BLOGUE DA ALA DOS ANTIGOS COMBATENTES DA MILÍCIA DE SÃO MIGUEL

segunda-feira, 2 de novembro de 2015


Da batota à chantagem política


Dinis de Abreu, Sol, 27 de Outubro de 2015

Na comédia de enganos, estreada a 4 de Outubro, António Costa decidiu vestir o fato de vencedor sabendo-se vencido, e teve  uma frase enigmática à boca de cena (após o prólogo  com as  esquerdas) que os jornais puxaram para  título,  como se fosse um  fait divers  sonante: «É como se estivéssemos a deitar abaixo o resto do muro de Berlim».

Nos bastidores, o PCP deve ter perguntado ao Bloco se a piada era com eles, porque nada do que têm dito ou publicado no Avante! legitimaria tal despautério. E o Bloco, recomposto graças à inépcia dos seus dissidentes, terá achado provavelmente o dito irrelevante, entretido como tem andado a mostrar-se disponível para tudo.

Para quem esbracejava o antes inconfessado desejo de um governo de esquerda, com comunistas inconvertíveis, o absurdo é bem revelador da propensão de Costa para a utopia, que faz desconfiar qualquer pessoa com um módico de lucidez. Ora, não se brinca com coisas sérias.

A queda do Muro de Berlim foi um dos mais formidáveis acontecimentos da história do século XX, ao reunificar um país, devolvendo a liberdade a milhões de cidadãos separados por quilómetros de arame farpado.

Quem hoje visite Berlim encontra ainda, em vários pontos do percurso do antigo Muro, os resquícios dessa afronta civilizacional, que custou a vida a muitos desesperados.

Um Muro que o PCP sempre defendeu, quando os seus dirigentes se passeavam com os antigos líderes da RDA, convidados habituais da Festa do Avante!

Num virtuoso passe de mágica, Costa quis passar um certificado de bom comportamento a Jerónimo e a Catarina, como se ambos tivessem renunciado aos dogmas que trazem colados à pele, onde a democracia não passa de fachada útil para alcançar o poder, fieis à ditadura do proletariado.

Disse-o, e bem, Jaime Gama, antigo dirigente socialista, num painel do Observador, onde explicou o «manual do PCP», no qual «tudo se justifica no terreno da táctica, mesmo o disfarce».

António Barreto, outro socialista, lembrou num pedagógico artigo no DN que «o PCP integra o sistema democrático pela simples razão de que a democracia é o regime de todos, incluindo os não democratas».

Barreto não tem dúvidas de que, «a ter de ficar nas mãos de alguém, prefiro mil vezes os credores aos comunistas. Destes, sei que não se sai vivo nem livre».

O colapso do comunismo no Leste europeu, embora tenha varrido de cena os principais partidos que dele se reclamavam – em Espanha, Itália ou França – não beliscou o PCP, nem os seus satélites. Recobraram ânimo e arrogância.

O PCP não mudou, salvo no estilo, mais sofisticado. E o Bloco, descontados os sorrisos postiços, é tão trotskista e maoísta como no tempo de Louçã, que continua de batina a orientar a missa a partir da sacristia.

Ora, como pode António Costa invocar, com a ligeireza de um prestidigitador, o derrube do «resto do Muro de Berlim» ao negociar um governo – ou uma plataforma –, com quem não se desviou um milímetro da sua ortodoxia rígida?

Se tudo isto não fosse uma manifestação patética de mau perder e de falta de seriedade política, o delírio das negociações do PS com as esquerdas até poderia ser cómico. Infelizmente, é uma manipulação perigosa. O país não é um laboratório.

Até Manuela Ferreira Leite, ao despertar de um sono estranho, percebeu o logro em que caíra e declarou no seu espaço televisivo que o que António Costa «está a fazer é um verdadeiro golpe de Estado» sem «nenhum mandato para se aliar à esquerda». Ou seja, é uma «fraude para os eleitores».

A antiga líder do PSD tem estado bem acompanhada nos seus receios. Francisco Assis veio de propósito a Lisboa dizer quase o mesmo, num discurso de filigrana fina. E Sérgio Sousa Pinto não hesitou em bater com a porta no secretariado socialista, em aberta discordância com a deriva de Costa.

A fractura no interior do PS parece irreversível, caso se verifique o cenário da «maioria de esquerda», uma impostura após o simulacro negocial com o PSD e CDS.

Não se acredita que Cavaco caia na esparrela de viabilizar um enredo contranatura. Todavia, à saída de Belém, concertados, Costa e Catarina brandiram a «perda de tempo» se o Presidente indigitar Passos Coelho. E Jerónimo acolitou. Depois da batota, é a chantagem política.

Carlos César – um carreirista açoriano sem emprego fora da politica que se lhe conheça – veio dizer na TVI que os termos do acordo com o PCP e o Bloco só serão mostrados após a indigitação de Costa. Um jogo escondido.

Entretanto, às escâncaras, os eurodeputados do PCP anunciaram que pretendem levar a debate no Parlamento Europeu a saída de Portugal do euro e a «renegociação da dívida».

É o jogo escondido… com o rabo de fora, numa novela de maus costumes.





sábado, 31 de outubro de 2015


Frentes populares


Jaime Nogueira Pinto, Sol, 27 de Outubro de 2015

A ideia de «unidade das esquerdas» num país como Portugal, onde o leque político-partidário com representação parlamentar vai do centro-direita à extrema-esquerda, pode e deve causar perplexidade.

O regime saído do golpe de Estado militar de 1974 e do PREC que se lhe seguiu, exorcizou, denegriu e proibiu as direitas e a Direita, inventando até, para isso, um preceito contra «organizações fascistas». Assim, sem formações políticas nem quadros partidários e sob uma pressão constante de diabolização, a direita viu as suas ideias rotuladas como impróprias para consumo por pessoas honradas e de bom coração. E o «povo da direita» teve que se arranjar com o que havia.

Como o centro e as esquerdas também competiam entre si, os eleitores de direita foram votando «útil», oscilando, conforme o tempo e as circunstâncias, entre o PS, o PSD e o CDS. E até deram vitórias a coligações ou partidos do centro-direita: à primeira AD em 1979, à primeira maioria cavaquista nos anos 80 e ao PSD e CDS em 2011.

A ambiguidade dos partidos do «arco da governação» quanto a matérias ideológicas tem sido a regra. O PS, ora foi socialista, ora meteu o socialismo na gaveta, ora namora ao centro, ora à esquerda. Na ânsia de não serem acusados de «salazarismo» ou de «fascismo» pela DGCI (Direcção-Geral da Correcção Ideológica), os dirigentes políticos da não-esquerda também foram banindo toda e qualquer referência aos valores de orientação permanente que identificam a direita política. Deus, a nação, a família, o trabalho, a justiça, parecem ter sido abandonados e trocados pelo liberalismo e pelo europeísmo radicais.

Com a «direita» neste vazio defensivo e as esquerdas a multiplicarem-se em proclamações e variantes ideológicas – até «patrióticas» –, todos vão procurando cautelosamente disfarçar as suas ligações históricas.

Ninguém associará as animadas e simpáticas coordenadoras do BE às figuras sinistras de Trotsky e da Quarta Internacional; muito menos o rosto bem português e de bom português do secretário-geral do PCP lembrará a tradição ortodoxa do Partido Comunista, a União Soviética, José Estaline e o gulag. Só o MRPP, ao sanear o mal-sucedido timoneiro (que não cedendo à nova vaga continuou a pedir morte aos traidores), lembrou os métodos de alguma esquerda radical que agora quer passar por libertária.

De resto, as frentes populares foram curtas e correram mal ou muito mal, com os parceiros pensando sempre na melhor forma de se livrarem da muleta da esquerda ou da direita. Os socialistas alemães de Weimar foram os que foram mais longe, quando se aliaram aos corpos francos para liquidarem os spartakistas; na Rússia, os bolcheviques  foram acabando com todas as outras esquerdas e as frentes populares de 1936, a espanhola e a francesa, também acabaram por se desfazer.

É que há, de facto, ideias e princípios diferentes e consequentes, além das conjunturais raivas ao «inimigo principal». E as ideias e os princípios têm consequências. Na esquerda e na direita. E até no centro.






O tenente-coronel Brandão Ferreira

sobre o processo de Manuel Alegre


João José Brandão Ferreira, Oficial Piloto Aviador
Cartão de cidadão n.º 02171021
B.I. Militar n.º 014391-L

NOTIFICAÇÃO PÚBLICA. O cidadão Manuel Alegre, deputado e conselheiro de Estado, interpôs, em 2011, contra a minha pessoa, um processo judiciário em que me acusava de difamação por via de um artigo que escrevi e foi publicado no Jornal «O Diabo», em 3/5/2010, intitulado «Manuel Alegre combatente por quem?».

Durante o processo surgiu a contingência de ter de efectuar despesas extra, necessárias à boa conclusão da contenda – a qual como se sabe, apesar de não referida nos órgãos de comunicação social, terminou no tribunal da Relação de Lisboa, pela improcedência da acusação. E absolvição do arguido.

Estávamos em Fevereiro de 2015.

Para fazer face às despesas referidas foi lançada, por pessoa amiga, a quem não é demais agradecer, uma subscrição pública, em universo seleccionado, tendo para tal sido aberta a conta bancária NIB 0035 0044 0007 2752 2004 4, da CGD.

Comprometi-me, na altura, a doar o remanescente, caso se verificasse, a uma instituição de solidariedade social.

No fim do processo, apurou-se o saldo de 2 554,53 euros, que foram doados, por transferência bancária, em 14/9/2015, para a Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) – o que me pareceu adequado, por o processo ter tido como fulcro, o conflito em que Portugal foi chamado às armas para defender o seu território, seus naturais e respectivo património, entre 1954 e 1974.

A ADFA acusou a recepção de tal donativo através do ofício n.º 08/Del.Lisboa/2015, de 29 de Setembro de 2015.

Deste modo dou público conhecimento do ocorrido (e estarei disponível para esclarecer qualquer dúvida) não podendo esconder, comovido, o agradecimento a todos aqueles que depositaram confiança na minha pessoa e na causa que defendia, contribuindo com a sua generosidade para o bom desfecho do processo.

Penhorado me subescrevo, gritando bem alto o valor da Justiça e o nome de Portugal.





quarta-feira, 28 de outubro de 2015


Palestra sobre Cristóvão Colon



O Clube da Associação da Força Aérea (AFAP) organiza na próxima quinta-feira, dia 29 com início às 11,15h uma palestra sobre a Vida e a Pátria de Cristóvão Colon, na qual intervém a Direcção da Associação Cristóvão Colon, seguida de debate.

Convidamo-los a participar.

Entrada livre.

Clube AFAP - Av. Almirante Gago Coutinho 129, Lisboa


Cumprimentos


Carlos Calado
(Presidente da direcção ACC)





quarta-feira, 21 de outubro de 2015


A migração na Alemanha

«Oktoberfest» multicultural em Munique?


Norberto Toedter

Procurei notícias sobre como se teria desenvolvido, este ano, a tradicional OKTOBERFEST, em Munique. Estava marcada entre 19 de Setembro e 4 de Outubro. Ao mesmo tempo, estavam a chegar, diariamente, 10 mil refugiados, à estação ferroviária central da cidade. Nada vi nos noticiários. Nem o Google esclarece coisa alguma.

Em compensação, encontrei o texto de uma carta que uma médica checa escreveu a um amigo. Ela é anestesiologista e trabalha num hospital de Munique. Veja o que está a acontecer no actual ambiente multicultural da Alemanha, segundo o que ela relata e eu traduzi do inglês.

«Ontem tivemos uma reunião sobre como a situação aqui e noutros hospitais de Munique ficou insustentável. As clínicas não conseguem lidar com emergências e assim começam a enviar tudo para os hospitais.

Muitos muçulmanos recusam-se a ser tratados por funcionários do sexo feminino e, nós, as mulheres, recusamos-nos a trabalhar entre animais, especialmente africanos. As relações entre a equipa e os migrantes está indo de mal a pior. Desde o último fim-de-semana, migrantes que vão a hospitais têm que ser acompanhados por policias.

Muitos migrantes têm SIDA, sífilis, tuberculose aberta e muitas doenças exóticas que, aqui na Europa, nem sabemos como tratar. Se recebem uma receita, aprendem na farmácia que têm que pagar com dinheiro. Isto leva à explosão de insultos inacreditáveis, especialmente quando se trata de remédios para crianças. Abandonam as crianças com o pessoal da farmácia e dizem: Então, curem-nas vocês! Portanto, a polícia não tem que proteger apenas clínicas e hospitais, mas também farmácias.

Só podemos perguntar: Onde estão todos aqueles que, nas estações ferroviárias e na frente das câmaras de TV, mostram cartazes de boas-vindas?

Sim, por enquanto as fronteiras foram fechadas, mas um milhão deles já está aqui e, definitivamente, não seremos capazes de nos livrar deles.

Até agora, o número de desempregados, na Alemanha, era de 2,2 milhões. Agora vai ser 3,5 milhões. A maioria destas pessoas é completamente não-empregável. Um mínimo deles tem alguma educação.

E mais: as suas mulheres não fazem coisa alguma. Estimo que uma em dez está grávida. Centenas de milhares trouxeram consigo lactentes e crianças menores de seis anos desnutridas e negligenciadas. Se isto continuar, e a Alemanha reabrir as suas fronteiras, eu voltarei para casa, na República Tcheca. Ninguém vai poder segurar-me aqui, nem com o dobro do salário. Eu vim para a Alemanha e não para África ou Próximo-Oriente.

Mesmo o professor que dirige o nosso departamento falou da tristeza em ver a mulher da limpeza a fazer o seu serviço, há anos por 800 euros, e depois encontrar homens jovens estendendo a mão, querendo tudo de graça e, quando não conseguem, alteram-se.

Eu realmente não preciso disto! Mas estou com medo de, se voltar, encontrar o mesmo na República Checa. Se os alemães, com os seus recursos, não conseguem lidar com isto, lá seria o caos total. Ninguém que não tenha tido contacto com eles pode ter uma ideia de que espécie de animais que são, especialmente os de África, e como os muçulmanos agem com soberba religiosa sobre a nossa equipa.

Neste momento, o nosso pessoal ainda não foi reduzido, em consequência das doenças trazidas para cá, mas, com centenas de pacientes todos os dias, isto é apenas uma questão de tempo.

Num hospital perto do Reno, os migrantes atacaram a equipa com facadas, depois de trazerem um recém-nascido de 8 meses, que estava à beira da morte, arrastado através de meia Europa, durante três meses. A criança morreu, após dois dias, apesar de ter recebido os melhores cuidados, numa das melhores clínicas pediátricas da Alemanha. O médico teve que passar por a cirurgia e as duas enfermeiras foram para a Unidade de Tratamento Intenso (UTI). Ninguém foi punido. A imprensa local está proibida de noticiar. Nós ficamos a saber por e-mail.

O que teria acontecido a um alemão, se tivesse esfaqueado um médico e duas enfermeiras? Ou se tivesse jogado a sua própria urina, infectada por sífilis, no rosto da enfermeira e ameaçado-a de contaminação? No mínimo, iria ser preso imediatamente e depois processado. Com este povo, até agora, nada aconteceu.

Então, pergunto: onde estão todos aqueles que saudaram a sua vinda e os recepcionaram, nas estações ferroviárias? Sentados, bonitos em casa, curtindo as suas organizações não-lucrativas, aguardando ansiosamente os próximos comboios e o próximo lote de dinheiro para pagamento dos seus préstimos como recepcionistas???!!!

Se fosse por mim, arrebanharia todos estes recepcionistas e traria-os primeiro aqui, para a ala de emergência do hospital, para agirem como enfermeiros, depois para um alojamento de migrantes, para que possam mesmo cuidar deles lá, sem policias armados, sem cães policias, que hoje podem ser encontrados em todos os hospitais da Baviera, e sem ajuda médica.»

Eis o teor do desabafo desta profissional, que nos pode dar uma ideia do que está a ser preparado, como futuro, através da multiculturação, que está a ser impingida aos povos do velho continente, principalmente à Alemanha.





quarta-feira, 14 de outubro de 2015


Costa no seu labirinto


Maria de Fátima Bonifácio, Observador, 11 de Outubro de 2015

«Costistas» no PS são todos aqueles que se servem de António Costa para que usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a «importância», os «lugares», as prebendas e o acesso ao «spoils system».

Parto para a análise da intrincadíssima situação em que o País mergulhou, pela mão traiçoeira de Costa, de quatro dados que ou têm sido omitidos ou pouco valorizados. São, para mim, dados essenciais e decisivos. Essenciais significa essenciais. Decisivos significa que determinaram tudo até agora e continuarão a determinar no futuro. Apenas não sei qual é o limite temporal deste futuro, nem qual será o seu desfecho. Esses dados são:

1.º Costa é um homem absolutamente desesperado.

2.º Costa já não tem nada, mas mesmo nada de nada a perder.

3.º Tudo o que não seja chegar a primeiro-ministro não basta para o salvar.

4.º Costa não tem carácter, não é homem de palavra, não olha a meios.

O desespero é mau conselheiro em todas as circunstâncias. No caso de Costa, em que o desespero ainda por cima se conjuga com o vexame pessoal, a primeiríssima prioridade do ex-Messias é salvar a sua pele, custe o que custar, doa a quem doer, pague quem pagar. País, partido, eleitores e simpatizantes foram banidos do perímetro das suas preocupações, no interior do qual ele esbraveja como um náufrago para se salvar. Está disposto a tudo, a renegar tudo, a arrasar tudo, desde que ele se erga dos escombros – e escombros já há – e possa anunciar: venci todos, ganhei tudo! Da plateia do seu palco imaginário, o PCP e o Bloco soltarão uma sonora gargalhada. O triunfo anunciado por Costa repousa por inteiro nas mãos deles. No momento propício e oportuno para cada um destes dois adversários entre si, cada um deles lhe puxará o tapete para que todos possam ver que «o rei vai nu».

Costa já não tem nada a perder. Jogou tudo, apostou tudo naquele fatídico dia em que escarneceu da vitória «poucochinha» por que Seguro ganhara as europeias à Coligação. Ficou obrigatoriamente comprometido com o imperativo irrevogável de lhe contrapor um triunfo esmagador nas legislativas de 2015. Durante um ano andou levado em ombros, empunhando a taça dos vencedores, muito antes de ter vencido e de a batalha começar. Perdeu abjectamente. A muito ténue esperança que lhe restava (ou já nem isso?) a poucos dias do 4 de Outubro transmutou-se num ápice numa tormenta. O vexame era insuportável. De uma penada, perdia um curriculum de décadas, o sonho de uma vida, um presente triunfal, e diante de si abria-se um futuro vazio. É formado em Direito, mas não é jurista, e teria de recomeçar a advocacia por um segundo estágio. Não exerce profissão para que se possa virar. Aos cinquenta e quatro anos já não se pode começar nada. Sem um passado sobre o qual se continue a construir para a frente, o resto da vida não passará de um frustrante remedeio. Ou seja, não é vida. A solução para este desastre pessoal surgiu rápida: não vencera as eleições, mas ainda podia vencer o eleitorado.

Nos dias que se seguiram ao tétrico veredicto das urnas, Costa entrou na sua, muito dele, «espiral labiríntica». Em abono da verdade, já antes dera sinais: anunciara que chumbaria qualquer Orçamento de Estado que a Coligação apresentasse, no caso, enunciado como mera hipótese académica, de o «seu» PS não vencer com a maioria absoluta que diariamente implorava aos portugueses. Na noite televisiva, Costa apresentou-se amarelado e com ar grave. Declarou que não faria «coligações negativas», das que servem só para bota-abaixo. Mas não tardou a ser ele mesmo: com sorriso aberto e ar galhofeiro, garantiu à audiência que não se demitiria… Percebeu-se que se extinguira nele qualquer vestígio, ténue ou remoto, da mais elementar dignidade. E logo a partir de 5 de Outubro percebeu-se também, à medida que muitos socialistas começavam a rosnar, que em seu entender havia uma única coisa que o poderia ainda salvar: chegar, efectivamente, a primeiro-ministro de Portugal. Tudo o que fosse um milímetro menos disto não bastava, não dava para as necessidades (já direi quais eram). Tornar-se o mero líder de uma bancada comprometida com um «entendimento» com o governo Passos Coelho/Paulo Portas? Nem pensar.

Vamos então pôr mãos à obra e vencer o eleitorado. Um político honrado não faz uma coisa tão feia? Mas Costa já fizera coisas feíssimas! Como acontece com qualquer droga, o pior é começar: o vício entranha-se e naturaliza-se imediatamente. Em Fevereiro de 2013 assinara com Seguro o Documento de Coimbra, «Portugal Primeiro», para o qual disse que tinha contribuído e no qual também disse que se revia. Deu «os parabéns» a Seguro pelo «entendimento» a que se chegara e desistiu da sua candidatura a secretário-geral. Este documento de orientação estratégica, assinado por Costa e Seguro, foi aprovado pela Comissão Política do PS e serviria de base à moção de estratégia aprovada no Congresso do PS de 26-28 de Abril. Costa discursou: «Estamos aqui juntos, juntos somos fortes, juntos somos imbatíveis, juntos venceremos tudo: autárquicas, europeias e legislativas.»

Oito meses depois, em Janeiro de 2014, Costa rasga o Documento de Coimbra assinado por si, renuncia ao mandato de Presidente da CML que jurara cumprir até ao fim. E o resto já toda a gente sabe: ganhou por margem albanesa as primárias e defenestrou Seguro do Rato. Calçou os patins e durante algum tempo encontrou piso liso e desembaraçado. Ao primeiro teste à sua envergadura, falhou logo. António Nóvoa saiu-lhe ao caminho com muita poesia, candura e total abertura: outro homem disposto a tudo para chegar a Belém, com poucos escrúpulos (não sabia se era crente, nem se gostava mais do PS ou do PC), muitíssima ambição disfarçada de modéstia, e completa abertura: venha um governo de esquerda, acabe-se com esse aberrante «arco da governação». Problema: Nóvoa dividia o PS. Solução: um dia sim, outro dia não. Nóvoa ficou a cozer em lume brando para o que desse e viesse. E ainda hoje não se fartou de servir de roda sobresselente; outro homem de carácter.

Costa contratou Centeno para lhe dar números que ele não percebia. Who cares? Tinha números, tratava as coisas a sério. O generoso programa assente em tão claros números era sólido. Provavam matematicamente que a austeridade era dispensável sem com isso comprometer as obrigações para com a Europa, o Euro e o Tratado Orçamental. Mas a esquerda dentro do PS logo descobriu, sob o fresco verniz socialista de Centeno, um economista neo-liberal. Disto mesmo se queixava o Bloco, e também o PC: Costa não tinha a coragem de «cortar com as políticas de direita» com que o PS desde sempre andara amancebado. Costa encheu-se de mais coragem. A poucos dias do fim da campanha eleitoral deu uma valente guinada para a extrema-esquerda. E no dia seguinte às eleições perdidas, encheu-se da coragem toda: declarou guerra contra os eleitores.

Tenho-o visto como os grandes campeões de xadrez que se deslocam de mesa em mesa jogando com vários parceiros ao mesmo tempo. Mas Costa não é campeão de nada (com a possível excepção de um sórdido tacticismo). Transformou-se num pedinte que mendiga apoio para um governo seu. Renega a Tradição do PS como fronteira da liberdade e arrasta o partido pelo chão até às moradas dos seus piores inimigos. Nada disto o envergonha. E, espantosamente, não lhe ocorre que o feitiço se possa virar contra o feiticeiro. A primeira porta a que bateu foi a do PC, catedrático da astúcia estalinista. Jerónimo, aconselhado pelo ainda mais indefectível Francisco Lopes, mostrou-se afável, tolerante, aberto, com a singela condição de que o PS «corte com as políticas de direita» que ao longo das décadas têm feito dele um servo do Capital. Costa saiu satisfeito, a reunião foi «muito positiva». Ou seja, muito naturalmente, da noite para o dia, o PCP fizera uma transfusão de sangue e eliminara Cunhal, a Tradição e Toda a Tralha Estalinista. Costa meteu-se pela boca do lobo dentro e pediu o Diabo em casamento. Mas necessita de bigamia, porque os deputados comunistas não bastam. Amanhã, segunda, ainda terá de levar o PS a rastejar até à morada do Bloco.

Disse que já havia escombros. O PS sempre foi um partido com uma ala mais centrista e uma ala mais a puxar à esquerda. Sócrates deixou lá dentro uma facção própria que complicou esta antiga arrumação a que todos estavam habituados. Mas com António Costa, o Partido Socialista está inextricavelmente balcanizado: são os socratistas, os alegristas, os seguristas, os galambistas, os soaristas de Mário e de João Soares, alguma «tralha guterrista», e, surpresa das surpresas, os novíssimos «nunistas». Sim, nunistas, uma seita ruidosa cujo representante máximo, um tal Pedro Nuno Santos, Costa leva sempre consigo na augusta delegação socialista que peregrina pelas outras sedes partidárias. Galamba há muito que se celebrizou por ser sempre uma espinha cravada da garganta de qualquer moderado. De Nuno Santos só me lembro do momento em que berrou no Parlamento, com hercúlea coragem, «Quero lá saber da Troika ou da Europa!» Pelos vistos, singrou. Finalmente, há pelo menos ainda um grupo de «costistas». Mas quem são, afinal, os costistas? Indaguei junto dos meus amigos socialistas (que são a maioria). Ninguém me soube dizer ao certo. Concluí, portanto, por minha conta e risco. «Costistas» são todos aqueles que se servem de António Costa para que ele usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a «importância», os «lugares», as prebendas e o acesso ao «spoils system» a que já se tinham habituado. Uma excepção honrosa cumpre desde já destacar: Sérgio Sousa Pinto não teve estômago para semelhante caldeirada. Demitiu-se ontem do secretariado do PS.

Toda esta tropa heterogéna só perdoará a Costa a hecatombe em que lançou o partido se for transitória e rapidamente invertida. Costa carece do seu apoio para conferir existência coerente ao «costismo» e dispor de novo de um partido submetido à sua autoridade, que aliás nunca chegou a ser indiscutível. Para tanto, precisa de ser primeiro-ministro. Menos um milímetro do que isto já não lhe chega para salvar a sua pele. Pague quem pagar, pague o PS e o País todo. Porque se lá chegar, a história ainda estará muito longe de terminada.