honorário» ao General Rocha Vieira. Quando o Comandante da Unidade, seguindo o ritual lhe perguntou, «queres ser comando», a resposta foi espontânea, clara, firme, forte e dita com espírito de Alferes (se é que me faço entender) – quero!

Creio bem que as palavras seguintes, também do ritual, «então vai e cumpre o teu Dever», serão cumpridas escrupulosamente.

As coisas não estão de feição e estão à vista de todos.

Vai ter que ser como na Infantaria, «Ad Unum».

Até ao último.


[1] E mais uma vez ignoraram, na sua esmagadora maioria, a cerimónia sobre que ora escrevemos.

[2] Há várias décadas que as Bandas de Música Militares são as únicas unidades das Forças Armadas que têm os seus quadros orgânicos completos…





BOICOTE A NATIONAL GEOGRAPHIC. ATRAVÉS DE FALSA «DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA», O GANGUE TENTA DAR A VOLTA À CABEÇA DAS SUAS CRIANÇAS. CUIDADO!







domingo, 2 de julho de 2017

Recrutamento russo nas redes sociais




Luis Dufaur

Ladislav Kasuka redigia a sua costumeira diatribe stalinista contra o Ocidente num site checo quando começou a receber mensagens oferecendo-lhe dinheiro para organizar protestos de rua. A primeira mensagem, recheada de bajulações pelo seu trabalho, chegou em russo, enviada por alguém que ele desconhecia. De início, a oferta foi de 300 euros. Era para Kasuka, um esquerdista sem um tostão, comprar bandeiras e cartazes para uma manifestação pública contra a OTAN e o governo pró-ocidental da Ucrânia.

Em seguida, ofereceram-lhe mais 500 euros para comprar uma videocâmara e publicar os seus vídeos na Internet. Kasuka ficou perplexo, mas foi aceitando. Pouco depois estava enleado numa estranha trama que funcionava nas redes sociais teledirigida pela Rússia. O seu caso foi apenas um entre muitos na Europa Oriental e Central, resultantes de uma campanha de influência frenética, por vezes grosseira, financiada por Moscovo e dirigida por Alexander Usovsky, agitador nacionalista russo, sicário ideológico numa batalha para ganhar almas e mentes nos fios da Internet.

Ladislav Kasuka

O seu objectivo é recrutar activistas estrangeiros e irrigá-los com dinheiro fornecido por «oligarcas» e agentes do Estado putiniano. Usovsky «é um bom caso de estudo sobre os métodos russos», disse Daniel Milo, ex-funcionário do Ministério do Interior eslovaco, especialista em extremismo da Globsec, grupo de investigação de Bratislava. «Ele é uma pequena engrenagem de uma grande indústria. E poderia haver dúzias como ele», opinou Milo.

Usovsky montou uma rede de sites em várias línguas e criou uma fundação falsa, cuja fachada era promover a cultura. Apresentou orçamento de milhares de euros a Malofeev para promover candidatos pró-russos nas eleições polonesas, mas não conseguiu fazer vencer um só. Identificou contudo sócios na Europa Oriental e Central dispostos a receber a sua ajuda. Ampliou na Internet as vozes radicais, fez com que pequenas passeatas parecessem muito maiores do que eram.

Trabalhou com os media russos para garantir que «os seus» colaboradores estrangeiros recebessem ampla cobertura nos órgãos moscovitas. Por isso Kasuka, o stalinista checo, aparece habitualmente nos media russos como conceituado comentarista de geopolítica e de assuntos checos. Chegou a dizer por meio da Russia Today que os EUA poderiam lançar uma bomba atómica sobre a Ucrânia e culpar a Rússia para assim provocar uma guerra.

«É uma loucura total», comentou Roman Maca, analista sediado em Praga. «O Canal Um russo apresentou como notícia séria um protesto de 10 pessoas que na sua maioria seriam candidatas ao internamento num hospital psiquiátrico». Usovsky acabou por cair em desgraça, mas foi atrás de outros doadores com planos detalhados para montar uma «quinta coluna pró-russa», canalizando dinheiro para políticos anti-OTAN e a anti-UE.

Por sua vez, Kasuka desanimou das arruaças e agora concentra-se no estudo da filosofia marxista, dos «logros» de Stalin e da miséria causada pela exploração capitalista. Talvez esteja lendo a «Laudato Si».





quarta-feira, 14 de junho de 2017

ACERCA DA NOTÍCIA DA FUNDAÇÃO DE UM PARTIDO LIBERAL

Nota do Secretariado da Milícia de São Miguel

Foi divulgado pelos meios de comunicação a intenção de um grupo de pessoas fundar um novo partido de ideologia integralmente liberal. Na realidade, a filoxera do liberalismo já se instalou nos vários partidos, principalmente nas questões de natureza moral. Qualquer dos partidos do sistema da III República é dominado por dirigentes de cariz liberal e decadente. Esse novo partido confessadamente liberal não virá trazer nada de novo ao caos já existente.

Para melhor esclarecimento, o Secretariado da Milícia de São Miguel
publica a seguinte nota.

1 — No seu Manifesto, em geral em tom tecnocratista retocado com um pseudo-humanismo, o grupo liberal abstém-se de qualquer palavra em defesa dos valores morais da nossa Civilização, em particular da família natural.

Mais, o grupo liberal afirma o seu respeito pela «família»

«independentemente da sua forma» [I, 2].

E mais adiante explicita mesmo a defesa da igualdade de direitos

«independentemente de (...) orientação sexual» [I, 4, j)].

Em tais declarações, nada a estranhar pois verificamos que o grupo liberal se coloca no seu terreno ideológico e moral, reclamando afinal o campo que é naturalmente seu ao CDS dos ditos cristãos Portas e Cristas e ao PPD-PSD de Passos e dos grupos cavaquista e maçónico que presentemente o pretendem derrubar.

Com esse novo partido liberal, a ILGA pode continuar tranquila.

2 — O grupo liberal, na linha ideológica que lhe é própria, diaboliza o Estado em absoluto. O grupo liberal confunde os conceitos, a saber.


O Estado em que vivemos
, criado pela III República, já liberal nos aspectos morais, socialista noutros, agressor da família natural, opressor do cidadão e do investidor na fiscalidade e na burocracia, protector de interesses ilegítimos dos grandes grupos e maná para a classe política se nutrir.

O Estado liberal integral
, pretendido pelo grupo fundador, que conserva a decadência moral do Estado actual e abre completamente as portas ao esmagamento económico dos pequenos pelos grandes.

E o Estado moral e regulador
, ao qual aspira qualquer pessoa de bem, que defende os fracos dos fortes, os valores da Civilização, a Nação e o bem comum, regulando sem estorvar a livre iniciativa.

Tão maus para o cidadão e para o empresário são tanto o Estado em que vivemos como o Estado liberal integral. Apenas o Estado moral e regulador serve a Civilização, a Nação e o bem comum.

3 — O grupo liberal mostra-se zeloso na defesa do europeísmo, à la Merkel, isto é, em que Portugal abdica do controlo da sua economia [IV,d)].

4 — O grupo liberal utiliza na redacção do seu Manifesto o chamado «Acordo Ortográfico», o que não deixa de ser sintomático das suas preocupações sobre a cultura e a identidade nacional.


Lisboa, 13 de Junho de 2017